A gente já está de olho nisso faz um tempo já. Mas com a recente passagem do herói indie Mac DeMarco pelo Brasil, o mais recente ainda festival 5 Bandas e o anúncio “variado” de mais uma edição do Circuito – Nova Música, Novos caminhos já com bons ingressos vendidos em poucos dias a coisa ficou mais latente.
Os nove shows do canadense DeMarco pelo país em oito cidades diferentes, principalmente os realizados no nosso maior foco, São Paulo, dizem muito por si só. Trazido pelo selo e produtora Balaclava Records, os ingressos para o sábado na Audio Club esgotaram em questão de horas. Diante da demanda, uma segunda data, no domingo. Dois dias, casa cheia duas vezes. Nada trivial para um show de música alternativa em São Paulo em 2026.
Cheguei por volta das 20h45 à segunda data, como exemplo, e a tumultuada fila às vezes dupla, às vezes tripla que se estendia pela Avenida Matarazzo em pleno domingo, já entregava esse cenário antes mesmo de a casa abrir suas portas.
O que me chamou atenção não foi a quantidade de pessoas. Foi a coerência estética de grupos que nunca combinaram entre si, e exatamente por isso combinavam perfeitamente.
Era um mar de camisetas oversized, bonés vintage, shoulder bags, vestidos leves com botas pesadas, calças largas, listras, Vans e Adidas gastos. Dá para contar um pouco de xadrez, em um bom gole do imaginário e estética “clichê” do skatista californiano aqui e ali, e o clássico camisetas-de-banda-que-parecem-ter-sido-escolhidas-a-dedo para a ocasião. Cabelos levemente bagunçados, daqueles que certamente levaram um bom tempo no espelho, e uma expressão muito específica: a de quem sabe exatamente o que está fazendo, mas prefere fingir que não.
Tinha gente que conhecia Mac DeMarco desde “2”, seu álbum de estreia de 2012. Tinha gente que conheceu semana passada. Dentro da casa, as duas tribos cantaram juntas como se não houvesse diferença, e honestamente não havia. “Ode to Viceroy” é “Ode to Viceroy” independente de quando você entrou na festa.
O próprio Marquinhos, apelido carinhosamente dado ao artista pelo fandom brasileiro, reconheceu o elefante na sala. Oito anos sem vir ao Brasil é tempo demais, e ele disse isso do palco com aquela cara de quem está pedindo desculpa, mas que também sabe que está perdoado. Esse tempo é suficiente para a formação de dois tipos de fãs para o mesmo artista. A gente já viu isso claramente com Strokes e Arctic Monkeys, para citar só esses dois.
No caso aqui de DeMarco estava, claro. “Freaking Out the Neighborhood” foi delírio puro na reta final do show, como se ninguém jamais tivesse ficado com raiva por alguma coisa algum dia, seja o fã mais roots ou o adorador mais novo.
Em meio a várias tribos, o público da Balaclava, já uma instituição indie bem maior do que um simples selo e produtora, ali tem uma coisa curiosa: ele consome por convicção. Não é o pessoal que vai porque é o show do momento. É o pessoal que foi ao show porque já sabe a discografia inteira.
A Balaclava especificamente descobriu esse povo no momento certo e nunca mais soltou. São aquelas pessoas que recomendam música com uma intensidade levemente assustadora, que encaminham link de Bandcamp no grupo às 23h e ficam esperando você responder. Você conhece. Talvez você seja assim, em alguma medida.
Mas o indie paulistano não é só esse povo. São Paulo tem um problema bonito: ela não tem uma cena indie. Ela tem várias.
Esteticamente, essa nova geração de indies paulistanos moram ou circulam por bairros que já foram boêmios, mas que e agora são caros e até um pouco coxas, como Pinheiros, Vila Madalena, Vila Buarque, carregando um ressentimento gentil contra o processo de encarecimento que os a empurram para os limites dessas fronteiras.
Casas como a Rockambole, na divisa entre Pinheiros e Vila Madalena, tornaram-se pontos de encontro dessa cena, com centenas de eventos realizados somente em 2025. São espaços menores e mais abertos, onde a diferença entre artista e público quase desaparece de propósito. E ali está o “Povo Balaclava”. Mas tem outros povos também.
Enquanto isso, a 20 minutos dali, o público do bar Mamãe parece uma outra civilização. A casa na Barra Funda, daquelas para tomar cerveja de pé na calçada, surgiu recentemente, em 2023, e vem abrindo espaço para shows num clubinho anexo de gente que você provavelmente não conhece. E esse é exatamente o ponto. Se você conhece, perde um pouco a graça.
Visual: com menos curadoria que o da galera Balaclava, com um senso estético mais incidental, digamos, parece até mais sincero. Camiseta da banda que nem a banda sabe que existe ainda em sobreposição à saia xadrez de brechó e botas gastas de couro compradas em eurotrips. E um tabaquinho na ponta dos dedos para circular entre o Mamãe e o bar em frente, apelidado de Papai, que é bem mais “raíz” com sua sinuquinha.
O rolê do Mamãe é ficar na rua, longneck ou drinkinho na mão, entrando só para ver os shows que oscilam entre o indie e a Nova MPB indie, ou curtir um pouquinho dos DJs sets que acontecem no anexo, aberto neste último verão. Ali é onde rola o cruzamento entre as classes artísticas, entre os cults do cinema e audiovisual, e os up-and-comers do indie nacional. É uma galera mais jovem, ou que não quer largar a juventude, e abarrota a rua até bem depois dos horários de funcionamento de Pinheiros e cia, o que é um problema para o bar com seus vizinhos. Desobediência indie.


