CENA – Com disco, Renan Benini abre a gaveta das canções que não cabiam na Lupe de Lupe

Durante mais de 15 anos de Lupe de Lupe, o baixista, vocalista e compositor mineiro Renan Benini ajudou a construir uma das discografias mais interessantes do rock independente brasileiro. O artista assina algumas das canções mais queridas pelos fãs da banda, como “Gaúcha”, “Ao Meu Verdadeiro Amor” e “Às Vezes”.

Ainda assim, ao longo do tempo, algumas músicas acabaram ficando para trás. Não por falta de qualidade, mas porque apontavam para um lugar diferente daquele que o grupo formado também por Vitor Brauer, Jonathan Tadeu e Gustavo Scholz ocupava. “São Francisco, 31”, seu primeiro álbum solo, nasce justamente desse desvio de rota.

enan Benini. Foto: Taylor Celestino

As dez faixas do disco foram compostas entre a adolescência e o início da vida adulta do músico e carregam uma característica que atravessa todo o trabalho: a sensação de que estavam esperando o momento certo para existir. Embora escritas em épocas distintas, elas compartilham uma mesma atmosfera afetiva, íntima, e que, muitas vezes, soa como uma confissão.

Outro ritmo

Quem conhece Benini pela intensidade da Lupe de Lupe talvez estranhe a delicadeza predominante aqui. “São Francisco, 31” prefere caminhar devagar. Violões, pianos, cordas e metais aparecem como extensões das narrativas propostas pelo compositor, sempre mais interessado em desenvolver os arranjos do que em buscar impacto imediato.

Essa escolha funciona porque o álbum encontra segurança na sinceridade. Renan escreve sobre relações amorosas, família, amadurecimento e situações cotidianas sem recorrer a personagens muito elaborados ou grandes conceitos. As canções parecem partir de lembranças específicas, de experiências preservadas na memória.

Capa de “São Francisco, 31”. Renan Benini e a avó Zely. Foto: acervo do artista

Em seus melhores momentos, ‘São Francisco, 31″ encontra equilíbrio entre melancolia e aconchego. Há uma ternura constante que percorre a obra, mesmo quando as letras se aproximam de frustrações, despedidas ou dúvidas. Em vez de dramatizar essas emoções, Benini parece interessado em observá-las com a serenidade de quem já teve tempo para compreendê-las.

Mais do que apresentar uma nova fase artística, o álbum ilumina uma dimensão que sempre esteve presente na trajetória do músico, mas que ainda não parecia ter a devida atenção. Ao reunir canções guardadas por décadas, Renan Benini faz mais do que um exercício nostálgico: encontra um presente possível para músicas que se recusaram a envelhecer.