A incrível volta do duo carioca The Twelves. E o que o Daft Punk tem a ver com isso. Relembre (ou conheça) a trajetória do duo carioca, do Coachella (e Popload Festival) aos programas da BBC inglesa

Nesta quarta, quando o vizinho festival chileno Primavera Fauna anunciou seu precioso line-up para sua edição 2026, a ser realizada no fim de novembro, com Strokes e New Order puxando uma escalação que ainda tem FKA Twigs, Tricky, Courtney Barnett, American Football, entre outros, um nome ali no fim do cartaz brilhou os olhos de uma galera que viveu forte a cena indie de pista brasileira de meados dos anos 2000 até o começo da década seguinte: THE TWELVES.

Não foram poucas as mensagens que bateram nas minhas redes ou nas redes da Popload imediatamente após o anúncio do Fauna perguntando “Você viu quem está no line-up do festival?”. E não era sobre os Strokes a quem elas se referiam.

Fora do jogo desde 2015, o duo The Twelves, projeto armado no Rio de Janeiro por João Miguel (à dir. na foto acima) e Luciano Oliveira está oficialmente de volta. E esse comemorado retorno para quem gosta de uma pista quente vai acontecer bem antes do festival chileno.

No dia 14 de agosto, numa festa a ser realizada no alto do edifício Martinelli, em São Paulo, e que terá ainda a presença do famoso DJ francês DVNO na edição especial da balada “Granada”, o Twelves retoma as picapes, com uma ajudinha do Daft Punk.

Mais ou menos isso. O João Miguel conta para nós o que motivou a volta do Twelves.

“Sinceramente? Acho que foi que o Thomas Bangalter do Daft Punk que trouxe o The Twelves de volta! Soube por um amigo e produtor alemão, o Patrick Alavi, que o Bangalter e o Fred Again tinham tocado a nossa versão de “Nightvision”, do Daft Punk, num set que eles fizeram em Londres, em fevereiro deste ano. Fui imediatamente confirmar em sites de tracklist de shows e estava lá: “The Twelves”. Depois achei no YouTube uma gravação só de áudio, bem ruim, mas dava pra ouvir que era de fato a nossa cover.

“Aquilo bateu de um jeito muito forte, até hoje eu acho meio inacreditável o fato de isso ter acontecido. Quais as chances de um dos caras do Daft Punk ouvir uma cover não oficial e nunca lançada, feita num quarto em Niterói em 2009 e que foi amadoramente distribuída para os blogs da época? Estamos atualmente num cenário onde cerca de 150 mil músicas são inseridas todo dia nas plataformas de streaming. O Bangalter ter escolhido tocar a versão do Twelves em apenas o seu segundo DJ set em 17 anos pareceu um chamado do universo [Risos].

“Mesmo sem nos falarmos por anos, imediatamente quis mandar mensagem para o Luciano só com um “Caraca, olha isso!” para ver qual seria a reação dele.”

E onde estavam o Twelves? O que cada um de vcs foi fazer no fim do duo ou, vá lá, no hiato do Twelves?

O João continua: “Mesmo sem um anúncio oficial, a gente acabou desbandando em 2015. O último show com nós dois foi justamente num Popload Festival daquele ano. Na época, o Twelves estava esfriando e um tanto sem rumo como projeto. E eu tinha um recém-nascido em casa e minha mulher foi realocada do Rio para São Paulo no trabalho, então não teve jeito: tive que arrumar emprego mais estável e ficar mais presente em casa.

“Fui trabalhar numa produtora de áudio que estava abrindo filial em SP, virei sócio, tava ganhando dinheiro. Mas aí veio a pandemia e aquilo me fez repensar a vida e se era aquilo mesmo que eu gostaria de estar fazendo. Acabei saindo da produtora e passei a fazer trilhas para filmes e séries, trabalhei em projetos pra HBO, Netflix, Amazon, filmes de cinema, e adorei trabalhar com isso. Também estava fazendo um trabalho que eu ficava responsável pelo áudio das chamadas publicitárias da Globoplay.

“No meio disso lancei um projeto eletrônico solo chamado Razante, com o primeiro single saindo pela Kitsuné [Kitsuné Music, importante selo francês de eletrônico e indie rock fundada em 2002]. Mas logo em seguida nasceu meu segundo filho e o projeto acabou perdendo o foco. Hoje tenho uma produtora de áudio com meu irmão, a Razante Studio.

“O Luciano, por sua vez, também produziu músicas para publicidade, montou um projeto solo chamado Escombro e produziu músicas do Zeca Veloso.”

Se você não viveu essa “era dourada” das pistas depois que o novo rock surgiu no começo dos 2000 e como isso misturado à house, electro francês, Daft Punk, disco e LCD Soundsystem levou muita gente desse geração a viver mais na noite em clubes e sobreviver de dia nos trabalhos “normais”, vale pontuar um pouco sobre quem foi o duo The Twelves nesse cenário. Cenário nacional e Internacional.

Era a era dourada dos blogs de música (Oooooi, Popload!) e toda essa movimentação musical, todo esse fervo indie-dance, tinha quase uma supercobertura da blogosfera mais esperta. Nessas o Twelve…

1. …começou no embalo do estouro da M.I.A. A dupla carioca começou a imprimir seu confundível e delicioso estilo de retrabalhar as músicas bombadas da cena, para levá-las para a pista com sua marca. E tomou para eles “Boyz”, um dos hits iniciais da M.I.A (isso era 2007). O duo pegou a percussão pesada original e injetou uma linha de baixo grooveada e sintetizadores espaciais. O remix virou febre em sites gringos e começou a pipocar nos sets de DJs de peso da BBC Radio 1. Ali, o mundo entendeu que o Rio de Janeiro tinha uma resposta à altura do tão em voga French Touch da época.

2. …se apoderou do ano de ouro dos remixes e do hype na banda americana Black Kids (2008). Se você estava vivo e na noite nessa época, deve ter dançado o hit “I’m Not Gonna Teach Your Boyfriend How to Dance with You”, do Black Kids. Talvez não a música original, mas mais o remix do Twelves para ela. Eles pegaram o indie pop açucarado e transformaram em um hino de pista irresistível. Na sequência, limparam o chão com releituras absurdas para The Virgins (“Rich Girls”), La Roux (“In For the Kill”) e principalmente Two Door Cinema Club.

3. …foi parar no excelente programa Essential Mix, da ultrabombada emissora inglesa Radio 1, da BBC. Isso era 2009. Em dezembro daquele ano, o Twelves bateu o carimbo definitivo de “gigantes”. Foram convidados para assinar um set no lendário programa inglês, onde os principais DJs do mundo davam uma agulha de vitrola para serem convidados. Em duas horas de set, os rapazes do Twelves entregaram uma aula viva de transições, misturando acapellas de Phoenix e Empire of the Sun com edits exclusivas de Radiohead, Kraftwerk e Daft Punk.

4. …chapou o mundo com a retrabalhada em música do Daft Punk, a “Nightvision”, uma das faixas mais climáticas e subestimadas do Daft Punk (do álbum Discovery). Não é qualquer um que REFAZ uma música do Daft Punk. Mas eles foram e montaram uma versão estendida cheia de sintetizadores crescentes e linhas de baixo marcantes. A faixa virou uma espécie de “hino secreto” das pistas.
(Corta para aaaaaanos depois, no caso 2026. Lembra o começo do texto deste post, com o João Miguel explicando o motivo da volta do Twelves? Esse mesmo cover deles de “Nightvision” foi tocado ao vivo em Londres em um set histórico de Fred again.. e Thomas Bangalter, metade do próprio Daft Punk! O selo de aprovação definitivo com efeito retroativo.)

5. …ganhou convites para os festivais mais f*das da época. A revista norte-americana “Spin” já tinha apontado o duo como uma das bandas imperdíveis no SXSW em 2009. Em 2011, eles carimbaram o passaporte para o Coachella, listados como um dos “25 artistas que você precisa ouvir” no festival californiano. Para coroar a época, assinaram a compilação francesa “Kitsuné Tabloid”, em agosto de 2011, e ajudou a cultuada marca e gravadora francesa a ditar as tendências de moda e som daquele ano.

O João Miguel explica essa época toda, os festivais, os remixes, a BBC.

“Acho que nosso grande highlight foi chegar ao Coachella em 2011. A gente tocou no Sahara Tent, de dia, longe de ser um headliner, mas aquela sensação de “cheguei lá” foi real. Ainda mais que o Coachella naquela época era bem mais focado na música do que o exibicionismo de influencers que é hoje em dia. Outro momento marcante foi o BBC Essential Mix, mesmo. É um set que as pessoas comentam até hoje.

“O engraçado é que quando surgiu a proposta de fazer o Essential Mix a gente estava em turnê, sem tempo nenhum, e a janela pra entregar era curta. Decidimos então gravar um show ao vivo na Escócia, que era um dos shows de uma turnê na europa.
Só que naquela noite a gente tinha bebido um pouco mais do que deveria, e o set ficou bem frenético. [Risos.] Não seria o que a gente teria planejado para fazer, mas acabou funcionando de certa forma.

“Um outro momento que marcou nossa trajetória foi o remix de “Something Good Can Work”, do Two Door Cinema Club. Fez bastante sucesso, é tocado até hoje, e virou trilha de videogame, no Forza Horizon. É daquelas músicas que ganham vida própria.”

Nada mais significativo do que a volta do Twelves ser em São Paulo, em agosto. Embora cariocas, foi em SP que eles mais circularam nas inúmeras festas e clubes e festivais que aconteciam na cidade no período.

Uma das principais era a conexão com a galera da marcante festa Crew, que reunia um combo de DJs atuantes na noite paulistana, nos fervos de electro, indie rock e nu-disco que assolavam as casas daquele tempo. A crew aconteceu em alguns lugares, mas o principal, de 2008 a 2012, foi no Club Glória, uma ex-igreja da Bela Vista.

Lúcio Morais, do Database, outro duo famoso e “internacional” da época, porém paulistano, lembra essa fase da Crew e do Twelves em SP.

(Além do Database, a Crew enfileirava nas picapes nomes como Roots Rock Revolution, FBRZ, Fabilipo, Lalai & Ola e convidados)

“A Crew ganhou melhor festa durante dois anos pela “Folha de S.Paulo”. Bombava tanto que tivemos até palcos em alguns festivais. Recebemos o Twelves algumas vezes, além do Boys Noize, Yuksek, Diplo. Isso nos ajudou bastante a começar a lançar musicas com os gringos e ir fazer tour fora do país, principalmente nos EUA, junto com o Twelves também. A Crew certa vez foi até chamada para fazer uma das festas do BBB, da Globo.”

Abaixo, o cartaz da festa Granada, em que o duo The Twelves está programando sua grande volta, em noite que vai ter também o DJ francês DVNO.

Os ingressos estão já a venda, aqui.


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* A foto do Twelves usada neste post é de Charline Messa.