
Do aconchego de um voz-e-violão direto de Salvador até uma barulheira carioca sem CEP definido. No meio disso tudo, alguns registros ao vivo no mesmo endereço: a Audio Club, em São Paulo. A remelinha da ressaca do Carnaval ameaça deixar os corpos. Parece que o ano está começando.

Após fazer sua festa na companhia de Ederaldo Gentil nas regravações de “Carnaval Eu Chego Lá”, Giovani Cidreira retorna ao trabalho autoral com a singela “Denga”, um single ao vivo e ao violão para abrir os trabalhos de seu próximo disco. A origem da composição, explica Giovani, veio “da vontade de encontrar um cantinho no mundo onde a gente possa simplesmente ficar… sem pressa”. É ouvir e querer encontrar junto com ele esse tal cantinho.
Dany Roland, baterista do Metrô nos anos 1980 e autor de muitas trilhas sonoras, e Pedro Sá, guitarrista de Caetano na banda Cê, já fizeram muitos trabalhos juntos. Entre produções para outros artistas e trilhas, “InCêndios” é o primeiro álbum do duo. E pega fogo, desculpa aí a redundância. Experimento elétrico/eletrônico, os dois nos jogam em mares de ruídos. Não chega a ser abstrato, pois os títulos e climas ajudam a identificar de onde as ideias partem e onde querem chegar. Se as faixas não formam canções, botam em cheque o conceito. Por que um punhadinho de ruído triste não é canção também?
O “sadboy” do Mato Grosso do Sul honrou com sua promessa. Acompanhado de uma turma formada por Pedro Zurma, Guido Almeida, Leonardo Sardela e Lucas Anderson, Pedro Lanches espalha sua melancolia por todo o seu recém-lançado EP “Sementes”. A belezinha do som é responsabilidade da mixagem e masterização da super Alejandra Luciani, metade do Carabobina. O resultado é bem superior ao álbum de estreia do projeto. Olho neles.
3 de março de 2020. Escrevemos isso aqui neste mesmo Top 50: “A parceria dos rappers Febem e Fleezus em um EP com produção de CESRV deu jogo dos bons. Repleto de músicas que estão prontas para irem bem longe, ‘Terceiro Mundo’ é das que mais brilha ao citar Racionais, Marighella e ‘deixa os garoto brincar’ ”. De lá para cá, passamos até por uma pandemia, e agora seis anos depois vemos os garotos brincarem com as multidões no bem-sucedido Baile do Brime, que ganhou disco ao vivo na Audio. Mais do que um registro de uma apresentação, o álbum mostra versões expandidas das músicas, indo muito além do original. Vale sacar o que virou o projeto passado tanto tempo.
Por falar em registro ao vivo na Audio, o Dead Fish acabou de lançar um disco no mesmo esquema. Porém, em vez de celebrar meia década de um projeto, eles comemoram VINTE anos de um disco histórico: “Zero e Um”. E eles fizeram tudo do jeito que os fãs gostam, tocaram o álbum de cabo a rabo, na ordem certinha e até convidando o ex-guitarrista Phill Fargnoli para dar uma força. Classe A.
Em mais um passo de sua nova identidade artística, Lua Viana apresenta como Antropoceno o álbum “No Ritmo da Terra”, segunda parte de uma trilogia inspirada na obra de Ailton Krenak. Ao dialogar com a proposta de “Futuro Ancestral” de Aílton, basicamente a recuperação dos ensinamentos e práticas dos primeiros povos resistente ao projeto colonial ainda em curso, Lua inverte o caminho e toma dos colonizadores seus gêneros musicais para dar conta de um projeto para valorizar o que é nosso. Não só, mas em parte: é usar o post-rock, por exemplo, para rearticular canções do candomblé e da capoeira. Imaginar o fim do mundo? Que nada. Como Aílton Krenak diz, seu povo já viu o fim do mundo quando sua cultura foi dilacerada pelos colonizadores. Essa é a resposta. O futuro já passou.
Enquanto vive sua última turnê, o Sepultura fechará os trabalhos com um EP chamado “The Cloud of Unknowing”. “The Place” é o primeiro single e tem gente chamando de primeira balada da banda. Não faz qualquer sentido. Ela pode ser mais calminha, mais pop e talvez até mais prog do que o trash metal costumeiro, mas balada que não é. Até pela temática envolvida. Aqui o Sepultura resolveu falar de um assunto recorrente em sua discografia: território. “The Place” fala sobre quem procura abrigo em lugares que prometem liberdade, mas ao chegarem por lá se tornam suspeitos. O Sepultura explora a contradição recente dos EUA, um país construído por um processo de imigração violento, com sangue da guerra colonial responsável por matar os nativos. O personagem envolto na trama farsesca vai da indignação à fúria, por isso a música começa muito calma para os padrões do quarteto – quarteto em nova formação, com a estreia do baterista Greyson Nekrutman. Só dispensamos o vídeo da faixa, aparentemente feito com IA daquelas tenebrosas.
“Palavra de Amigo” é a EMOcionante faixa nova que encerra o Chocomonth, a ideia maluca de lançar uma música por semana durante fevereiro todinha, do álbum novo que sai agora em março. Conseguiram, garotos! Agora eles se preparam para a primeira +um Tour, um projetinho com um certo envolvimento nosso onde tocarão com Vitor Brauer em 14 datas pelo Brasil, Argentina e Uruguai. Depois em vôo solo, a turnê continua com datas até julho, correm o país passando pelo menos por umas dez capitais. Uau. Depois queremos saber as histórias de tanta estrada. Ah, e que single bom este do amigo, aqui.
E o mineirinho Vhoor segue mostrando a forte conexão entre house e funk em mais um single do seu próximo álbum solo. Se em “Bang Bang”, o papo era não ouvir love song, a MC Beatriz segue a tendência na provocação: “Deixa eu sarrar no seu pente”. Aí abre o debate, é ou não é uma baita love song?
Após uma temporada homenageando Alceu Valença através de releituras presentes no álbum “Carne de Caju”, a turma do Mombojó volta à trilha autoral seis anos depois do último disco de inéditas. A leve “É o Poder da Dança”, esta em destaque aqui, abre os caminhos da nova fase em sua mistura de cantiga e psicodelia. A banda conta ter começado se inspirando em Tincoãs, mas na hora de arranjar o caminho foi se tornando outro, em especial pelo timbre envenenado do teclado de Chiquinho. É esse tecladinho que não tem abandona mesmo depois que a música acaba.
11 – Romulo Fróes – “A Vida Que Já Era” (2)
12 – Julieta Social – “Cê La Vie” (2)
13 – Marcelo Callado – “Casca” (2)
14 – Lucas Santtana – “Liga (com Cocanha)” (3)
15 – Liniker – “Charme” (4)
16 – Pedro Lanches – “Adesivos (com YMA)” (4)
17 – Marina Lima – “Olívia” (4)
18 – Vitor Araújo e a Metropole Orkest – “Toque N.3” (5)
19 – Isma – “Made In Cohab” com Tasha & Tracie, Carlos do Complexo e CARLO (5)
20 – Larissa Luz – “Marchona” (5)
21 – Borges – “Vença (com Emicida e Ajax)” (5)
22 – Teto e WIU – “À Beira (com Don L e Lamar)” (5)
23 – Rancore – “Eu Quero Viver” (5)
24 – Criolo, Amaro Freitas e Dino d’Santiago – “E Se Livros Fossem Líquidos_ (Poeta Fora da Lei Pt II)” (6)
25 – Lan – “Tão Bom Lembrar (com JOCA)” (6)
26 – Supervão – “Tudo Certo pra Dar Errado (com Carlinhos Carneiro)” (6)
27 – Guilherme Arantes – “Puro Sangue (Libelo do Perdão) (6)
28 – Zé Ibarra – “Segredo – DJ Marky Remix” (6)
29 – Marcelo Cabral – “O Herói Vai Cair” (7)
30 – Maria Bethânia – “Vera Cruz” (7)
31 – Thalin – “Salah Salah” (7)
32 – Letuce – “Baliza” (7)
33 – Ratos de Porão – “Direito de Fumar/Nós Somos a Turma” (7)
34 – Luiza Sonza – “Nós e o Mar” (7)
35 – Janine- “Dorotá ( p.0, p.1, p.2, p.3, p.4)” (9)
36 – Marina Sena – “Saí para Ver o Mar” (com Rachel Reis) (9)
37 – Tuxe – “Nada a Pulso” (9)
38 – Parteum – “10, Talvez 9” (9)
39 – Don L – “Iminência Parda” (9)
40 – Emicida – “Quanto Vale o Show Memo?” (9)
41 – Lia de Itamaracá e Daúde – “Bordado” (9)
42 – Tori – “Ilha Úmida” (9)
43 – Mateus Aleluia – “No Amor Não Mando” (9)
44 – Jadsa – “Big Bang” (9)
45 – Cajupitanga e Arthus Fochi – “Flamengo” (9)
46 – Joca – “BADU & 3000” (com Ebony) (9)
47 – Chico César – “Breu” (9)
48 – Clara Bicho – “Meu Quarto” (9)
49 – Nigéria Futebol Clube – “Preto Mídia” (9)
50 – BK – “Só Quero Ver” (9)
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* Entre parênteses tem a indicação de quantas semanas a música está neste Top 50.
** Na vinheta do ranking, o cantor e compositor Giovani Cidreira.
*** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix.