Top 50 da CENA – Bebé se reconstrói para construir nosso ranking. Ítallo vem na sequência cantando alto. Exclusive os Cabides dando descarga no novo single

Canção é verbo. Pelo menos para os nossos favoritos da semana, ela é mais do que um veículo da ideia ou mesmo indicação da ação. Está mais para o próprio veículo derrubando tudo pelo caminho. Sejam os medos criativos, os desejos para o mundo ou o próprio mundo da canção. É o que vemos no material de Bebé, Maurício Pereira, Exclusive os Cabides, Ítallo e Loulu Gilberto, filha de João Gilberto – um dos mestres em matéria de canção e sua força demolidora. 

“Dissolução”, terceiro álbum da Bebé, escorre em pouco mais de meia hora. A solução delícia é o resultado da proposta da cantora, compositora e agora produtora do seu disco do começo ao fim em apresentar seu processo de reconstrução. Ou melhor, nas palavras dela: “Não é sobre destruir. É sobre mudar de estado”. Apresentar ideias guardadas há muito, rascunhos retrabalhados, deixar tudo exposto, é de uma sinceridade e coração aberto raros. Só reparar em “Meu Peito”, faixa de abertura do disco”. Concisa, suas estrofes tem força de refrão, um refrão que não vem, uma música que se resolve em aberto, mas sem suspense. Não ficamos apreensivos, pelo contrário, é um acolhimento. “Defeito, só pela forma/o mais complexo me fez gostar”. Perfeito, assim. 

Encontrar a música dentro das palavras é a mágica que acontece na energética “Janeiro”, faixa de “Catatau”, quarto álbum de Ítallo, onde cada palavrinha parece carregar/conter a melodia. Compartilhada com Tori, a faixa também deseja transformar o mundo enquanto canção: “Colapsar o capital/ Complementar a munição/ Um outro mundo genial/ Baleias vivas no sertão”. Mais do que escrever canções, aliás. A mudança vem pelo verbo: cantar. Cantar alto. Cantar forte. Cantar até derrubar os muros.

Talvez o humor do Exclusive Os Cabides esteja em encerrar um EP com o som de uma descarga sendo acionada. Talvez não. Certamente não é marketing para a camiseta “Exclusive os Cabides É uma Merda”, merch deles infelizmente esgotado. Talvez seja uma indireta aos críticos. Talvez não signifique nada e tudo bem. “Feliz e Triste ao Mesmo Tempo” é um título para lidar com essa e outras dualidades da vida. De som e produção mais garageiros, velocidade quase pop punk e canto dobrado de inspiração sertaneja, a banda vem com o puro feeling da estrada a ponto de dispensar o metrônomo e ser só coração pulsante. Bate diferente. 

“Casamata de Amoreiras”, novo single do próximo álbum do pai do Tim Bernardes, já é histórico por ter estreado ao vivo no último dia da rádio Eldorado no ar. A parceria de Maurício com Romulo Fróes é um samba sem ser – um meta-samba? “Torturar a torto e a direito/ pra ver o que esse samba fala”, diz um dos versos. O interesse na criação e seu sentido em existir em si mesmo além de possíveis significados: “Hoje eu vou deixar queimar o bolo/pra não ter que entender jamais/ que o amor possa ser algo mais/ que o amor possa ser algo mais do que um rolo”. Ah, repara na dinâmica da música, em especial no baterista. Conhece de algum lugar? É o Bielzinho! 

Um dos últimos registros em vídeo de João Gilberto é uma gravação dele cantando com a filha mais nova. Ensaiavam um número que ela treinava para a escola. Aquele fragmento raro de João parece a forma que Luisa (ou Loulu) lembra dele. “A memória de meu pai é como um quebra-cabeça”, diz a cantora. Ela só se deu conta do tamanho de João Gilberto quando entrou na faculdade, onde todos reverenciavam seu pai. No processo de (re)descoberta de sua música, ela aprendeu a cantar e faz sua estreia com um álbum reunindo as pecinhas mais raras de João: lados B e canções favoritas do pai, um repertório que ela ouvia ao vivo ele aperfeiçoar em casa.

