CENA – Em trânsito, Buhr incendeia as convenções de gênero com o novo álbum, “Feixe de Fogo”

Não-binariedade é um termo guarda-chuva para identidades de gênero que não são estritamente masculinas ou femininas. Pessoas não-binárias podem identificar seu gênero de muitas maneiras. Em uma metáfora criada pela artista Juvi, é como se o espaço onde antes você só enxergava 0 ou 1 ganhasse infinitas casas decimais. 

“Feixe de Fogo” é o primeiro disco de Buhr após assumir sua não-binariedade, que veio a público com a troca do nome. Antes conhecida como Karina Buhr, elu escreveu em seu Instagram em agosto do ano passado: “A partir de agora me chame BUHR. Em brasileiro mesmo, bê u, feito o barulho do fantasma: bu. É simples, só tem quatro letras e um som: bu. Talvez outras letras ainda caiam, estamos transitando e tudo cai”.

Era a informação de uma novidade sua, mas de certa forma também uma dica do seu próximo trabalho. O recém-lançado “Feixe de Fogo” está em trânsito do começo ao fim. Tanto em termos práticos, sendo gravado ao longo de dois anos em 11 estúdios espalhados por São Paulo, Sobral, Recife, Fortaleza, Salvador, quanto artísticos. 

Em pouco mais de meia hora, 11 faixas, Buhr passa pelo rock, reggae, MPB, forró e muitos outros gêneros. É até bobo ficar tentando classificar o que é o que e onde. As diferenças passeiam entre e intrafaixas. Não é 0 e 1. Mas diferente do truque da música pop atual, onde a diversidade de estilos musicais visa multiplicar as chances de um hit, Buhr dá sentido artístico a sua colcha de retalhos. Não é para bombar na rede, está mais para ,talvez, quem sabe, explodir a rede. 

Não soa nada estranho estarmos curtindo a ruidosa guitarra de Arto Lindsay gemendo em “Seilasse” para logo em seguida topar com Buhr no triângulo com Josyara no violão e Negadeza com pandeiro, zabumba, xequerê e bongô em “Oxê”. O brega de cores fortes de “70 Cigarros” não briga com o brilho etéreo dos sintetizadores de “Motor de Agonia”, onde o eletrônico puxa conversa com as congas tocadas por Buhr.

Também não cabe classificar o disco (capa acima) como de fossa ou de folia. Novamente: trânsito. Tristezalegria. Temos momentos quentes (“Vale Brinde”), momentos gélidos (“Chão Frio”), momentos de ódio (“Ânsia”).

Agonia, uma palavra sempre tão negativa, pode ser lida positivamente como parte da pressa em viver uma paixão (“Motor de Agonia”). Os limites dado pelos dicionários e pelos homens são detalhes. A gente deveria saber disso, crescidos entre Carnaval e Joy Division. “Tudo cai”, afirmou BUHR lá naquele post do Instagram. E para tudo que nos atrasa não cair de maduro, é questão de dar um empurrãozinho.