Voltando ao limite Pinheiros-Vila Madá, tem o Porta, que mora num meio-termo delicioso não só geográfico. Tudo acontece basicamente numa casa rosa ao lado do Cemitério São Paulo. Em seus três níveis, dá para curtir uma pistinha, drinks, ensaiar com sua banda no estúdio ou comer um lanche enquanto compra um disco de vinil na loja nos fundos da casa.. É o encontro do Mamãe, da galera Balaclava e do Bar Alto, outro lugar “indie” da região. , que “dança” ao som de um show gringo alternativo, dos projetinhos do novo rock e das abarrotadas festas que vão do eletrônico ao latino, sem tanta identidade. Ou, melhor, com várias identidades, porque o indie há muito tempo é plural, não mais coisa de nicho.
Mas ainda sobre a frequência do Porta, ela vai se moldando aos eventos que acontecem na pista, seja uma noite de música experimental japonesa, um DJ set de drum n’bass ou um show da mais nova banda da CENA. A programação consegue unir todos os indies e se tornou o point para artistas de “momentos diversos” até, como Ottopapi e Tim Bernardes.
Engana-se quem pensa que só de rock alternativo vive a cena independente em São Paulo. Ela vai além com ainda mais multiplicidade de tribos que rompem com a cartilha roqueira.
Num recorte rápido além-indie, e entre batidas de techno, house e sets experimentais, a cena eletrônica de vanguarda em São Paulo ganha vida em noites festejadas em galpões industriais, ruas e prédios históricos. Ícone deste movimento, a veterana “Mamba Negra” celebra mais de dez anos, e mais que uma festa é um território de resistência focado na cena queer-negra, destacando-se por políticas de inclusão, como o acesso gratuito para pessoas trans, e por transformar espaços urbanos em palcos de diversidade e representatividade. E isso define seu povo esteticamente.
E, se a Mamba Negra é o coração do techno industrial em São Paulo, a festa Batekoo é a maior celebração das culturas urbanas negras e LGBTQIAPN+ do Brasil. Recentemente a cantora Doechii, atração do Lollapalooza deste ano e por isso de bobeira na cidade, foi vista dançando na pista de uma edição realizada da Batekoo no edifício Martinelli, reforçando que o underground se tornou o novo palco de validação para o mainstream, digamos. E a autenticidade das margens é o que hoje dita sua relevância artística.
Para o after do seu show no Lolla, o último da turnê, a conhecida cantora neozelandesa Lorde escolheu para cair na pista a festa Madre Celebration, selo e agência que foca no protagonismo de artistas pretos, trans e da cena eletrônica underground.
Esse tipo de celebração já se tornou tradição na Zig Studio, a badalada casa noturna da Barra Funda, quase (?) embaixo de um viaduto. O espaço é o maior e mais ousado braço do “império” Zig (que hoje conta com festival próprio), focado no pop alternativo para o público LGBTQIA+. Nomes como Katseye, Kesha, Gossip, Jade, Arca e Shygirl já passaram por lá depois de seus compromissos no Brasil, além da própria Charli XCX, que escolheu o lugar para a festa Partygirl no início da era Brat.
Acredite, o pulsar dos rolês musicais de São Paulo tem bem mais camadas do que estas que apresentamos aqui, juntas ou misturadas. Não falamos do jazz indie, não citamos os “muquifos sonoros” atuais do “bairro da moda” da vez: as Perdizes, ou da nova Perdizes, ou Pompeia West, ou seria as intersecções com a Lapa?. Depende agora do seu GPS.
Noite destas, na saída de uma festa no Porta, um produtor gringo americano, que tinha vindo numa outra ocasião ao Brasil acompanhar o ícone roqueiro Neil Young no longínquo Rock in Rio de 2001 e tinha esticado até São Paulo, disse esbaforido que a cidade tem uma noite que não deve nada a nenhuma dos EUA que ele conheça, Los Angeles e Nova York incluídas. Afirmou ainda que, vindo de um show do Bar Alto, passando no Porta e a caminho de encontrar amigos na Barra Funda, ficou encantado como a cena da música nova tem mostrado uma diversificação de público, do estilo à idade, em que mesmo com suas diferenças todos cabem em qualquer evento.
O que leva a uma divagação final depois que avistei dois caras conversando empolgados e com bastante energia na saída do Mac DeMarco naquele domingo. Era muito distante para escutar precisamente o diálogo, mas poderiam estar facilmente discutindo qual álbum de Marquinhos era o melhor (spoiler: é sempre “Salad Days”, mas eles fingem que é o mais recente para parecerem menos óbvios).
Ou talvez estivessem trocando uma ideia de como o novo álbum da Slayyyter tem sido merecidamente aclamado pela crítica. Mais para inofensivamente se mostrarem atualizados nos assuntos musicais sem nenhuma pretensão de defender uma imagem intacta de roqueiro nos dias atuais.
Tudo seguido por um silêncio inconclusivo para, por alguns segundos, comprarem duas latas de Heineken dos vendedores ambulantes ali na rua para continuarem esticando os papos e antes de finalmente pedirem um Uber para casa, afinal já era um domingo tarde da noite e aparentemente, vai saber, não tinha nenhum outro lugar para saírem dali e esticar a night.
Isso é a cena indie paulistana em 2026, apaixonada, um pouco blasé (algum dia não foi?) e absolutamente necessária.
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* Com colaboração de Lina Andreosi.