O Happy Mondays, a reedição do sensacional “Pills ‘N’ Thrills and Bellyaches” e a confusão que eles causaram no Rock in Rio 1991 (mas pouca gente viu)

A coisa muito resumida é assim: teve um tempo no rock independente americano, ali no final dos anos 80, que a revolução que se daria em 1991 a partir de Seattle ia mudar os rumos da música como a conhecíamos. Você conhece toda a história, né?

Neste mesmo exato momento, lá na Inglaterra, mais precisamente em Manchester, outra revolução estava sendo formada, mais plural e colorida, juntando galera descobrindo a eletrônica, o povo indie vivendo seu momento mais alegre depois do punk, a mistura dessa galera, mais drogas, moda, comportamento.

Essa linda revolução britânica (você também conhece a história) ia acabar sendo sublimada por sua própria culpa e pela revolução americana, mas anos depois de seus restos mortais nasceria o britpop. Nada foi em vão.

Um dos discos primordiais deste período fértil inglês, lançado em novembro de 1990, o “Pills ‘N’ Thrills and Bellyaches”, da banda de “Madchester” (apelido de Manchester nessa era) chamada Happy Mondays, acaba de ter uma edição “definitiva” e remasterizada e cheia de bônus e badulaques anunciada para sair em agosto deste 2026.

Foi o terceiro disco do Happy Mondays, com nome inpirado nas sensações que a nova pílula, o ecstasy, “a droga do amor”, causava naquele povo todo indie sisudo e tristonho que passou a frequentar pistas de dança. Ou no povo que passou a AMAR guitarras mesmo curtindo só música mecânica vinda de DJs. E tudo bem? Fazia todo o sentido.

O “Pills ‘N’ Thrills and Bellyaches”, dado todo o contexto de onde está inserido, é maravilhoso do começo ao fim e tem os hits “Step On”, “Loose Fit” e “Kinky Afro”, para ficar só em três. Foi lançado pelo mitológico selo Factory Records à época, a gravadora do New Order e Joy Division fundada pelo figuraço Tony Wilson.

A nova versão do álbum é exatamente remasterizada em cima das fitas master do disco que eram propriedade da Factory Records, que hoje estão nas mãos da London Records. A capa, que traduz bem o espírito da época, é esta aqui abaixo.

Virá em múltiplos formados, incluindo uma edição luxuosa em caixa com cinco vinis, outra com quatro CDs, picture disc, cassete etc., sem contar o vinil único e CD idem tradicional. As caixas trarão EPs, versões ao vivo de show inteiro, um livro ilustrado, pôster da lendária turnê do disco de 1991 etc.

Falando em turnê do “Pills ‘N’ Thrills and Bellyaches”, tem um fato bizarro que inclui o Brasil e pouca gente sabe (ou lembra).

Com o disco lançado em novembro de 1990, o Happy Mondays fez alguns poucos shows de arena em UK para encerrar o ano, mas aceitou fazer uma apresentação única e em cima da hora no… Rock in Rio. Foi na segunda edição do festival carioca, que aconteceu no estádio do Maracanã em janeiro de 1991. E o Happy Mondays já tinha uma turnê do disco gigante programada para aquele ano, mas topou encarar o Brasil.

Aquele Rock in Rio 2, como era chamado e que teve Prince, George Michael, INXS, New Kids on the Block e o “jovem” Guns N’Roses como atrações principais, escalou o Happy Mondays poucos dias antes do festival, para substituir uma atração que cancelou, a cantora americana de R&B Jody Watley.

Para saudar a vinda da bombada banda ao Brasil, ainda que apenas para o nicho indie, a Folha de S.Paulo publicou uma entrevista com Shaun Ryder, o líder dos Mondays, que duas coisas:
1. que nunca tinha tocado para mais de 8 mil pessoas (a previsão para o Rock in Rio 2 era de 100 mil por dia).
2. que a ideia era trazer umas mil pilulas de ecstasy para o Brasil (“Sabe se é proibida no Brasil”, perguntou ao repórter). A “Folha”, claro, botou o lance dos ecstasys na manchete.

O Happy Mondays estava escalado para tocar na sexta-feira do festival, dia 25 de janeiro, noite cujas estrelas eram George Michael e a divertida banda-“MTV” Deee-Lite. Era feriado em São Paulo, então um número razoável de paulistanos se deslocou para o Rio, para ver o grupo de Manchester ao vivo.

Um pouco antes de o show começar, no Maracanã, veio o aviso: parte dos instrumentos da banda ou estava extraviada ou não conseguiu liberação para sair do aeroporto então a apresentação não iria acontecer. Fuén!!!

((Adivinha quem era um dos paulistanos que foi ao Rio com amigos só para ver o Happy Mondays?))

No sábado, informaram que os instrumentos estavam liberados e a produção do Rock in Rio, para não perder a viagem da banda, meteu o Happy Mondays para tocar depois do headliner do domingo, o A-Ha, e já na madrugada de segunda-feira. Definitivamente, o público que ficou para ver a banda inglesa no fim era bem mais próximo dos 8 mil que o grupo estava acostumado do que os 100 mil que o Rock in Rio estava acostumado.

O mais engraçado foi que um representante do Rock in Rio disse a um jornal carioca no sábado algo do tipo, sobre o problema dos instrumentos do Happy Mondays: “É normal coisas dessa acontecerem em um evento tão grande, com tantas bandas. Ainda bem que isso aconteceu com os Happy Mondays, não com algum artista mais relevante”.

Para quem acha que essa história toda é um delírio, o Youtube guarda um vídeo do Happy Mondays no Maracanã em 1991 tocando a maravilhosa “Kinky Afro”, de um jeito molenga, Shaun Ryder falando gíria de Manchester, o dançarino Bez com seus passos malucos no palco e o povo gritando “A-Ha, A-Ha” e indo embora.

Que passagem maravilhosa e marcante do Happy Mondays no Brasil. “Kinky Afro” é a música de abertura do álbum “Pills ‘N’ Thrills and Bellyaches”, o assunto deste post.

A letra começa assim:

“Son, I’m 30
I only went with your mother ’cause she’s dirty
And I don’t have a decent bone in me
What you get is just what you see yeah”

Era isso então!

E desculpa pela foto de destaque. Ela é tosca mas muito representativa de um negócio muito louco que aconteceu no Brasilzão: o Happy Mondays no auge acidentalmente tocando no Maracanã para os fãs do A-Ha.