Top 50 da CENA – A última parada de Lô Borges. Uma banda chamada Triste. E o Thiago Jamelão chega apaixonado. Esses são os destaques da semana

É a Copa do Mundo, deve ser. O pessoal deu uma diminuída boa no fluxo de lançamentos. Mas fomos ao trabalho e encontramos boas novidades que podem ter passado despercebidas pelo seu algoritmo. Cola com a gente enquanto vibramos com seleções de países que não sabemos achar no mapa-mundi. 

Lô Borges nos deixou ano passado. Nos arquivos, um disco póstumo contemplando muitas parcerias com seu irmão Márcio. Certamente, o plano não era esse, mas quis o destino que “A Estrada” com sua capa em preto-e-branco ficasse como uma grande despedida de um dos nossos maiores compositores. Em especial, as duas últimas faixas do trabalha falam com serenidade sobre conclusão, “Chegada”, inclusive é uma letra do próprio Lô, dono de poucas letras. Com sua sonoridade caipira de Liverpool, é para ficar com o peito apertado de saudade.   

Vamos combinar que Triste é um baita nome para banda, né? Começa por aí o acerto do duo formado por Brenda Mayer e Rafael Brasil, rostinho conhecido pela presença no Far From Alaska e Swave. “Falta” é uma tristezinha minimalista tocada pelo vocal suave de Brenda. Ficaria ainda mais tristinha e bela toda em português, mas aí é questão de gosto da gente. 

Para entender boa parte da remexida sonora da fase madura do Emicida é bom dar uma olhada nas ideias musicais do seu parceiro Thiago Jamelão, muito mais que backing vocal do rapper. “Apaixonado” é uma boa mescla de R&B, pagode romântico e Djavan. Pode mandar para o seu amor com flores e bombons. Ou melhor: com sua presença! 

Alice David é artista cearense já com uma boa estrada e querida por muita gente bem conhecida nossa: Karina Buhr, Tulipa Ruiz, Romulo Fróes, Fernando Catatau. Depois de muitos singles e experimentos, ela chega ao seu primeiro álbum com firmeza e frescor. “Análise Selvagem” mistura sons analógicos e texturinhas eletrônicas para dar conta das composições de Alice em sua doce voz. Um dos ouros do disco são as letras espertas e complexas, definidas pelo pai da artista como “technopoética pinkfreudiana”.

2002 e “ A Nina” são palíndromos, ou seja, lidas de trás para frente carregam o mesmo sentido. Dessa observação poética, Ítallo reúne as lembranças do seu 2002 e de sua mãe, Nina, a Nina do Avon aqui. A história de uma geração toda que viu Lula ser eleito e transformar o Brasil (“Pouco antes de 2002, PFL/ Partindo pra 2002, mapa da fome”), que viu o penta, que nem sonhava com o iPhone e a histórias das lutas de sua mãe naquele ano reunidas em um poema concreto, praticamente. Palíndromos lembram ruas sem saída. Seriam memórias engasgadas de tempos melhores? Duros, é verdade, mas esperançosos. Talvez Ítallo também fale disso. Seu álbum “Catatau” ainda tem muito a ser ouvido.  

“Não existem filmes antiguerra” é a famosa frase do cineasta Truffaut sobre uma impossibilidade intrínseca à linguagem cinematográfica. Por mais literal que um filme tente ser contra um conflito, as imagens vão carregar nuances românticas, justificativas, vão apoiar o absurdo. “Cinema Bélico?”, novo do quarteto sergipano Cidade Dormitório levanta a questão em nosso tempo, cercado de telas e imagens do horror pelo mundo – um cinema do absurdo ligado 24 horas por dia. E é justamente essa ciência de uma impossibilidade que traz ao material sua distorção lírica e sonora. Como vamos retratar o que detestamos sem afirmar o pecado? Faz sentido a questão ser colocada justamente por uma banda chamada Cidade Dormitório, não é mesmo? 

O final de “Parasita”, som de abertura de “Cicatrizes do Futuro”, novo álbum do duo carioca, acaba silenciando repentinamente com ruídos que lembram um mal contato. Depois de uma avalanche de distorção é como se eles deixassem claro o quanto é delicada a sustentação da barulheira. Um deslocamento errado e fim. Vale para uma guitarra plugada, vale para uma cultura inteira.

Direto de Ponta Grossa, Paraná, surge a ULTRALEVE, um quinteto que conta com dois integrantes da nossa banda favorita da cidade, o Hoovaranas. Mas aqui o som é um shoegaze com vocal – leve, mas não tão leve quanto o nome indica. O grupo tem pouco mais de um ano de existência e lança agora seu terceiro single, esta “Negativo”. A ULTRALEVE chega para encorpar o aparente revival shoegaze que está surgindo no país, mas com um som que tem suas próprias características para se destacar. Em breve devem ter um álbum completo e shows em Curitiba e São Paulo.

Voltamos a falar do mineiro João Carvalho, conhecido pelas aventuras com os projetos Sentidor, Rio Sem Nome e a banda El Toro Fuerte. No segundo single do seu futuro álbum “Uma Festa no Centro do Vazio”, João homenageia os dois espaços onde construiu seu trabalho: Itaúnas, no litoral do Espírito Santo, e a Serra do Caraça, em Minas Gerais. Ao mesmo tempo, pelo forte espírito clubístico impregnado na canção, dedica ela a Milton Nascimento. Não poderia ser diferente.

A vida é uma só, mas nós, não. E essa multiplicidade se apresenta nos relacionamentos, é preciso entender isso. É o que canta Lulina na delicadíssima “Outras Vezes”, esbanjando essa sabedoria ao lado de Ana Frango Elétrico, que surge na voz e no piano elétrico pontual. “O arranjo tem elementos sonoros sutis que parecem transformar a música a cada ouvida”, pontua Lulina. Faz todo o sentido. O som é o primeiro single do próximo disco da artista recifense, “Sinuosa”.  “O nome do álbum é inspirado na temática que costura as diferentes canções: o fato de nossos caminhos tomarem rumos inesperados e desvios que nos escapam do controle e que nos levam muitas vezes a boas surpresas e descobertas”, avisa a cantora.

11 – Luedji Luna – “Ela É o Que Há (com Jadsa)” (2)
12 – Michelle Abu – “Talvez Amor” (2)
13 – Papangu – “Taxidermia” (2)
14 – Morro Fuji – “Maradona” (2)
15 – Bebé – “Meu Peito” (2)
16 – Exclusive Os Cabides – “Castelos de Areia” (3)
17 – Mauricio Pereira – “Casamata de Amoreiras” (3)
18 – Loulu Gilberto – “Avarandado (com Tom Veloso)” (3)
19 – Tangolo Mangos – “Vou Acordar com Essa Nova Ideia na Cabeça” (4)
20 – Marina Liori –  “Água na Boca (com Tori)” (4)
21 – Os Garotin – “Uma Noite Só (com Arthur Verocai)” (4)
22 – Juçara Marçal e Thais Nicodemo – “Cavaquinho” (5)
23 – Giovani Cidreira – “Música de Trabalho” (5)
24 – Bruno Berle – “Manhã” (5)
25 – Seu Jorge – “River Man (com Beck)” (5)
26 – KUCZYNSKI – “MUSIC 4 A STRIP CLUB” (6)
27 – Zélia Duncan – “Agudo Grave” (6)
28 – Mombojó – “Abaixo a Realidade” (7)
29 – Marcelo Cabral – “Grito” (8)
30 – Anitta – “Bemba (com Luedji Luna)” (8)
31 – Marabu – “Manda Beijo” (8)
32 – Buhr – “Voaria” (8)
33 – Novíssimo Edgar – “Zum Zum Zum” (9)
34 – Silva – “ROLIDEI” (9)
35 – Febem, Fleezus & CESRV – “M.P.B” (10)
36 – Rael – “Forma Abstrata” (10)
37 – Jovem Dionísio – “Nada Mais” (10)  
38 – Marina Lima – “Um Dia na Vida (com Ana Frango Elétrico)” (11)
39 – Cidadão Instigado – “Medo do Invisível (com Kiko Dinucci e Jadsa” (11)  
40 – Schlop – “Clássicos” (11)
41 – MINTTT – “Liberdade Trade Mark” (11)
42 – Ottopapi – “Meus Podres” (12)
43 – Tiny Bear – “Mathpop” (12)
44 – Getúlio Abelha – “Zé Pinguelo” (13)
45 – Chococorn and the Sugarcanes – “Mais Gentil” (13)
46 – Jonnata Doll e os Garotos Solventes & YMA – “Calçadas” (13)
47 – Thalin – “Vagando” com Nina Maia (14)
48 – Antropoceno – “Ayaba Oxum” (15)
49 – Romulo Fróes – “A Vida Que Já Era” (16)
50 – Liniker – “Charme” (18)

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* Entre parênteses tem a indicação de quantas semanas a música está neste Top 50.
** Na vinheta do ranking, o saudoso Lô Borges (1952-2025), em foto de Rodrigo Brasil.
*** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro Vinícius Felix.