
Lorde abriu os arquivos de “Virgin” para marcar um ano do disco. No último final de semana, a cantora colocou no ar uma nova área em seu site chamada “XRAYS”, reunindo 49 demos das sessões do álbum, além de fotos, anotações, ideias visuais e outros materiais de bastidor ligados ao processo de criação.
A proposta é mostrar o disco antes de ele virar disco, basicamente. Lorde chama essas versões de “esqueletos”, registros ainda tortos, crus e incompletos do que depois se transformaria no aclamado “Virgin”.
Em uma newsletter longa enviada aos fãs, ela explicou que chegou a considerar lançar um álbum com versões alternativas mais organizadas, mas decidiu que o material faria mais sentido se fosse mostrado de forma menos polida.
“No ano passado, brincamos com a ideia de fazer um álbum dessas versões esqueleto, composições legais juntando algumas versões diferentes”, escreveu. “Mas num domingo à noite percebi que os verdadeiros raios-X de ‘Virgin’ seriam mais reais, mais engraçados, mais reveladores daquilo que é torto e inclinado, menos sobre onde chegamos e mais uma celebração do jeito de viajar, das repetições, da acne, da jornada.”

A imagem do raio-X conversa diretamente com a arte de “Virgin”, fotografada em março de 2025. Lorde contou que, quando chegou a hora de ser escaneada, se sentiu em um estado emocional estranho, usando joias das avós em uma instalação médica e encarando aquilo como uma espécie de sessão espírita ou exorcismo.
Ela disse que teve medo de que a máquina revelasse uma “feiúra” que chegasse até os ossos, mas foi acolhida por Eric, colaborador citado por ela no texto. “Ele tocou minha mão e disse baixinho: vai ficar perfeito, é uma imagem de você, qualquer forma como você esteja hoje é perfeita e certa.”

Na newsletter, Lorde também revisita o período em que o álbum foi escrito. Ela fala de um momento pessoal atravessado por um transtorno alimentar, o fim de um relacionamento, acne intensa e, mais tarde, o diagnóstico de transtorno disfórico pré-menstrual.
“Eu estava tentando me curar de um transtorno alimentar breve, mas que vinha se formando havia muito tempo”, escreveu. Em outro trecho, ela conta que uma amiga percebeu um padrão em seus períodos de depressão ligados ao ciclo menstrual, o que acabou levando ao diagnóstico.

Ao falar do processo de composição, Lorde descreve “Virgin” como um trabalho de escuta interna. “Eu me concentrei em cantar para mim mesma do jeito que eu precisava que cantassem para mim. Aos poucos, coloquei música e linguagem em histórias antigas que eu tinha medo de contar. Eu as expulsei de mim e me senti mais leve. Viver dentro dessas músicas teve um efeito de encantamento. Eu senti que estava mudando.”
A cantora também menciona o impacto de “Brat”, de Charli XCX, lançado durante o período em que ela ainda encontrava a forma de “Virgin”. Lorde descreve o disco como “um sistema climático de destemor e fragilidade” e diz que a aproximação com Charli a ajudou a recuperar a fé na música como uma tecnologia social. Segundo ela, Charli a manteve por perto e, ao mesmo tempo, deu o espaço necessário.
O arquivo “XRAYS” aparece, então, como uma extensão desse olhar para o processo, sem tentar transformar o bastidor em produto acabado. Para Lorde, mostrar as demos, notas e imagens é uma forma de celebrar o caminho que levou ao álbum, com suas repetições, imperfeições e marcas físicas. “Como Eric disse, aquilo que é verdadeiramente você é bonito. É assim que estou tentando viver.”

No fim da carta, Lorde agradeceu aos fãs por abrirem espaço para as diferentes partes de seu trabalho e disse que pretende disponibilizar o material também na Lume, nova plataforma criada por amigos dela, quando o serviço for lançado. Ela ainda acrescentou uma observação pessoal: em algum momento, chegou a pesquisar sintomas de burnout e agora está tomando um SSRI, afirmando que se sente muito melhor.
“Compartilhar ‘Virgin’ pareceu cru e exposto de um jeito novo. Acho que eu precisava ficar quieta por um tempo”, finalizou.
Abaixo, as 49 demos que ela disponibilizou. Aqui, o material completo incluindo muitas fotos aleatórias. Gostamos.