“Pedagios Y Caronas”, segundo álbum da Tangolo Mangos, alcança seu objetivo principal: se aproximar da energia da banda nos palcos, um dilema e tanto para um grupo estradeiro. Não desconfiava? O disco se chama “Pedágio e Caronas”, oras. A ideia é traduzir as aventuras na estrada do quinteto que está por aí desde 2017. E elas surgem em fragmentos em sons e letras: das festas com turmas diferentes na casa de alguém a uma “difícil” noite no sofá de um date passando pela mistura do rock mais básico e barulhento (a duplinha “Gerais do Vieira” / ”Gerais do Rio Preto”) com os olhos de quem sabe muito bem o que anda rolando em termos de forró, pisadinha, brega, pagodão agora – repertório conhecido do baixista João Denovaro, por exemplo, que toca com Rei Lacoste a festa Baile da Sofrência. Coisa de quem viaja, abre a cabeça e descobre um país imenso no caminho – o papel da percussão nesse disco e de instrumentos pouco usuais no rock, tipo sopros de madeira, dão conta dessa abertura. Pelos mil projetos que os garotos tocam todos ao mesmo tempo em paralelo a banda dá para sentir a energia toda. E “Pedagios Y Caronas” ilumina esses mil caminhos possíveis. A agitação dessa mente fica bem contada nesta belíssima “Vou Acordar com Essa Nova Ideia na Cabeça”. Escrita por Vaqueiro de improviso, acaba por ser uma tentativa bem-sucedida de mostrar como funciona sua máquina de ideias, escolhas e incertezas. É um final emocionante para um álbum que prova que a noite de sonhos rendeu.

Em algum intervalo entre os dias mais pops de Rita Lee e a sofisticação para as massas da Marisa Monte, mora o som da Marina Liori. É um lugar inusitado, ela poderia tanto abrir um show do Zé Ibarra quanto tocar sem medo em uma rádio de MPB mais adulta – daquelas que levam dez anos para veicular uma novidade da música brasileira… Dona de um registro vocal suave e bonito e letras escapando de lugares-comuns, a mineira produz sua estreia ao lado de outros mineiros bem conhecidos da gente: Bernardo Bauer (Sítio Rosa, Desastros) e Felipe D’Angelo (Moons), que sabem deixar tudo soar muito verdadeiro – ouvimos até a respiração de Marina. Crueza e pop podem andar juntos.

Bom, podemos sair na mão discutindo a ideia de remexer na obra de Elis e deixar seus discos antigos com gosto diferente do original ou aproveitar o baú aberto pela família. “Corsário”, das mais belas da dupla João Bosco e Aldir Blanc, só foi registrada por Elis em um especial de 1976 para a TV Bandeirantes. Em 1984, após sua morte, o vocal já tinha sido aproveitado para uma releitura tocada por Lincoln Olivetti, que dá uma banho de anos 1980 com direito a sax e tudo mais. A nova releitura aproveita a tecnologia para deixar a voz de Elis mais limpa e mais presente e conta com um arranjo mais tradicional, próximo da versão apresentada por Elis, porém com um acréscimo e tanto: o percussionista Paulinho da Costa, recentemente descoberto pelas novas gerações através do documentário “The Groove Under the Groove: Os Sons de Paulinho da Costa”.  

Se a estreia do trio Os Garotin em 2024, após Paula Lavigne sugerir a Anchietx, Leo Guima e Cupertino que formasse ao trio em vez de tentarem três carreiras solo, foi um fenômeno ao recuperar um tempero de soul brasileiro que estava de canto. A sequência do single “Força da Juventude” organiza ainda mais as… forças… ao se aproximar do pop mais radiofônico ao dar um arrojo na produção – o talento para composição já estava todo lá, só um tiquinho em estado bruto. Emplacarem uma com arranjos do mestre Verocai e um time de cordas formado por 12 músicas dá a noção do salto na produção. Hora de realizar os sonhos, fazer sucesso e reinvestir no próprio som. É por aí. Deixa os garotin brincarem. 

