Semana boa é semana que dá para fazer filosofia com o pop. E a Charli XCX com dois minutos de música nos encheu com um caminhão de pensamentos que precisavam ser contidos. Rooooock Music, oras.

O rock é tão entranhado na nossa cultura que mal notamos sua presença, mais. Na maior parte do tempo, somos como os peixinhos de David Foster Wallace em “Isto É Água”, incapazes de enxergar a realidade mais óbvia. Ter uma vida consciente e adulta é difícil, mas é só reparar. Rock não é algo que se sempre esteve aí, como muitos parecem encarar. Bob Dylan e os tropicalistas tiveram problemas com a guitarra elétrica. O que talvez confunda muita gente é que há muito tempo o rock é um termo abrangente e comercial o bastante para agregar qualquer coisa, vide o Rock in Rio, o exemplo mais perto de nós possível. Essa centralidade do gênero perpassa sua relação com o que lhe é estranho: artistas de outros gêneros costumam visitar o rock para ganhar legitimidade. Muita gente vai dizer a eles: “Ah, agora está fazendo música de verdade”. Pior ainda, alguns artistas vão acreditar nessa ladainha. Outro sintoma é a eterna espera pela próxima revolução na música vinda de dentro do rock. E aí é esperar em vão pelo próximo Nirvana e perder de vista 30 anos de história posterior. Quando Charli XCX anunciou que a pista de dança estava morta e iria fazer rock, deu para ver os suspiros de quem esperava ela em uma turnê com banda. Quem sabe ao vivo mesmo, quem sabe sem playback, quem sabe música de “verdade” – como costuma comentar todos que assistem festivais de música pela TV. “Rock Music”, seu tal single roqueiro, puxa o tapete de todos. Ao botar os clichês do rock em fritadeira eletrônica, Charli soa como computador travado. Zomba dá centralidade e seriedade dada ao rock. Pane no sistema. Ou você nota água ao redor ou pode reclamar aí da escalação do Primavera Sound, daí do sofá.
Vamos repetir. Não vale choramingar quanto ao autotune na voz de Julian Casablancas. A escolha estética da banda em sua nova fase zomba do exagero pela perfeição do pop atual. Zomba o tratamento da música enquanto produto, produto para vender mais produto, para vender estilo de vida. “Going Shopping” era sobre isso e pelo visto “Falling Out of Love” dá sequência a esse texto sendo uma balada sobre desapaixonar-se. Dói deixar de acreditar em algo. Os Strokes finalmente perderam a inocência. Aqui a leitura pode ficar ampla: desapaixonar-se por alguém é a primeira leitura, mais óbvia, mas ele pode estar falando sobre desapaixonar-se por uma antiga versão dele mesmo. As dores do crescimento. “E neguei, por um tempo”, canta Julian no refrão sobre a dificuldade de aceitar a nova perspectiva imposta. Dentro da nova visão crítica da banda, a crítica ao capitalismo pode parecer uma negação de tudo feito até aqui, mas Julian amadurece e entende que sua vida até aqui não foi uma mentira: “Duas coisas podem ser verdadeiras: os bons momentos que passei com você”.
“The Boys of Dungeon Lane” promete ser o álbum mais memorialístico da carreira de Paul McCartney. É justo que seja o palco para seu primeiro dueto com o velho parceiro Ringo Starr, presente na faixa também com sua bateria inconfundível a desenhar com a melodia. Na letra, eles voltam aos anos 1950 e a insegurança e pobreza que rondavam seus lares no pós-guerra – Lennon era o único mais abastado. Aquela lama era tudo que tinham e que ótimo. O mundo criado pelos Beatles ainda não era sequer vislumbrado, ninguém tinha vivido aquele sonho, pelo menos não naquela proporção. Curioso revisitar isso através da ponte da mudança: uma deliciosa música pop.
“Não deem o que é sagrado aos cães, nem atirem suas pérolas aos porcos”, são os versos bíblicos que inspiraram o par de canções “Come All Your Beasts/Big Dog”, das The Last Dinner Party. Se no sentido original a ideia era proteger a palavra sagrada dos infiéis, Abigail Morris Lizzie Mayland, Emily Roberts, Georgia Davies e Aurora Nishevci invertem a metáfora e convocam todos os animais rejeitados pela indústria da música, essa máquina tocada pelos homens brancos, a virem provar da carne. Aqui elas são os cachorrões (“Big Dog”) que dão as cartas, os perigosos animais da qual alertam na introdutória spoken word “Come All Your Beasts”. Quem viu o show delas no C6 no ano passado pôde ver a performance da faixa ao vivo: era um número inédito da tour que finalmente ganha registro oficial.
O maior prazer em escutar “Switch Up” é a sensação de encontrar um velho amigo. “Por onde andava, Mike D?”. E aí o velho beastie boy nos conta das brincadeiras mais recentes com seus filhos, uma banda chamada 5D – os filhotes por si só formam outro grupo, o Very Nice Person. O homem continua em forma para rabiscar sua criatividade. É nada mais nada menos que a primeira música de um beastie boy desde o último álbum dos Beastie Boys, “Hot Sauce Committee Part Two”, lançado no distante 2011. Saudades do MCA.
Aqui temos Chico Chico, lá eles têm pablopablo, o nome artístico escolhido por Pablo Drexler, filho do Jorge Drexler. Carregando o talento do pai ele se junta aqui à especialíssima Silvana Estrada, que tivemos a sorte de ver neste ano em turnê pelo Brasil. “Antes de Ti” precisa de poucos acordes e um toque básico para se mostrar uma canção apaixonada. Seja a paixão de uma vida toda ou um paixonite que dura o tempo de cruzar a rua para o lado oposto do amor da sua vida que você nunca mais vai ver. O vídeo da música, inclusive, faz essa leitura. Suspiros incessantes.
Se quiser saber qual é o estado do rock tailandês, vale dar uma escutada no trio MAKARA. Eles definem o som deles como neo-molam pyschedelic. Nós achamos menos psicodélico do que poderia ser e mais sacolejante, um trio interessado em achar bons grooves. Já apareceram na KEXP, será que viralizam igual o Angine de Poitrine?
Enquanto Charlie coloca a centralidade rock em questão, o Lemon Twigs segue firme no que parece ser sua missão de refazer os anos 1960 com outras palavras. “Look for Your Mind” caberia perfeitamente em “Rubber Soul”. Faz sentido? Com a IA já conseguindo produzir música genérica o suficiente, o espaço para o retrô parece ficar mais questionável do que nunca, por mais que exista brilho técnico em conseguir repetir feitos do passado na unha. É óbvio que o Lemon Twigs é bom e soa bem e mostra um conhecimento absurdo do que já foi feito. Mas e aí?
Se você parar para revisitar o passado com força, soa mais mais forte a viagem do Father John Misty na setentista “The Payoff”, seu segundo single solto em 2026 – embora pareça longe de estar pensando em um novo álbum. Aqui tem um tiquinho de tributo, mas Josh Tillman não deixa de acrescentar à mistura algo de hoje ou seu, especialmente no jeito de escrever ou cantar. É como diz um dos versos desta canção: “Porque ninguém se dá mal quando não há nada a perder…”. A gente confia mais em quem arrisca. Mesmo que depois quebre a cara.
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* Na vinheta do Top 10, a cantora britânica Charli XCX.
** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix.