Charli XCX coloca nas passarelas sua coleção primavera-verão. Ou na verdade apenas seu mais novo single, “SS26”. OK, Madonna?

Não deu nem tempo de “Rrrrrrock Music” esfriar, muito menos da b-side “I Keep on Thinking Bout You Every Single Day and Night”, e nossa forte candidata ao posto de roqueira do ano já está de volta. O novo capítulo atende pelo nome de “SS26” (“Spring Summer 2026”), novo single, de título emprestado das temporadas primavera-verão do mundinho fashion, aquele momento em que as grifes apresentam suas coleções como prévia do que será trend na próxima estação do ano.

A capa, abaixo, segue o manual minimalista que Charli vem refinando desde “Brat”: fundo branco, tipografia preta, bem clean. Apenas com os nomes dos colaboradores da faixa: Ag Cook e Finn Keane. Mais uma vez, nada além do necessário. 

Musicalmente, sim, dá pra colocar mais um “rock” na conta. Todo o vai e vem sobre essa suposta “era rock”, ou talvez uma cortina de fumaça muito bem arquitetada para algo ainda maior, continua funcionando perfeitamente a favor dela. Charli parece entender como poucas artistas hoje que provocar também é parte da experiência pop.

E que as controvérsias comecem. O deboche de “I think the dancefloor is dead / And now we´re making rock music”, jogado em “Rock Music”, repercutiu tão longe que até a própria Madonna entrou na conversa recentemente, respondendo de maneira aparentemente irônica em suas redes.

“If your Dance floor feels dead, maybe you’re playing the wrong music”

(“Se sua pista de dança está morta, talvez você esteja escutando a música errada”)  

A nova faixa é uma crítica feroz à indústria da moda, do pop e a forma como transformamos crise em estética. O refrão chega como um soco:

“Yeah, we’re walking on a runway that goes straight to hell
Nothing’s gonna save us, not music, fashion, or film”

(“Estamos desfilando numa passarela que vai direto para o inferno / Nada vai nos salvar, nem música, nem moda, nem cinema.”)

Aqui, Charli usa a passarela como metáfora da sociedade contemporânea: seguimos “desfilando” e performando, criando tendências e tentando parecer desejáveis enquanto tudo ao redor desmorona lentamente. Mudanças climáticas, excesso de consumo, cultura da internet, burnout coletivo, sensação permanente de colapso. Moda, música e arte aparecem quase como distrações elegantes diante do caos. Belíssimas, sedutoras, hipnóticas, mas incapazes de impedir qualquer desastre real. 

O vídeo, lançado junto da faixa, este aqui embaixo, reforça exatamente essa ideia. Charli surge vestindo roupas deslumbrantes que funcionam quase como máscaras para esconder a decadência que existe por baixo da superfície. E, conforme o vídeo avança, tudo vai ficando progressivamente mais caótico e descontrolado.

A direção é assinada pela dupla Torso, os mesmos responsáveis por registrar Charli causando no aeroporto Charles de Gaulle (Paris) em “Von Dutch”.

É… Charli fez de novo!

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* Na foto deste post, Charli veste a tecnológica marca inglesa Nothing Apparel.