Piano e voz. Soa conversador, né? Não quando estamos falando de Juçara Marçal e Thais Nicodemo. Ao juntar a amplidão da voz de Juçara (além de dispositivos eletrônicos comandados ela) com a técnica do piano preparado usada por Thais, onde peças (sejam moedas, colheres ou qualquer outra coisa) ligadas às cordas e ao martelo do instrumento geram alterações sonoras, temos um resultado nada conversador. O poder dessa experimentação pode ser mais bem observado nas regravações: “Cavaquinho”, de Rodrigo Campos, por exemplo, disseca as canções de seus fonogramas originais mostrando como ela para em pé com menos. Afinal, menos é mais.

11 – Giovani Cidreira – “Música de Trabalho” (2)
12 – Bruno Berle – “Manhã” (2)
13 – Boogarins – “Dunas” (2)
14 – Seu Jorge – “River Man (com Beck)” (2)
15 – Ogoin e Linguini – “Sensualiza (com Buchecha)” (3)
16 – KUCZYNSKI – “MUSIC 4 A STRIP CLUB” (3)
17 – Zélia Duncan – “Agudo Grave” (3)
18 – Mombojó – “Abaixo a Realidade” (4)
19 – João Carvalho – “Uma Festa no Centro do Vazio (com Clara Bicho) (4)
20 – Renan Benini – “Valsas de um Bolero” (4)
21 – Marcelo Cabral – “Grito” (5)
22 – Anitta – “Bemba (com Luedji Luna)” (5)
23 – Marabu – “Manda Beijo” (5)
24 – Buhr – “Voaria” (5)
25 – Novíssimo Edgar – “Zum Zum Zum” (6)
26 – Silva – “ROLIDEI” (6)
27 – Febem, Fleezus & CESRV – “M.P.B” (7)
28 – Rael – “Forma Abstrata” (7)
29 – Jovem Dionísio – “Nada Mais” (7)  
30 – Vandal – “AH VERDADEH DAH CIDADEH” (7)
31 – Marina Lima – “Um Dia na Vida (com Ana Frango Elétrico)” (8)
32 – Cidadão Instigado – “Medo do Invisível (com Kiko Dinucci e Jadsa” (8)  
33 – Schlop – “Clássicos” (8)
34 – MINTTT – “Liberdade Trade Mark” (8)
35 – Ottopapi – “Meus Podres” (9)
36 – Tiny Bear – “Mathpop” (9)
37 – Getúlio Abelha – “Zé Pinguelo” (10)
38 – Chococorn and the Sugarcanes – “Mais Gentil” (10)
39 – Jonnata Doll e os Garotos Solventes & YMA – “Calçadas” (10)
40 – Thalin – “Vagando” com Nina Maia (11)
41 – Pedro Lanches – “Vergonha” (11)
42 – Antropoceno – “Ayaba Oxum” (12)
43 – VHOOR – “Me Faz um Favor” (12)
44 – Romulo Fróes – “A Vida Que Já Era” (13)
45 – Julieta Social – “Cê La Vie” (13)
46 – Marcelo Callado – “Casca” (13)
47 – Lucas Santtana – “Liga (com Cocanha)” (14)
48 – Liniker – “Charme” (15)
49 – Vitor Araújo e a Metropole Orkest – “Toque N.3” (16)
50 – Isma – “Made In Cohab” com Tasha & Tracie, Carlos do Complexo e CARLO (16)

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* Entre parênteses tem a indicação de quantas semanas a música está neste Top 50.
** Na vinheta do ranking, a cantora, compositora e produtora Bebé.
*** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro Vinícius Felix.