Popload entrevista: Ottopapi. O it-boy da nova cena musical

O intrépido Otto Dardenne lançou na última sexta-feira seu primeiro disco com a nova banda Ottopapi, que dá nome também a uma persona que o faz ser uma enorme força-motriz da cena independente paulistana, quiçá brasileira.

Mas de onde vem Ottopapi e por que ele é tão necessário para a nova música?

Parte da resposta dessa complexa pergunta pode estar neste texto abaixo, que um pouco antes de o disco “Bala de Banana” ganhar vida saiu publicado na revista fashion-cool “Numéro Brasil”, com a qual temos ligação direta.

Mais sobre Otto que sobre o álbum em si, o texto, baseado em entrevista com ele, chega aqui agora com algumas modificações temporais necessárias.


Falando em tempo, ele é todo agora de Ottopapi. No sentido amplo ou figurado, a escolha é sua.


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É tarefa das mais difíceis você estar numa festa boa de rock independente hoje em dia em São Paulo em que o Ottopapi não esteja nela. Ou na pista dançando, ou ele mesmo sendo o DJ certeiro da night. Ou, em caso de show, sendo ele o front-leader da banda que está tocando. Cantando ou fazendo suas hoje já conhecidas performances desengonçadas legais.

É fácil reconhecê-lo, pela sua avantajada altura ou pelo cabelo vermelho ou amarelo ou a cor chamativa da vez. Ou ainda por suas camisetas de bandas, quase sempre rasgadas, vintage do vintage para um cara que curte o novo do novo.

Se nada disso estiver acontecendo mas a festa for boa mesmo, pode ser que ele tenha feito a produção do disco dela, ou escolhido a banda em uma curadoria de clubes e baladas que faz em SP. E até ter chamado os DJs para tocar. Designer autodidata e hoje disputado, também é possível que Ottopapi tenha feito o pôster de divulgação do rolê.

Se a banda que estiver no palco tocando tiver algum destaque (e não for a Ottopapi, do Ottopapi), pode ser que o rapaz tenha produzido o disco dela em seu estúdio. Ou em sua casa, o que dá na mesma. Porque Ottopapi mora num estúdio ou tem um estúdio dentro de casa, essa fronteira não é muito clara. Nem precisa ser.

Ottopapi, a persona de Otto Dardenne, cara de banda, DJ, produtor, curador, agitador, empreendedor indie,  designer, e sabe se lá o que mais, é o “It Boy” da cena paulistana de música já tem um tempinho. E, se você não o conhece, uma hora destas você vai.

Na sua faceta líder de banda, Ottopapi lançou por estes dias seu primeiro álbum, “Bala de Banana”, de canções já bastante conhecidas para os que frequentam a quente noite da cena independente de SP, dos shows em pequenos clubes como Porta, Bar Alto, Porta Maldita, Fffront, Picles, Cortina.

Sobre o disco de estreia e tudo o que vai acontecer daqui para a frente a gente vai falar à parte, em uma resenha assinada pela Lina Andreosi que aparece logo mais aqui na Popload.

Mas, ainda na construção do “mito Ottopapi”, queríamos olhar para trás um pouco, para seu passado bem próximo, que começa nos levando à casa dos pais, uma mansão alugada no Pacaembu desde os anos 80. Aliás, dos primos ao pai, à tia e ao irmão, os Dardenne se constituem como uma família com fortes ligações musicais.

No casarão onde nasceram, Otto e o irmão Yann (32 anos, Otto tem 30), uns dez anos atrás, ambos já arranhando em instrumentos como violão, baixo e guitarra incentivados pelo pai, resolveram montar um estúdio para gravarem suas canções e de amigos próximos. 
Em cada um dos dois quartos que ocupavam na casa, num deles montaram os equipamentos de gravação e o espaço para as bandas e no outro botaram dois sofás, que de dia recebiam os amigos musicais como uma sala de espera e convívio e à noite serviam com cama para Otto e Yann dormirem, quando todo mundo finalmente ia embora.

Para fazer a nova cena paulistana rodar ainda mais na casa do Pacaembu, os irmãos aproveitavam as viagens de trabalho da mãe, uma ou duas semanas longe, desmontavam a bela sala dela, cheia de móveis e quadros, guardavam tudo num quarto e faziam shows e aproveitavam para vender cerveja e levantar uma grana. Para o pai, tudo beleza.

“O Oruã [banda do suburbio do Rio] tocou lá na nossa sala, o Terraplana [banda de Curitiba com passagem pelo festival americano South by Southwest e outras apresentações nos EUA] tocou lá, a banda Raça também”, lembra Otto com orgulho. 

Foi no estúdio do casarão do Pacaembu que nasceu a Goldenloki, a primeira banda para a valer de Otto, que o levou a tocar em outras cidades do Brasil.

Depois Otto e o irmão Yann se “emanciparam”. Foram morar com amigos em uma casa na Lapa que… tinha um estúdio mais moderno pronto. “A coisa ficou mais séria. No nosso estúdio ali na Lapa gravamos o Eiras e Beiras [a banda anterior da Nina Maia], Os Fonsecas, o Thalin [um dos criadores do projeto Maria Esmeralda]. Foi um período bem divertido”, conta Otto.

No estúdio da Lapa, o Fiaca, nome herdado, a banda Goldenloki acabou, Otto e o irmão montaram a Seloki Records, começaram a ter mais clientes da cena indie, Otto virou a persona Ottopapi, essa “entidade” indie criada, ainda sem nem pensar muito na banda que viria a ter agora, com esse mesmíssimo nome.

O nome Ottopapi, ali, era mais para criar uma label dele para acomodar seus agora múltiplos trabalhos, que inclui ser curador de alguns clubes da cidade, DJ de outros tantos e designer oficial de cartazes tanto das festas que produz e as que produz para outros quanto capas de discos de artistas do porte de Tim Bernardes e Sessa.

Nesse período os irmãos se mudaram de novo, para uma outra… casa-estúdio. Também na Lapa. Que virou o estúdio Mameloki, onde eles organizam os afazeres da Seloki Records. 

Mameloki, Seloki, tudo vem do doguinho golden retriever Loki que eles tinham, “o cachorro da adolescência”, que frequentava os estúdios deles tanto quanto os microfones e as mesas de som. Onde passaram a pandemia maturando o que tinham apreendido e armando os planos futuros.

Não é exagero dizer que Otto mora desde a adolescência num estúdio. Sempre para a música e pela música. A dele e a dos outros. Que é o que, agora, aos 30 anos, diz que é tudo o que sabe fazer. Sem volta.

“Eu acho que não sei fazer outra coisa além de música. Mais que isso, não quero fazer outra coisa. Por isso para mim faz todo sentido no mundo eu acordar e dar de cara com um estúdio, com meus instrumentos (ele toca baixo e guitarra), com meus desenhos inacabados na mesa. É o que eu sou e para onde eu quero ir.” 

Tudo em seu lugar, Otto, ou melhor, a entidade Ottopapi, carrega como ninguém esse jeito… “loki” de ser. E que dá um gás em seus projetos, nos projetos dos amigos. A coisa da inquietude.

No processo da evolução e da constante mutação do ser Ottopapi, Otto foi largando de tocar guitarra e assumindo um lado performer, que ele foi experimentando à medida que o número de shows foi aumentando.

“Lembro que foi num terceiro show com minha nova banda, no Porta Maldita, mas tinha feito já outros dois no Porta e no Fffront”, relembra, enfileirando lugares independentes que borbulham uma cena vivíssima de São Paulo. “Na última música desse terceiro show, me deu um clique que mudou tudo. Eu tinha tocado guitarra e cantado nos dois últimos, mas resolvi não tocar nesse. E a coisa entre banda e público foi ficando quente, a vibe foi aumentando e, quando vi, tirei minha camisa. Meu vocal estava mais rasgado, animado. Ali algo mudou.”

Nesse momento, Otto entendeu que a mudança precisava vir, também, da cena em si. Lembrou-se da família, dos amigos e dos shows que andava vendo.

“Essa coisa dos 30 anos vai te dando uma maturidade Eu fui percebendo que meu pai sempre teve uma ligação com a música, minha mãe tem formação como bailarina, minha prima faz um monte de eventos e festivais, meu irmão faz produção em turnê internacional de artistas daqui, tenho primos DJs. E todos sempre com uma vibração e entusiasmo muito grandes. Eu cresci nisso, sabe? E eu andava indo em shows de bandas que eu conheço, vou a vários shows de tudo, e parecia que o ar-condicionado estava ligado nos 16 graus, você me entende?”, filosofa.

“Está tudo muito certinho, tudo normal, ninguém nunca perde o controle, público blasé, resguardado. Não sei se é porque hoje em dia tudo é granvado no celular. E as poessoas não querem queimar o filme, aparecendo em vídeos. Acho que tem horas, sim, que tem que fazer exatamente isso: queimar o filme”, diz Otto, caindo na risada.

Isto é Ottopapi!

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* As fotos de Otto Dardenne, o Ottopapi, usadas para este post são de Jana Cavalli