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POSTADO DIA 14/07/2026

A equação é simples: a Inglaterra chegou à semifinal da Copa do Mundo, “Wonderwall” virou o grande hit não oficial do torneio e Liam Gallagher ganhou mais um motivo para passar o dia no X como se estivesse no pub.
Hoje, em Atlanta, Argentina e Inglaterra disputam uma vaga na final da Copa do Mundo. O vencedor enfrenta a Espanha no domingo, em Nova Jersey.
Em campo, a história já vem carregada: Messi, Kane, Bellingham, o peso de uma rivalidade antiga, a Inglaterra tentando voltar a uma final mundial 60 anos depois do título de 1966 e a Argentina tentando defender a coroa.
Fora de campo, a trilha sonora inglesa já está escolhida. Não é Beatles, não é Queen, não é Rolling Stones. É Oasis. É “Wonderwall”. E, a essa altura, a música já virou quase uma personagem da campanha.
Lançada em 1995, no álbum “(What’s the Story) Morning Glory?”, “Wonderwall” nunca foi exatamente um canto tradicional da seleção inglesa. A música sempre esteve mais próxima do imaginário britpop, dos violões em festa, dos pubs, dos karaokês, dos festivais e, claro, das arquibancadas do Manchester City, clube dos irmãos Gallagher.
Nesta Copa de 2026, porém, ela encontrou outro lugar. Depois da vitória da Inglaterra por 4 a 2 sobre a Croácia, em Dallas, a faixa tocou nos alto-falantes do estádio e foi imediatamente abraçada pelos torcedores. Os jogadores ficaram no gramado, a arquibancada cantou a plenos pulmões e a cena se espalhou como um daqueles vídeos que parecem já nascer com replay infinito.
Desde então, virou ritual. Ganhou a Inglaterra, toca “Wonderwall”. Tocou “Wonderwall”, a torcida canta. A torcida canta, o vídeo viraliza. O vídeo viraliza, a música sobe nos charts. O ciclo é perfeito para uma Copa que cada vez mais acontece também fora dos 90 minutos, em cortes de redes sociais, transmissões de celular, memes, playlists e pequenas cenas de catarse coletiva.
O resultado apareceu rápido nas plataformas. Impulsionada pelos vídeos dos ingleses, “Wonderwall” chegou ao terceiro lugar entre as músicas mais ouvidas do mundo no Spotify e voltou com força às paradas britânicas. Também apareceu na Billboard Global 200, reacendendo a vida comercial de uma canção que, três décadas depois do lançamento, encontrou no Mundial um novo contexto para ser cantada por multidões. Como se ela já não fosse cantada por multidões nos últimos 30 anos. Mas, vale dizer, furou uma segunda bolha.
A coisa ficou tão grande que até a discussão sobre “por que Oasis?” virou pauta. Um brasileiro resolveu provocar Liam Gallagher no X: “Imagina ser o país dos Beatles, Queen e Rolling Stones, mas escolher uma música do Oasis como tema da trajetória da seleção inglesa na Copa do Mundo.” Liam, como Liam, não deixou passar. Respondeu que aquilo não tinha nada a ver com ele e chamou o usuário de “spunk bubble”, um xingamento britânico que pode ser entendido como algo na linha de “idiota”, “otário” ou “babaca”, dependendo do grau de educação de quem traduz.
É tudo muito Oasis. Uma música que nasceu como balada britpop, virou clássico planetário, sobreviveu a décadas de piadas, covers, exageros e amor popular, e agora reaparece como hino espontâneo de uma seleção que tenta encerrar uma espera histórica. E, no meio disso, Liam Gallagher fazendo o papel que se espera dele: torcedor, provocador, fiscal da própria mitologia e animador involuntário da timeline. Ou, no nosso linguajar, o puro suco do entretenimento.
A relação entre Oasis e futebol nunca precisou ser fabricada. Liam e Noel são torcedores declarados do Manchester City, “Wonderwall” e “Don’t Look Back in Anger” circulam há anos pelas arquibancadas inglesas e a música da banda sempre teve essa qualidade rara de parecer íntima e coletiva ao mesmo tempo. Ela funciona no fone de ouvido, mas funciona ainda melhor quando milhares de pessoas cantam juntas, cada uma desafinando de um jeito.
Harry Kane, capitão da Inglaterra, também entrou nessa história ao dizer que ver a torcida cantando a música depois da estreia foi um dos momentos favoritos dele com a camisa da seleção, especialmente em um grande torneio. Para uma geração de torcedores ingleses que cresceu esperando o próximo “agora vai”, a canção virou uma forma simples de dizer que talvez, só talvez, este seja mesmo o ano.

No Brasil, “Wonderwall” também tem sua própria biografia. A música esteve na trilha da novela “Vira-Lata”, da Globo, em 1996, foi cantada nas passagens do Oasis pelo país e voltou a soar forte na reunião da banda em 2025, quando Liam e Noel Gallagher lotaram duas noites no Morumbi, em São Paulo.
Liam também já fez uma de suas provocações futebolísticas por aqui: em show no Rio, em 2022, dedicou “Wonderwall” a Zico, a quem chamou de maior jogador brasileiro, para desespero parcial de quem não era flamenguista na plateia.
Agora, o clássico volta ao centro da conversa por causa de Inglaterra x Argentina, um jogo que já carregaria drama suficiente sem trilha sonora. A semifinal de hoje tem memória de Maradona, Beckham, Messi, Kane, 1966, 1986, rivalidade, trauma e desejo de final. Mas tem também uma pergunta pop rondando a noite: se a Inglaterra passar, quantas vezes “Wonderwall” vai ecoar pelo estádio, pelos pubs, pelos vídeos de celular e pelas plataformas até domingo?
A Copa do Mundo sempre produz seus hinos oficiais, mas nem sempre são eles que ficam. Às vezes, a música do torneio nasce torta, reaparece do nada, vem de outro tempo, de outra cena, de outro repertório emocional. Em 2026, Shakira e Burna Boy têm a canção oficial, “Dai Dai”, que lidera os rankings globais. Mas a música que melhor traduziu a caminhada inglesa até aqui é um clássico do Oasis de 1995, cantado por torcedores que talvez nem fossem nascidos quando ele saiu.
Hoje, contra a Argentina, a Inglaterra joga por uma vaga na final. “Wonderwall” joga por outra coisa: confirmar que já venceu a Copa paralela da cultura pop.