Vince Staples acorda o rap americano. Com um punk que abre seu novo álbum, um dos melhores do ano (até agora)

Vince Staples sempre foi um dos caras mais espertos da sua geração, mas o que ele fez em seu novíssimo álbum, “Cry Baby”, lançado há duas semanas, tem abalado qualquer zona de conforto que o hip-hop americano vinha ensaiando nos últimos tempos.

Lançado de forma totalmente independente pela Loma Vista Recordings (após romper os laços pesados com a Def Jam), com este seu sétimo disco o rapper da Califórnia resolveu colocar o dedo na ferida de uma América já em chamas. O resultado é um trabalho absurdamente tenso, elogiado e cercado de controvérsias que vão da arte da capa até o som das guitarras. Guitarrada num disco de rap, yeah!

A primeira grande confusão começou antes mesmo de “Cry Baby” rodar no streaming. A capa estampa um bebê gigante chorando com uma fralda feita da bandeira dos Estados Unidos. Obviamente, a internet inteira correu para dizer que era uma sátira escrachada ao presidente Donald Trump.

Vince, com o deboche fino de sempre, teve que ir à Apple Music explicar que o tal bebê não era o ex-presidente, mas sim o próprio ouvinte e a sociedade de modo geral, que passa o dia “reclamando no Twitter” enquanto o mundo desmorona, agindo como uma criança mimada perante o sistema.

Se a capa já parecia provocativa, o primeiro single, a ótima “Blackberry Marmalade”, botou ainda mais lenha na fogueira. O vídeo, que chegou a ser temporariamente censurado e restrito por idade no YouTube, foi gravado sob a perspectiva de primeira pessoa (estilo jogo de tiro) dentro de um restaurante na Califórnia.

O visual perturbador termina com uma citação pesadíssima de Martin Luther King Jr. sobre extremismo, cutucando a violência armada e a brutalidade policial de um jeito que pouca gente na música pop tem coragem de fazer hoje.

Musicalmente, “Cry Babe” também é uma baita ruptura. Esqueça aqui os beats tradicionais de hip-hop das playlists de rádio: Vince Staples se jogou de cabeça no pós-punk e no rap rock, construindo as faixas em cima de instrumentação ao vivo, guitarras distorcidas e linhas de baixo pulsantes que lembram o som indie do duo Paris, Texas, para citar um exemplo da mesma cena de Los Angeles.

Essa guinada sonora irritou os puristas do gênero, que queriam apenas mais um disco de rap de Los Angeles, mas acabou se tornando o pano de fundo perfeito para letras cruas sobre racismo estrutural e o fracasso do sonho americano.

Para além das questões sociais, há uma polêmica bem clara direcionada à própria indústria da música. Livre das amarras de grande gravadora, Vince usa faixas como “TV Guide” e “Only In America” para escancarar o discurso de quanto o mercado fonográfico tenta mercantilizar a cultura negra e ditar o que um artista de hip-hop pode ou não criar.

Ele revelou em entrevistas que no passado foi muito pressionado a fazer um som mais “palatável”, tornando este novo projeto uma espécie de grito de independência artística bastante agressivo.

No fim das contas, “Cry Baby” se consolida como um daqueles álbuns urgentes, bem ao estilo do que a Popload adora acompanhar de perto. É barulhento, desconfortável e politicamente incorreto para os padrões corporativos atuais.

Vince Staples não quer o seu “like” e muito menos fazer você dançar de olhos fechados. Ele quer que você fique atônito com o caos do mundo real, para esse caos não cair na normalidade (porque já caiu, né?).