
Math rock, Juçara Marçal, BTS, Jorge Vercillo. Estranhou a sequência? Esses são só alguns nomes na enorme lista de influências e referências de Tiny Bear. Essa diversidade toda aparentemente sem sentido faz sentido, e se apresenta em em seu álbum de estreia, “UMi: Memórias de um Corpo Etéreo Que Ainda Jaz em Mim”, que ela destrincha agora, faixa a faixa, aqui na Popload.
Percorrendo a CENA desde 2017, com shows em lugares como A Porta Maldita e o FFFront, Tiny preparou seu álbum ao longo de seis anos de trabalho. Compôs, gravou, produziu e masterizou tudo praticamente sozinha. No reforço, contou com apoio de amigos como Menino Thito e Denno. “O álbum é fruto do que se pode ser, lembrando o que foi e o reflexo de tudo há de se tornar em futuros próximos ou distantes. Foi minha forma de registrar a passagem do tempo”, escreve ela.
Uma boa oportunidade de ver Tiny Bear ao vivo performando seu novo álbum é no show de lançamento do disco n’A Porta Maldita, no próximo dia 11 de abril.
Abaixo, ela comenta para nós o “UMi: Memórias de um Corpo Etéreo Que Ainda Jaz em Mim”, música a música.

* “Intro”
“Desde que a ideia desse projeto existe eu queria que houvesse uma introdução só instrumental, sem letra e com poucos elementos, mas que passasse uma sensação viajante e espacial. Tentei inúmeras coisas: ela já foi uma faixa inteira gravada no violão, em outro momento alternativo tentei criar uma paisagem com teclado e piano acústico e uma percussão feita com baquetas de bateria e uma bola de pilates para simular um bumbo. Foram bons experimentos, mas ainda não era o que tinha me deixado satisfeita. No fim, senti que fazia muito sentido fazer a track inteira apenas com vocais, assumindo a voz como meu instrumento principal (que de fato é). Sou inspirada por vocalistas fantásticas, como Caroline Polacheck, Juçara Marçal, Tetê Espíndola e YMA, sorvi os jeitos como elas exploram suas próprias vozes e as diversas formas que podem tomar. Assim “Intro” nasceu, mesmo que por último… quis criar uma paisagem sonora que conduzisse o ouvinte até a explosão que se dá na próxima faixa. Uma curiosidade! Ao longo dessa faixa, coloquei trechinhos das outras 6 tracks do álbum, serve como um índice do que vai rolar.”
* “2003”
“Escrevi essa música no ano em que completei 20 anos, 2023, e originalmente era para ser algo mais intimista e simples, só voz e violão com um efeito lo-fi. Um dia fui com minha mãe cuidar do gatinho de um amigo do meu irmão e lá gravei no meu computador uma frase numa guitarra que ele tinha; assim nasceu a frase que inicia a “2003” de hoje. O intuito dessa track desde o início era ser mais alto-astral, porque considero minha escrita um tanto introspectiva na maior parte do tempo, e queria produzir algo divertido e dançante, que também faz parte de mim! Meu grande amigo, Menino Thito, foi surrupiado até minha casa com a promessa de um lanche da tarde e acabou saindo de lá com guitarra e baixo gravados nessa faixa. Foi um processo bem divertido. Aqui minha veia k-pop e bedroom pop mais pulsante fluiu solta, com muito do que gosto de BTS e Gus Dapperton como referências fortes. É das minhas músicas prediletas.”
* “Carta ao Coração”
“Foi a primeira música feita de todo esse álbum, em 2020. Na época, herdei um Macbook de segunda mão que meu irmão mais velho comprou e comecei a brincar com o Garageband. O software me ganhou de primeira pelos presets e timbres bem intuitivos de buscar e usar. “‘Carta’ nasceu para um projeto de uma amiga, mas no final não foi adiante e desde então sabia que ela estaria no meu projeto de estreia. Três anos depois comprei o Logic e infelizmente tinha perdido o arquivo original dela, mas lembrava muito bem de como tinha estruturado a música e gravei na minha memória os timbres dos synths que tinha usado. Foi um baita exercício recriá-la da forma como me lembrava e com melhorias. Por muito tempo ela não teve guitarras, porém o Rafa Ohira – companheiro de banda – encheu ela de energia com guitarras elétricas e um gingado maravilhoso. Uma curiosidade: quando a idealizei, pensei em fazer um baião! Mas acabei mirando mais um pop e senti que traduziu muito bem).”
* “Mathpop”
“Adoro math rock, Toe [quarteto de Tokyo] é minha banda favorita e acho simplesmente divertidíssimas as possibilidades infinitas que temos de imaginar tempo na música! “Mathpop” nasceu de um loop de baixo, outro de guitarra, uma progressão em sintetizadores e uma bateria programada pelo Garageband. Já a letra apertei o “REC” pela primeira vez e fui cantando tudo por livre associação. Com a exceção de alguns pequenos ajustes, a letra já nasceu do jeito que foi gravada na forma final. Quando fiz a abertura de vozes chegando ao final, lembrei de “Fênix”, do Jorge Vercillo, com os agudinhos e melismas bem característicos dele e assim fui criando camadas que deram mais cor para a faixa. A colaboração de Denno na co-produção levou as coisas a outro nível: as ambiências e minúcias foram interferências que ele fez de forma maravilhosa e deram ainda mais charme. É meu xodó, embora concorde que seja curtinha demais. Mas se alongasse ia estragar kkkk.”
* “Escorre”
Um exercício muito desafiador, mas que foi maravilhoso quando deslanchou. Assim como ‘2003’, desde o início essa faixa tinha o objetivo de ser algo diferente do que costumo escrever. Sempre gostei de entender minha sensualidade e sexualidade, não tenho nenhum problema em falar sobre e é algo que genuinamente me interesso e gosto. Porém, falar sobre de forma explícita em músicas não é uma barra que eu sei segurar… Então fui fazendo a minha maneira. Optar por colocar o beat bolha deu um molejo que eu tive muito medo que faltasse nessa track. E ela acabasse ficando meia bomba… Pedi pro Rafa gravar as guitarras numa pegada mais de guitarrada, as inspirações principais foram BaianaSystem e Tangolo Mangos, e no final tudo encaixou. Para curar minha vergonha de escrever obscenidades, citei algumas das minhas músicas favoritas ao longo da letra, as que tratam do tema: ‘Homenagem’, da Luiza Lian, que foi a maior referência para essa canção existir, ‘Madalena’, da Besouro Mulher, ‘Mania de Você’ e ‘Lança Perfume’, da Rita Lee, ‘Tigresa’ na versão de Gal Costa e ‘Pernas’, da banda Ventre.
* “Domingo Sem Hora”
Minha faixa predileta, sem sombra de dúvidas. É uma das mais vulneráveis que escrevi e me lembro muito bem do momento em que ela foi concebida: era um domingo nublado, frio e chuvoso, e num estalo comecei a desenvolver a letra – ela foi escrita em cinco minutos. Tinha 20 anos e foi a primeira vez que escrevi uma música em que eu explorava a sensação de vazio e incompreensão comigo mesma. Acho que em algum momento todo mundo passa por isso, ou é o que eu quero achar pelo menos. Antes do último refrão, onde eu tento terminar a música num tom de ‘Eu ainda vou vencer isso’, eu faço uma referência a ‘Triste, Louca ou Má’, de Francisco el Hombre. Lembro que da primeira vez que ouvi a frase ‘Você é seu próprio lar ‘ fiquei com esse gosto meio agridoce que quem degladia consigo mesmo constantemente conhece. O processo de produção se estendeu de 2023 a 2025. Com todas as músicas foi um pouco assim… bem bagunçado. Mas é a canção que mais tenho carinho e adoro cantar: é potente e nasceu de um lugar genuíno, que sinceramente hoje me considero melhor.
* “Luzes da Marginal”
A última música veio de trás pra frente! Nasceu da subidona que dou antes da finalização da música, e só depois eu fui fazendo a construção para que aquele momento tivesse mais impacto. Acho que por isso também a música acabou ficando com um pouco mais de 7 minutos, fora ser uma track que eu consegui traduzir a minha maneira como a CENA moldou grande parte da minha escuta quando eu era mais nova. Tive a honra de assistir shows da Applegate na formação original, Quasar, Marianaaa, Terraplana, Um Quarto… Lembro sempre do primeiro rolê d’A Porta Maldita que eu fui há dez anos atrás. Fui a muitos shows no Augusta 339, conheci o Secretinho e vi um pouco mais dessa CENA que hoje se expandiu e toma cada vez mais formas inovadoras e comprometidas em fazer um som genuíno e que reverbere com quem cria e quem ouve. ‘Luzes’ também tem um pouco disso: vislumbre e magia da noite escura e das luzes nos postes que cercam a Marginal Tietê – lugar que estranhamente guarda um mistério e admiração em mim. E saber que entre o aqui e agora e o futuro tudo muda a cada dia. Tenho a oportunidade de ser uma nova reimaginação de quem quero me tornar.