Uma semana de muitos sons e muitas afirmações. A Kelela parece que vai entregar o disco de rock do ano, os Stones voltam incrivelmente os mesmos e legais como sempre, afinal é rock n’ roll e a gente gosta, enquanto o Kneecap, a banda mais combatida e combatedora do mundo, luta pelo primeiro lugar das paradas! E ainda tem Olivia Rodrigo, Kacey Musgraves, Iceage, Diles Que No Me Maten. É muita coisa boa ao mesmo tempo neste humilde ranking de músicas boas que a gente prepara para você semanalmente.

Depois do clima roqueiro no single “Idea 1”, Kelela anuncia que de fato vai mergulhar mesmo no rock. Seu novo disco se chamará “New Avatar” e será uma volta às origens para Kelela, direto para suas raízes na cena indie de Washington D.C. Esta “Linknb”, novo single, é mais uma aventura guiada por um dedilhado rápido de uma guitarra introspectiva apoiada por uma forte cozinha fornecendo graves deliciosos. Ainda falando sobre o álbum, Kelela disse ter feito um disco bonito e divertido, mas não para distrair as pessoas do que acontece no mundo. Em outra metáfora desenvolvida por ela, é como dizer que seu bom humor não é distração, pelo contrário. É a medida de quão afiada é sua leitura da realidade. Foda, hein? O álbum está previsto para o dia 10 de julho. PinkPantheress, A.K. Paul e Fousheé estão na lista de convidados.
E quem está soando incrivelmente clássico em termos de rock é a turma do Iceage. A banda dinamarquesa prepara o álbum “For the Love of Grace & The Hereafter” para o fim deste mês, após cinco anos de silêncio desde o incrível “Seek Shelter”. Apesar de ser uma paulada guitarreira, esta faixa em especial desemboca em um solo de flauta para lá de desajeitado. Eles têm humor. E gravaram o novo disco em esquema de banda de garagem – poucos takes, pouco tempo para as letras e vamo que vamo.
Há três anos achamos um milagre ter a chance de noticiar um Stones inédito aqui no Top 50. Era a nossa primeira vez com eles e quem diria que não seria a última? Mas vem aí mais um de inédita de Mick, Keith e Ron. “Foreign Tongues” chega no dia 10 de julho com produção do praticamente onipresente Andrew Watt, o produtor favorito dos roqueiros velhos. “In the Stars” é o Stones de sempre, chupinhando a si mesmo legal em cada trechinho, mas em melhor forma do que no exagerado “Hackney Diamonds”. Pelo visto, Andrew Watt sacou que os Stones exigem menos compressão e volume. É melhor deixar eles soando como Stones do que igual ao Bieber. Assim, mesmo uma música nota 5, soa bem. Ah, Robert “Cure” Smith estará no disco novo!
Voltando o olhar para o country mais tradicional, Kacey Musgraves escreveu um daqueles discos marcantes pós-término. Este single “Middle of Nowhere” é muito sobre aquele momento vago enorme que aparece quando algo sólido na nossa vida desmancha. Nessa perdição poucas coisas ressoam melhor do que refrões bem bolados. Aí a texana Kacey Musgraves escreveu vários para a gente cantarolar com ela. Esperem por ela no próximo Grammy com uma fotinho carregada de troféus. Vem aí.
Mais introspectivo, local para falar do universal, a experiência irlandesa para contar sobre a experiência de ser um país e um povo lidando com a opressão de um colonizador que contamina desde o território até o mais intangível da alma. Do roubo nasce uma frustração e uma dor dificíl de colocar em palavras. Mas o Kneecap tenta e arruma muitas e muitas palavras para isso tudo. Já é o trabalho mais denso e ironicamente acessível do hoje famoso trio. Não por acaso, a tendência é que termine a semana no topo das paradas inglesas. O recado está dado.
A importante banda indie mexicana, talvez o nome mais internacional da nova cena da Cidade do México, teve nestes dias um show anunciado para agosto no Bar Alto, em Pinheiros, que marca sua estreia ao vivo por aqui. Acontecerá no dia 22/8, nem dois meses depois de terem lançado o quarto álbum, “Escrito en Agua”, que sai no fim de junho. Destaque do Sxsw deste ano no Texas, a Diles, quinteto de psicodelia e com nome e conceitos ligados à literatura, até no jeito de cantar se torna às vezes mais uma poesia falada, lançou recentemente este novo single, “Hiriku”, bem bom, intenso, enigmático. O show tem o selo da Balaclava, o que dá a medida de quanto é um rolê imperdível.
Gosta de música falada? Vai gostar do Antony Szmierek, poeta de Manchester. A partir de bases eletrônicas boas de ouvir, ele divaga sobre os mais variados assuntos. Seu novo álbum, “Decoding Birdsong”, é “sobre escolher acreditar em algo”. Coincidência como religião. Criar a própria sorte diante da solidão e da dúvida. É pedir sinais ao universo e, às vezes, interpretá-los errado. Apaixonar-se e desapaixonar-se”, explica o próprio Antony. Deu para entender a pegada dele, não? “Chalk”, o single mais recente, brisa na diferença que o giz faz em uma tacada de bilhar. Sério. Já pensou nisso? Um tiquinho de giz a menos e a tacada seria outra. Detalhes tão pequenos, é nisso que Antony acha sua poesia. Se gostar de “Chalk”, vai gostar ainda mais da melodiosa “The Heron”.
Sei lá, talvez se o Oasis tivesse ouvido country no lugar de Beatles, eles soariam como o Little Grandad – é até por isso que nossa comparação não serve muito, seria muito diferente. É que a banda londrina junta o indie britânico com esse toque alt-country. Talvez um Wilco do comecinho em versão inglesa seja uma referência mais justa. Fato é que eles acabaram de soltar o primeiro single duplo “Sleepwalking” / ”Unmasked” e já conseguiram ampla cobertura da mídia inglesa graças ao auê das apresentações ao vivo. Para prestar atenção.
Era o previsto. Descascamos o primeiro single do novo álbum da Olivia Rodrigo por aqui e ficamos de cara com a segunda mostra de “you seem pretty sad for a girl so in love”. Esta “Begged” aqui é uma baladinha sofrida sobre estar presa em um relacionamento ruim. Pois é, depois do encanto do primeiro som veio a tristeza. Apresentada pela primeira vez no Saturday Nigh Live, a música ainda não tem uma versão oficial nos streamings. Mas já a registramos aqui.
Outra musiquinha tristinha da semana é a nova do Of Montreal. Parte do futuro álbum do coletivo tocado por Kevin Barnes, “Aethermead”, esta faixa retrata o término de uma fase na vida do compositor: tanto sua relação amorosa quanto à relação com a cidade onde morava. Uma fase da vida acaba para uma nova começar.
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* Na vinheta do Top 10, a cantora americana Kelela.
** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix.