
Há algo de muito charmoso em como a banda paulistana Orfeu Menino estreia nos streamings: o single “Imagina” chega com um pé fincado na tradição do pop brasileiro dos anos 1980, mas sem soar como uma nostalgia caricata. O piano dos primeiros compassos entrega: é impossível não pensar em Rita Lee e Roberto de Carvalho ao ouvir a faixa, e isso vem como um elogio dos grandes.
O grupo formado por Luíza Villa (vocal), Pedro Abujamra (teclas), Tommy Coelho (bateria e percussão), João Chão (baixo) e João Vaz (guitarra) parece incorporar ao contemporâneo aquele repertório clássico de melodias ensolaradas e grooves sofisticados de algumas décadas atrás da música brasileira. Parece familiar, mas ao mesmo tempo novo.

E o ponto alto da música? É seu inquestionável bom gosto. Tudo funciona. É pop, mas ao mesmo tempo refinado: a melodia é agradável, a letra é divertida e os arranjos, claro, têm um grande mérito no produto final. Tudo ocupa seu espaço com precisão: a guitarra groovada e o pianinho elétrico, bem sagaz, costuram a música de ponta a ponta, criando uma sensação constante de movimento. É uma faixa feita para dançar, como a própria banda declara. Sendo assim, missão cumprida.
A voz de Luíza Villa também chama atenção logo na primeira audição: há personalidade no timbre e uma maneira particular de transitar entre suavidade e intensidade, evitando interpretações genéricas. A produção da canção é assinada por Gustavo Ruiz Chagas — vencedor do Grammy Latino por trabalhos ao lado de artistas como Tulipa Ruiz e Liniker.

Orfeu? Menino?
A personalidade do grupo também aparece em seu próprio nome. Apesar da provável associação imediata do público à mitologia grega, Orfeu Menino nasceu de uma história muito mais cotidiana.
O tecladista Pedro Abujamra conta à Popload que a inspiração veio de um menino chamado Orfeu, neto da dona de uma fábrica de costura que frequentava quando criança.
Querido por todos ao redor, ele era constantemente chamado de “Orfeu, menino bom”. Anos depois, já adolescente, o garoto questionou a avó sobre o desaparecimento do apelido e ouviu que, mesmo assim, continuava sendo o “menino bom” de sempre.
A história veio na cabeça do músico justamente quando a banda buscava um nome. No fim, o “menino” e o “Orfeu” permaneceram e “bom” ficou na imaginação.
Anos depois disso tudo,”Imagina” parece fazer questão de transparecer que o elogio continua valendo. Em uma estreia segura e divertida, a Orfeu Menino chega “chegando”: mostra que sabe fazer música para mexer o corpo sem abrir mão do refinamento.