Top 10 Gringo – Willow definitivamente vai para o “play”. Courtney Barnett e o louva-a-deus. chega sombrio. Semana pede um ranking bem diverso

Depois da longa temporada do indie mental health que vivemos, estamos agora na temporada do indie pensando sobre os estragos da IA. Enquanto uns debatem o assunto, outros tentam se pôr à prova da ideia, tipo a Willow fazendo um disco todinho sozinha ou a Courtney Barnett escrevendo a partir de observações da natureza. Até o Moby está pedindo um pouco mais de calma. Na contramão, o Foo Fighters nunca soou tão refém de si mesmo. Esquisitaço o som novo deles, hein?

E se Frank Ocean tivesse lançado um herdeiro de “Channel Orange” já em 2013? É bem provável que a cantora americana Willow não pensou em nada disso, mas seu álbum “Petal Rock Black” lembra tanto a abordagem de Ocean em astral e escolhas que é quase impossível não associar os trabalhos. Mais uma prova, de tantas já dadas, de que ela não é uma simples nepobaby. À la Prince, ela compôs, tocou e produziu tudo sozinhas. As participações especiais são para lá de chique: Kamasi Washington, Tune-Yards e George Clinton. Dá para olhar os textos daqui 15 anos tentando pedir desculpas por terem desvalorizado ela na época e fingindo sempre saber do seu talento para a coisa. 

Agora entendemos o louva-a-deus na capa do próximo álbum da Courtney Barnett. O “prayimg mantis” é um dos personagens da compositora australiana no refrão de “Mantis”, sua canção sobre a força do ócio criativo. Ao observar a presença do inseto em sua porta, ela reflete sobre o estado meditativo de ambos: “Procurando significado ou qualquer sinal”. O verso é inspirado na vida real. Enquanto escrevia, ela ficou surpresa com a presença de um louva-a-deus na quietude e calor de Joshua Tree. Sua amiga e baterista Stella Mozgawa, do Warpaint, avisou que era sinal de boa sorte. Que sorte. Além de render capa e refrão, Courtney diz que “Mantis” é a música central do disquinho, a composição responsável por destravar a produção de “Creature of Habit”, que sai dia 27 de março.

A promessa do Kneecap é que “Fenian”, terceiro álbum da banda, será o mais soturno deles até aqui. Se não foi o que indicou o bate-cabeça de “Liars Tale”, agora em “Smugglers & Scholars” entendemos a ideia de Mo Chara, Móglaí Bap e DJ Próvaí. A pegada mais sombria no som liga a luta de agora com a luta dos revolucionários irlandeses do começo do século XX, conflito que terminaria na divisão das Irlandas. 

Moby nunca foi dos mais barulhentos, mas aos 60 anos quer músicas tranquilas. “Quiet Future” é seu conjunto de canções suaves ao piano. Por sofrer com ansiedade há muitos anos, Moby descobriu que fazer e ouvir músicas assim ajudavam bastante a diminuir o sofrimento. “Se por um lado, de forma egoísta, fiz isso para mim mesmo, espero que este álbum possa te ajudar caso você lide com ansiedade também e precise de um refúgio”, explicou Moby em um vídeo postado no seu YouTube onde aparece de terno na chuva (!!!). 

Achou o último single da Lana Del Rey muito tenso e ficou com saudade dos trabalhos mais antigos dela? Talvez goste de Rose Hotel, projeto tocado pela estudante de psicologia Jordan Reynolds. Tão estudante que lançou a música sem muitos comentários alegando estar cheia de trabalhos para escrever. “Que a música fale por si”, anotou a compositora. E fala, viu? 

Queria ter vivido na época do Talking Heads? Não dá mais, mas dá para ser da mesma época que o Telehealth, banda de Seattle que acaba de assinar adivinha com quem? Sub Pop, lógico! Comandados pelo casal Alexander Attitude e Kendra Cox , a banda tem pitadas fortes também de Devo e B-52. “Cool Job” é uma bela zuera com o status do trabalho hoje em dia. “Escrita em meio a um esgotamento profissional, é um hino antitrabalho e a tentativa de se importar com reuniões que poderiam ter sido resolvidas por e-mail”, explica a banda. 

Também pensando nos efeitos perversos da IA, José González aponta os culpados: nós mesmos. “Estamos criando as condições para um futuro cada vez mais turbulento”, anota o compositor. A composição ressoa com o single anterior, a faixa-título do seu próximo disco, “Against the Dying of the Light”, um libelo de José contra ideias horríveis e persistentes na humanidade: da supremacia branca até o patriarcado. É engraçado imaginar que a fofa “Pajarito” estará no mesmo álbum de faixas tão sérias.

Difícil não associar a decadência do mundo do trabalho com a ascensão da IA. O terceiro álbum do The Claypool Lennon Delirium, inusitada parceria de Sean Lennon com Les Claypool do Primus, será um disco conceitual sobre os efeitos da IA em nossa percepção de vida, “a otimização sem empatia”. Esse jeitinho neoliberal de enxergar a própria vida como a de uma empresa, talvez. O primeiro single tem participação da Willow, veja só, que também interpretará um papel na historinha do disco. 

Se existe um ano novo, existe um novo disco do Guided by Voices, óbvio. “Crawlspace of the Pantheon” será o 44° álbum do grupo liderado por Robert Pollard desde 1987. Existe uma perspectiva séria de a banda não tocar mais ao vivo por mil motivos – já não se apresentam desde 2024. Mais tempo para ficar em estúdio? Agora vai. 

Talvez o Foo Fighters volte a ser legal quando parecer mais uma banda do que uma empresa. O lançamento da nova música perto de algumas inéditas do U2  evidenciam o cansaço dos norte-americanos. Bono e cia pelo menos parecem conectados ao presente, enquanto o Dave Grohl e cia já divulgam o próximo disco naquele ritmo de intermináveis programas lotados de anedotas da vida na estrada. Em entrevista ao Zane Lowe, Grohl promete que o novo baterista, Ilan Rubin, voltará a dar ao grupo cara de “banda” após o período com Josh Freese, que até agora não entendeu o motivo de ser demitido. Sintomática declaração. A coisa mais bacana do Foo Fighters no momento foi ter colocado uma foto com cara do Pat Smear no bumbo da bateria para compensar sua ausência em shows recentes por ter quebrado a perna. Já “Your Favorite Toy” é meio qualquer coisa.

***
* Na vinheta do Top 10, a .
** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix