Olivia Rodrigo volta felizmente como a garota apaixonada mais triste do pop (do rock?). E com uma missão

Durante boa parte da última década, a música pop tratou o amor como uma recompensa. Há sempre um triângulo amoroso para explorar, uma rival para ocupar o papel de antagonista ou um ex-namorado caricato para transformar em vilão.

Você sofre, aprende uma lição, supera a dor e, eventualmente, encontra a pessoa certa. Fim da história. Em “You Seem Pretty Sad for a Girl So in Love”, em seu terceiro álbum de estúdio, Olivia Rodrigo sugere algo bem menos reconfortante: e se a pessoa certa finalmente chegar e você continuar sendo exatamente a mesma bagunça emocional de antes?

É uma premissa intrigante para uma artista que construiu sua carreira transformando desastres românticos em sucessos de massa. SOUR (2021) era movido pela desilusão adolescente, GUTS (2023) pelas inseguranças, pela pressão e pela auto-sabotagem que acompanham o início da vida adulta.

Já neste “You Seem Pretty Sad for a Girl So in Love” ela rompe não apenas com a tradição dos títulos curtos em caixa alta que marcaram seus dois primeiros trabalhos (talvez um jeito de chamar a atenção, só que agora com toda a atenção do mundo), mas também com o sarcasmo juvenil que os atravessava.

Pela primeira vez, Rodrigo escreve de dentro de uma relação aparentemente saudável. Em vez de se perguntar por que alguém foi embora, ela passa boa parte do disco tentando entender por que continua tão inquieta mesmo depois de conseguir exatamente aquilo que queria. Uma constatação clássica que gerações de compositores aprenderam antes dela: estar apaixonado, especialmente quando o amor vem acompanhado de uma pitada de paranoia, idealização e uma dose nada saudável de obsessão, pode ser tão desestabilizador quanto ter o coração partido.

“I know that the bar closes at 11
But I hope you never finish that beer
You know all the words to “Just Like Heaven”
And I know why he wrote them”

Lançada em abril, “Drop Dead” já antecipava algumas das referências centrais do álbum. Logo nos primeiros versos, Olivia Rodrigo cita “Just Like Heaven”, clássico de 1987 da banda inglesa The Cure escrito por Robert Smith e considerado uma das grandes canções de amor do rock alternativo.

A referência estava longe de ser casual. No Glastonbury de 2025, quando convidou Smith para subir ao palco e cantar justamente “Just Like Heaven”, Olivia apareceu usando uma camiseta com a frase “You know all the words to Just Like Heaven”, um easter egg que só faria sentido meses depois, quando o verso reapareceu em “Drop Dead”.

A conexão se fortaleceu ainda mais dias atrás no Primavera Sound Barcelona, quando os dois dividiram o palco novamente para a estreia ao vivo de “What’s Wrong with Me”, primeira colaboração oficial da carreira de Olivia em um álbum de estúdio.

A faixa também representa as influências pós-punk e góticas que atravessam o disco e mais do que uma participação especial. Robert Smith funciona como uma espécie de “padrinho espiritual” deste novo capítulo da carreira da cantora.

Robert Smith no show de Olivia Rodrigo no Primavera Sound, dias atrás

Se o álbum encontra inspiração nos anos 80, sua direção artística também parece olhar para trás em busca de algo cada vez mais raro em 2026: a valorização do trabalho manual. Em vez de embarcar na corrida pela inteligência artificial, Olivia Rodrigo transformou a presença humana em um dos pilares desta era.

Se o vídeo oficial de “drop dead”, dirigido por Petra Collins, combinava locações no próprio Palácio de Versalhes, o de “stupid song”, faixa-balada escolhida como single junto do lançamento do álbum, trouxe New York como pano de fundo e até mesmo um número de balé surge como uma provocação bem-humorada aos comentários depreciativos recentes do ator Timothée Chalamet sobre “ópera e ballet”. 

A filosofia se estende aos seus “lyric videos”, todos criados por artistas convidados, e que aposta em cenários artesanais feito de papelão, elementos de crochê e efeitos práticos que remetem ao imaginário lúdico de Michel Gondry, diretor visionário que já dirigiu boa parte do audiovisual de artistas como Bjork e White Stripes.

É uma decisão que vai além da estética, para quem tem 23 anos e é da geração totalmente conectada: enquanto boa parte da indústria busca atalhos tecnológicos, Olivia parece determinada a lembrar que algumas das imagens mais fascinantes ainda nascem das mãos de artistas de verdade.

“I think that you’re killer
With your floppy hair
Take me out to dinner
You know you can take me anywhere

Mas quem seria o rapaz de cabelo propositalmente bagunçado que aparece a levando para jantar e circulando discretamente pelos bastidores desta nova fase? A Popload tem seu palpite e também seu “ship”: Cameron Winter, vocalista da banda indie do momento, Geese.

Os rumores ganharam força em abril de 2026, quando os dois foram fotografados saindo juntos de um jantar em Los Angeles (foto acima, do “TMZ”). Nenhum deles comentou o assunto, mas as imagens rapidamente alimentaram especulações, especialmente por terem surgido poucos meses após o suposto término de Olivia com Louis Partridge.

Fofocas à parte, a curiosidade em torno de Winter faz sentido por outro motivo. A aproximação parece dialogar com um movimento que Olivia já vinha construindo artisticamente há anos: seu flerte cada vez mais explícito com o universo indie e alternativo. Ao longo da carreira, a cantora citou Fiona Apple e PJ Harvey como colaboradoras dos sonhos, além de arrancar admiração e colaborar com nomes como St. Vincent, Jack White e Kathleen Hanna, do grupo punk feminino Bikini Kill. 

Essa conexão fica ainda mais evidente em decisões como convidar as veteranas da banda The Breeders para abrir datas da sua ultima turnê “Guts World Tour”.

Existe um simbolismo poderoso nesse gesto: durante décadas, o rock foi tratado como um território predominantemente masculino, mesmo quando mulheres ajudaram a definir seus rumos. Ao colocar Kim Deal, uma das figuras mais importantes do rock alternativo dos anos 1990 (Pixies, além das Breeders), diante de arenas lotadas, Olivia não apenas reconheceu suas influências, mas ajudou a apresentar a uma nova geração de garotas as mulheres que ajudaram a construir a história do gênero.

No fim das contas, embora You Seem Pretty Sad for a Girl So in Love” pudesse facilmente ter sido uma continuação confortável de “SOUR” ou “GUTS”, talvez o disco esteja longe de representar uma reinvenção radical.

O álbum traz sim mudanças suficientes para revelar uma artista interessada em expandir seu vocabulário emocional e sonoro, e ainda documenta subliminarmente a já conhecida passagem da adolescência para a vida adulta. Uma história que, mesmo tendo sido contada inúmeras vezes pelo pop, Olivia consegue encontrar maneiras de percorrer caminhos menos óbvios. E reúne escolhas criativas mais curiosas e ambiciosas do que aquelas normalmente esperadas de uma estrela de seu calibre.