CENA – Incontrolável, íntimo e (sempre) irônico: Lauiz “começa de novo” com mais um novo álbum

O paulistano Lauiz, bem conhecido como produtor e tecladista da banda Pelados, dá um passo curioso (e arriscado) em seu recém-lançado terceiro disco solo, “Comece por Aqui”.

Se no elogiado “Perigo Imediato” (2024) havia uma certa busca por afirmação, agora o movimento é quase o oposto: um mergulho íntimo, irônico e por vezes caótico em paisagens que misturam São Paulo, cultura pop e um esperto escapismo juvenil.

Lauiz. Foto: João Gabriel

Gravado de forma independente no Estúdio Orgânico, na capital paulista, o disco mantém o lado pop do artista, mas o expande com camadas mais densas de sintetizadores “espaciais”, autotunes assumidos e colagens sonoras que, paradoxalmente, remetem à televisão e ao cinema, de uma forma extremamente cotidiana. É um disco que soa jovem, divertido e irreverente e, como canta o próprio artista, “incontrolável”.

À flor da pele!

Essa postura afiada aparece de forma clara em todo o trabalho, em especial na canção “reversível”, uma das mais marcantes do “Comece por Aqui” . A faixa transforma insegurança em conceito: “Na minha cabeça/ Até as coisas mais desprezíveis/ São reversíveis”. Entre confissões e humor autodepreciativo (“Eu sou meia tigela/ Eu sou Zé Ruela”), Lauiz constrói um eu-lírico que oscila entre a leveza e o medo: especialmente o de ficar para trás ou acabar sozinho. É, ao mesmo tempo, engraçado e melancólico, como rir de si mesmo antes que alguém o faça. Antes de tudo, é genuíno.

Há, ao longo do disco, uma habilidade interessante do artista em transformar cenas banais em imagens altamente identificáveis: a tal lagoa ao lado de um Bob’s, o carnaval observado à distância, a vergonha de dançar mesmo com vontade. São fragmentos de uma juventude urbana, sobretudo paulistana, que se reconhece tanto nas “paixões incontroláveis” quanto na constante sensação de inadequação. “Quero dançar mas eu tenho vergonha”, canta Lauiz.

“Lauiz Orgânico”, participações orgânicas

Outro ponto que reforça o sentimento coletivo do disco, sem tirar o protagonismo de Lauiz, são as participações ao longo das 11 faixas. Nomes como João Barisbe em “Na Lagoa”, Ricardinho Tubarão e Helena Cruz na faixa-título, Theo Ceccato e Lucas Filmes em “Linus Torvalds”, Dr. Smirnoff (Vicente Tassara) em “Nada Direito”, Pedro Acost em “Reversível” e Manu Julian em “Estados Unidos”, ajudam a expandir o universo do disco.

Essas colaborações surgem de forma orgânica, com todos os convidados já sendo colegas de banda ou antigas amizades de Lauiz, somando camadas e perspectivas sem descaracterizar a identidade central do projeto.

Pode-se dizer, afinal, que o retrato de “Comece por Aqui”se baseia em contrastes. É a leveza do pop com uma atmosfera densa e, até algo sombria. É a capa do disco que, de forma aparentemente doida, remete à famosa cena da morte de Pablo Escobar. É o jogo entre humor e peso, ironia e sinceridade que sustenta o disco do início ao fim. E, verdadeiramente, é esse o maior barato do trabalho: em meio a tantos artistas que se levam a sério demais, Lauiz se preocupa mais em expor as suas contradições do que as suas certezas.

Se a proposta do artista era marcar um “antes e depois” em sua carreira, “Comece por Aqui” cumpre o papel. Não por oferecer verdades absolutas, mas por assumir, sem filtro, o desconforto de ainda estar tentando entender o caminho.