Tem algo de deliciosamente cruel em “The Moment”, filme em cartaz nos cinemas onde a estrela pop (hyperpop) britânica Charli XCX interpreta ela mesma nas vésperas de sair em turnê. O filme não quer só mostrar o backstage da indústria musical de uma forma desconfortavelmente atual como quer esfregar na nossa cara com ironia fina que, hoje, até a autenticidade precisa caber na narrativa.
Anunciado ano passado como “mockumentary”, e com produção da A24 e direção de Aidan Zamiri, muita gente pode ter esperado um acervo ou quase um museu verde-limão da era Brat. Afinal, foi o álbum, de 2024, que empurrou Charli de vez para o mainstream com status de fenômeno cultural. O que chega às telas, porém, é mais interessante: um filme que transforma o auge pop em matéria-prima de reflexão, misturando caos, humor constrangedor e uma autoconsciência que está ali para incomodar.

Filmado como um falso documentário e na base de uma espontaneidade coreografada, a trama acompanha Charli lidando com a pressão e tentando sustentar o fenômeno “Brat Summer”, enquanto executivos da gravadora e um diretor grotesco (vivido por Alexander Skarsgård) procuram inflar a marca até virar uma grande pirotecnia fora de controle: especial de streaming, um infame cartão de crédito temático, experiências “imersivas” para fãs queer. Tudo soando familiar e até possível demais para os dias de hoje.
O roteiro se diverte desmontando a lógica da indústria: executivos caricatos, brainstormings absurdos e diversos embates sobre processo criativo. A pergunta que atravessa o filme é simples e brutal: o que significa ser relevante quando o algoritmo já está procurando o próximo rosto? E o que sobra quando o “momento” passa?
Esteticamente, a direção aposta em planos longos e desconfortáveis, luz fria, quartos de hotéis impessoais, camarins abafados. Tudo contribuindo para a sensação de claustrofobia moderna.
Charli sustenta o filme e isso precisa ser dito. Há algo cru na forma como ela encarna a si mesmo como artista, especialmente nas cenas de silêncio, quando o olhar diz mais do que qualquer diálogo. Funciona porque parece íntimo demais para ser totalmente ficção.
O fan service aqui (quando uma obra inclui elementos pensados principalmente para agradar fãs, e não necessariamente para avançar a história) aparece, mas com veneno. Referências, piadas internas e piscadelas para os fãs vêm acompanhadas de camadas autocríticas.
Menção honrosa para a cena em que o motorista decide conhecer melhor a artista que conduz e coloca o vídeo de “Boom Clap” no Spotify. A faixa, trilha do filme “The Fault in Our Stars”, vira uma piada involuntária uma vez que a própria artista já demonstrou sentimentos ambíguos sobre ser um pop genérico anos depois de seu lançamento.
Para quebrar o gelo, ele insiste comentando sobre o cenário onde o vídeo foi gravado: Amsterdã, mencionando experiências de drogas e excessos. Charli responde seca: “Ok, é trilha de um filme sobre câncer”.
Hilário, mas há um risco. Para quem não entende a piada, ou para quem nunca viveu o delírio de “Brat”, pode restar um “Ok… e daí?”. O filme não se esforça para traduzir seu próprio contexto. E talvez isso custe meia estrela, ou até uma, na régua crítica.
Ainda assim, “The Moment” talvez não queira agradar todo mundo. Quer mais provocar, ironizar e mostrar que na era da hiperexposição o verdadeiro espetáculo talvez não seja mais o palco, mas sim a tentativa desesperada de permanecer nele.
E no fim, sem spoilers, a pergunta não é se Charli sobrevive ao momento. É se existe algo além dele.