Top 10 Gringo – A sensibilidade linda do Kneecap. O Gener8ion e o vídeo-cinema. E, sim, dando uma chance pro Foo Fighters

O top da semana traz o novo álbum do Kneecap, revelando um lado inédito e pessoal da banda, a potência do GENER8ION e um dos melhores vídeos da década e as novidades da família Grohl. Já seria o bastante, se não tivesse também a melhor da Madonna em 20 anos! 

“Irish Goodbye” mostra um lado pouco visto do Kneecap até aqui. É o som mais pessoal deles, uma carta de saudade de Móglaí Bap, um terço do trio, para sua mãe, que tirou a própria vida após um longo período convivendo com a depressão. Aqui “Irish Goodbye” ganha sentido duplo: estamos falando de uma irlandesa, afinal, mas a expressão também significa “sair sem fazer alarde”, um equivalente à expressão “saída à francesa”. Bap gostaria de ter dito pelo menos um adeus. A faixa ainda tem a participação cortante de Kae Tempest. Um vídeo em forma de curta ilustra a música ao inverter os fatos e mostrar uma família encarando a perda de um filho. Mais pessoal, não menos político. Ao tratar com respeito uma doença séria de nossos tempos, a depressão, o Kneecap abre mais um frente na sua luta por uma vida melhor para todos. 

O game Bully encontra o filme “Sociedade dos Poetas Mortos” e juntos fumam chips de antenas 6G. O ano é 2034. Uma imagem parecida ou quase passa pela mente de quem assiste o vídeo de “GENER8ION”, música de Storm com participação de Yung Lean. O registro de uma escola para garotos em um futuro não muito distante consegue falar da cultura masculina podre de hoje herdada pelos mais jovens. Violência, drogas, despropósito levam a um desejo oculto de libertação dessas mesmas amarras. Tudo dito sem uma palavra – tudo mora na condução primorosa de Romain Gavras e na coreografia bolada por Damien Jalet, que trabalhou com Thom Yorke no filme para “Anima”.  Todas as pontas aqui são ouro.

A gente sempre pega no pé do Foo Fighters, mas é por carinho. No barulhento e altíssimo novo álbum de Dave Grohl e companhia, “Your Favorite Toy”, o que sobra? Não é um disco pesado do começo ao fim, sons como “Window” e “Unconditional” baixam a guarda e soam até meio constrangedoras na tentativa de serem uma margem de segurança radiofônica. Mas a gritaria diz alguma coisa? O momento mais honesto e criativo fica com esta “Child Actor”, pela estrutura musical diferente da habitual e pela sacada da letra. Ao usar a figura do ator infantil que cresce exposto ao mundo, Grohl parece falar de si mesmo de maneira honesta: ele é uma figura conhecida desde os 22 anos, é tempo demais no holofote. Não é fácil ser fiel a si mesmo nessa condição. Qual o preço a se pagar? Papo interessante. Esse parece ser o melhor de Dave pós-terapia, mas é pouco para um álbum cheio.  

Ao mesmo tempo que o pai divulga um disco de inéditas pelo mundo, Violet Grohl segue dando os passos iniciais na sua carreira musical. Esses dias, ao listar suas vozes favoritas, falou de Billie Holiday, Jeff Buckley e Layne Staley (Alice in Chains), única escolha sua relacionada ao grunge. Vai ser tida como uma imensa nepobaby pelos mais ácidos, mas sua busca por um caminho original é justa. Muito influenciada pelas minas: de Joan Jett até o Bikini Kill passando por Billie Eilish, sua música honra as referências.

Parem as máquinas! A gente já estava fechando esta edição do top quando pintou a aguardada colaboração entre Madonna e Sabrina Carpenter, som que elas estrearam na apresentação de Sabrina no Coachella. Talvez seja a música mais redondinha da Madonna desde… seu “Confessions on the Dancefloor” número 1 – um house básico, mas pegajoso; o tipo de som que você já reconhece antes de terminar o primeiro play. Fácil de ouvir, difícil de fazer.  

É impressionante como duendita entrega em pouco tempo o essencial. Em “existential thottie”, a produtora norte-americana junta faixas que mal chegam aos dois minutos de duração e não soa apressada ou sem ideias. Compondo inicialmente sozinha em sua bateria eletrônica, sempre no limiar do dia, ela põe para fora todas as emoções. “super sad!” inicialmente se chamava “Remind Me to Never Love Again”, que em português é ““Lembre-me de nunca mais amar”. Precisa dizer mais algo? 

Pronto para ouvir um artista que vai mudar sua vida? Love Spells, a persona artística de Sir Taegan Harris, é uma possibilidade. Imagine um lo-fi quase pop com toques de country e uma voz inexplicável. Etérea, estamos falando de um falsete suave que já encantou Bieber, Lorde e o RM do BTS. “Crutch” é algo que a Lana Del Rey amaria ter feito e ainda não fez. Sua postura andrógina lembra Prince – o bigode sendo a referência mais imediata. O talento lembra também. Tudo indica que ouviremos muito ele ainda.

Não demos bola inicialmente para “I Played the Fool”, faixa solo de Michael Stipe para a série “Rooster”. Mas começamos a olhar com carinho para ela diante da perspectiva cada vez mais próxima de finalmente termos seu álbum solo. Ele apresentou uma inédita no late show do Colbert estes dias, a excelente “The Rest oF Ever”.  

É, a onda de relançamentos luxuosos tem seus caprichos. Depois de relançar todo o fino da sua discografia, o supergrupo Metallica encara os anos mais questionáveis da carreira – a era “Load/Reload”. Agora é a vez de “Reload”, que tem a bacana “Fuel” e meio que só. Com isso dá-lhe o 18° take de uma música razoável. Mas os caras vão conseguir convencer o fã a comprar de novo o “St. Anger”?  

Saudade da Rosalía de “Motomami”? Só escutar o som da Joalin, artista nascida na Finlândia, mas crescida no México. Ela voltou para a terra natal e agora faz uma mistura de mil influências – cantando em inglês e espanhol. Gaste um tempo com ela.

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* Na vinheta do Top 10, o duo britânico Massive Attack.
** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix