O mundo está de mau humor. Da guerra ao excesso de IA, dos trabalhos imbecis ao cansaço com a indústria cultural. Pelo menos isso é o que tiramos das músicas mais importantes da semana, com direito a um pedido por ar e leveza de ninguém menos que Jessie Ware e talvez uma falsa leveza da Olivia Rodrigo. Será?

A respiração pesada, ansiosa, os soldados estão prontos para a guerra. É sempre o sangue deles: jovens, pobres, cheios de sonhos e testosterona. Vão correr e honrar a promessa dos líderes sanguinários. Matar desconhecidos do outro lado do mundo. “Born in the USA”. Mas o personagem descrito aqui em uma parceria entre Massive Attack e Tom Waits, ambos artistas imensos e saídos de suas relativas aposentadorias para um grito de urgência, acaba descrevendo também um novo inimigo. Um inimigo interno. Os EUA começaram a caçar os próprios norte-americanos através do ICE. Esse é o tamanho da crise. Ao mesmo tempo, os soldados de lá hoje são parte de uma população traumatizada com pouco acesso a moradia ou saúde. O preço da guerra é uma guerra interna. Quem mata e quem é morto são as vítimas de quem mandou matar. Esses seguem impunes, defendem Massive Attack e Tom Waits, nesta além de tudo linda “Boots on the Ground”.
Após a intensa apresentação no Coachella, o que esperar do álbum “Nine Inch Noize”? Bom saber que a junção de Trent Reznor e Atticus Ross com Alexander “Alex” Ridha em releitura do Nine Inch Nails também funciona em disco. Mesmo sem o forte apoio dos visuais em um palco imenso, o álbum é mais do que basicamente a representação do show, embora as faixas estejam na mesma ordem e contenha momentos de sons de apresentações ao vivo. A clássica “Closer”, por exemplo, parece ter pedaços do que vimos no Coachella colados com uma produção de estúdio turbinada. Sei lá, dá para imaginar Reznor correndinho no notebook colando as ideias enquanto espera o avião para escapar do deserto. Se for, está aí uma turma que sabe trabalhar sob pressão. Discaço. Façam um de inéditas!
Lá em 2024, falamos por aqui da Sofie Royer, e ela segue conquistando seu espaço aos poucos. A jovem artista californiana, de origem austríaca e iraniana, usa sua formação na música clássica para transitar entre o eletrônico e o pós-punk. Você vai encontrar sons delas em playlists de indie pop quanto lo fi, por exemplo. Para se ter uma ideia de como trabalhar sua mente, o novo single “Cowboy Mouth” foi lançado com Sofie referenciando apenas filmes como inspiração; citou “Estrada Perdida”, do Lynch, e “Mapa para as Estrelas”, do Cronenberg.
Um disco que demoramos a sacar foi o último das Smerz, duo norueguês que faz um art pop bem do bonito; um mistinho de rock lo-fi com arranjos de cordas lindos. “Big City Life”, do ano passado e com músicas como “You Got Time and I Got Money”, é delícia – e provavelmente muita gente vai descobri-las por estarem na trilha do filme auê do ano, “The Drama”, longa com a Zendaya e o Robert Pattinson que entrou recentemente em cartaz. Bom, não vamos chegar atrasados de novo. Por isso, olho neste single novo. “Spring Summer”, lançado nesta semana, está no próximo EP da duplinha.
Escutar Ed O’Brien solo é imaginar onde aqueles pedaços caberiam em músicas do Radiohead, sua banda principal. Se Thom Yorke e Greenwood demonstra interesse pelo ritmo e por intensidade em suas empreitadas solitárias, O’Brien mostra seu gosto pela melodia e pela repetição – “Incantations” tem algo de mantra, uma frase dita repetidas vezes, mas nunca falada ou percebida de volta da mesma forma. Dá para ver quem é o responsável pelos momentos mais viajantes do Radiohead aqui. “Blue Morpho” sai no dia 22 de maio.
Jessie Ware consegue em seu recém-lançado álbum “Superbloom” um conjunto de canções capaz de honrar o forte “That! Feels Good!”, mantendo a onda que trouxe o disco de volta ao topo ali por 2023, uma bola que a Dua Lipa deixou quicando e que talvez até a Madonna volte a chutar neste ano com seu “Confessions on a Dancefloor 2”. Talvez não bata legal pensando na temperatura do mundo hoje, a festa pós-pandemia já azedou, mas quem é fã vai amar. E quem gosta de dançar tem vez aqui.
Pós-punk barulhento com vocais falados descendo a lenha no capitalismo? É uma definição do nosso gosto musical o que apresenta esse quarteto holandês chamado Library Card. “Out of Context” zoa a atual ética das firmas e suas tentativas de normalizar jornadas de trabalho extensas e um amor obsceno pelo trabalho como única faceta possível da vida. O Library Card é contra a jornada 6×1. Nós também =)
O codinome de Catherine Grace Garner é Slayyyter, seu álbum leva o nome de “WOR$T GIRL IN AMERICA”. Matador, pior garota da América, parece que estaremos diante de algo hiperagressivo em termos de som. Não é o que acontece, mas o material funciona se você entender que ela está mais “real” para si mesma. Olhando em retrospectiva para seu material, temos músicas mais sujas do que antes. Na conta do hypado superpop, não é nem a resposta norte-americana a Charli XCX em termos de som, mas talvez uma repetição da ironia contida ali. Como se Slayyyter também acabasse tirando a máscara superficial que cobre as superstars dos EUA. A ver.
A puxada nas cordas do violão lembram “The Golden Age” ou “The Morning”, a dica está dada. Ele está triste de novo. O Beck acústico e melancólico de “Sea Change” e “Morning Phase” voltou. É tão semelhante, tão parecida com esses momentos anteriores de solidão que pode muito bem ser um lado B ou uma faixa perdida. Beck ainda não avisou onde “Ride Lonesome” vai se encaixar. Um álbum novo é a grande expectativa.
Um pop bobinho assim pode ser uma pista falsa para alimentar as expectativas em volta do terceiro álbum de Olivia Rodrigo, “You Seem Pretty Sad for a Girl So in Love”. Cadê o rock? Risos. O que ganha o fã com esse som que no máximo poderia ser um lado B qualquer da Taylor Swift? “Drop Dead” é espertinha, cita The Cure (“You know all the words to ‘Just Like Heaven’…”), mas comove zero ao ser tão básica. É ver onde essa idealização com alguém descrita na letra da música vai dar. É a alegria antes da dor? Conceitualmente pode ser legal, mas funciona pouco sem a esperada reviravolta. Vamos esperar para ver o que a miss Cameron Winter vai ter mais a mostrar.
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* Na vinheta do Top 10, o duo britânico Massive Attack.
** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix.