Top 50 da CENA – os podres do Ottopapi botam ele no topo. Ítallo França quer (e consegue) ser notado. Tiny Bear traz um pouco de nerdice ao pop

Nem vamos esticar muito o chiclete por aqui hoje, até porque o assunto da semana é bala. “Bala de Banana”. A estreia de Ottopapi em disco que ainda vai dar muito o que falar, nossa aposta. Chegue antes de ele estourar a bolha.  

Ottopapi um dia postou no Instagram uma foto sua segurando um troféu do VMB, a mítica premiação da velha e extinta MTV. Realmente, ele seria um sucesso por lá. Mas chegou no “lugar certo na hora errada”, para ficar em uma frase do Jack White. É difícil não pensar nisso ao play em “Bala de Banana”, seu álbum de estreia, e dar de cara com seu açucaradíssimo rock superdeslocado do nosso tempo ao soar superindie rock anos 2000, sem medo de ser escrachado ou engraçadinho. Ele se joga com a coragem e o conhecimento de quem já andou muito pela cena em várias frentes: DJ, produtor, curador, agitador, empreendedor indie, designer. Sua fórmula passa por Strokes sabendo da origem do caldo, Nova York 1970 e os efeitos do estrago em terras brasileiras – oi, Cansei De Ser Sexy e companhia ilimitada. Lembra a forma que Cazuza e Frejat releram os Rolling Stones situando os riffs blueseiros nos timbres e no papo carioca da época. É assim. As novas gerações vão redescobrindo tudo mais uma vez. Fica velho quem chiar primeiro. Vale falar em Cazuza porque eles se parecem até no modo de escrever. Conversa solta e franca. “Porque na minha vida já deu pra fazer tanta merda…” é logo o primeiro refrão do disco. E Ottopapi nem faz questão de esconder. “Toddy ao Tédio” é uma citação ao verso “Prefiro Toddy ao tédio”, da poeta Ledusha Spinardi, adotado por Cazuza em camisetas. Sai o baixo Leblon, entra a Barra Funda. Se prepare para quando ele furar a bolha e pintarem comparações exageradas no X; Marina Sena lidou com as comparações exageradas com Gal. Só não vale virar hater. Também não estranhe ao notar que todo mundo que você ouve já é amigo dele de outros carnavais. O homem tava aí o tempo, só você não viu.  

Quando o novo álbum de Ítallo França chegar em maio vamos entender melhor como o single “Tire uma Hora pra Lembrar de Mim” conectará o novo trabalho com o anterior, “Tarde no Walkiria”. Ítallo descreve ele como uma canção romântica que estava faltando no disco. Uma canção de amor direta e reta e dolorida, lógico. “Tire uma hora pra lembrar de mim/ tire um tempo/ pra pensar em nós/ distante assim, a vida não melhora”, são alguns dos versos no delicado arranjo minimalista – voz, violão, baixo e um teclado elétrico só para dar aquele gostinho mais agridoce.

Matutando há seis anos seu álbum de estreia, a artista paulista Tiny Bear convence de que tanto trabalho valeu a pena com  “UMi: Memórias de um Corpo Etéreo Que Ainda Jaz em Mim”. Equilibrando universos distantes ao unir sua técnica de professora de canto com timbres de bedroom pop ainda não certificados pela erudição academia, Tiny Bear alcança um resultado original ao investigar sem medo. Só ver como ela deixa tudo redondinho em ritmos todos quebrados nesta “Mathpop”. Nerdice é pop. 

Alice Caymmi prepara para abril um disco chamado “Caymmi”. O álbum será dedicado ao repertório de seu avô Dorival. Com produção de Iuri Rio Branco, a ideia é trazer essas canções fundamentais da história da música brasileira para uma sonoridade de agora. Mas tem mais aí: a escolha das músicas também contará a relação de Alice com sua herança. “Modinha para Gabriela” foi escolhida como primeiro single por significar liberdade. Os versos “Quem me batizou, quem me nomeou/ Pouco me importou, é assim que eu sou” ganham novo sentido. Alice sabe sua origem, sabe da importância e tudo mais, mas ela é ela. Em seu nome, antes de Caymmi tem Alice.

“Desolação de Los Angeles,
a Baixa Califórnia e uns desertos ilhados
por um pacífico turvo…”

“Minhas Lágrimas” está na lista de músicas esquisitas de Caetano Veloso. Poucos versos, versos livres. Sem rima, sem solução. É um texto que parece lutar para se encaixar em alguma harmonia possível. Talvez seja a única música de Caetano da qual se tenha registro da ideia brotando em sua mente. No documentário “Coração Vagabundo”, de Fernando Grostein, ele fala sobre uma tristeza esquisita sentida durante uma viagem a Los Angeles, sentimento que só se resolveria em uma canção. Na época, Caetano estava separado de Paula Lavigne e começava a escrever as músicas que apareceriam no projeto “Cê”. “Minhas Lágrimas” é esquisita, mas tem texto cristalino. Em um aviãozinho de carpete horrível, sozinho, solteiro aos 60 anos, vendo a imensa Los Angeles; espelho da feiura do mundo – algo bateu mal em Caetano. “Nada serve de chão/ onde caiam minhas lágrimas”. E é este texto tão pessoal que o ator Gabriel Leone resolveu interpretar em seu recém-lançado álbum de estreia, onde a canção se torna também título do disco. Em suas idas a Hollywood, talvez ele também já tenha ficado sem chão para suas lágrimas naquele mesmo avião; embora qualquer um possa chorar com ele e Caetano. Em um disco onde Leone resolve reinterpretar compositores mais velhos (Djavan, Paulo Vanzolini, Guinga, Paulo César Pinheiro, entre outros), não deixa de ser curioso ele optar por uma versão meio indie do Caetano meio indie.     

Falar que Getúlio Abelha expande as possibilidades estéticas do forró parece exagero, mas em “Autópsia+”, seu novo trabalho, isso acontece, sim, e de formas diferentes. “Bricadeira do Ossinho”, por exemplo, conversa com o pop de uma Raye da vida, uma soma de 1+1, básico. Mas em uma faixa com “Zé Pinguelo” a equação é bem mais doida, já que o flow dele junta funk paulista com brega, a bateria começa indie rock, rola até um riff quase stoner lá na meiuca e do nada uma pausa que em segundos vai do jazz para um cair num break clássico de hip hop. Sério. Tudo misturado com tamanha fluidez que todos os rótulos ficam em cheque.

Por que uma música do Chococorn And the Sugarcanes teria aviso de “explícito”? Essa marca não costuma vir nem nas músicas mais baixarias do mundo, qual a razão vir em uma música chamada “Mais Gentil”? Tudo por conta de um “E que se foda” cantando entre os versos sentimentais do nossos emo caipiras. “Seja gentil com você ou por alguém”, eles pedem na música. É, talvez isso seja explícito nos dias de hoje. Aliás, a banda é tão gentil que soltou uma linha de merch do recém-lançado novo álbum, “Todos os Cães Merecem o Céu”, cuja renda vai toda para a ONG Patinhas Unidas. Procure saber: www.chococornbanda.com/

A improbabilidade do encontro Jonnata Doll e os Garotos Solventes com YMA é justamente o motor da primeira Residência RISCO, ideia de juntar nomes do selo para colocar artistas de universos diferentes para conversar. O resultado é Jonnata cantando em bases tranquilas e pop bem diferentes da pegada de “Matou a Mãe” ou a maioria das canções suas com os Garotos Solventes. A produção é de YMA e Loro Sujo, baixista dos Garotos. Prometido há anos, o disquinho pode indicar para onde vão os caminhos separados tanto de YMA quanto de Jonnata e companhia. 

Quem escuta “Vagando” do Thalin sem ter escutado “Amargo” de Nina Maia acha que o rapper encontrou algum samba antigo, uma raridade lá dos anos 1970, e aumentou a velocidade para gerar uma base moderna para os seus versos. Que nada. É Nina Maia chique (e acelerada) direto do seu álbum “Inteira”, lançado ano passado e em franco processo de descobrimento cada vez mais amplo do público – os shows estão aumentando o número de fãs rapidamente. De certa forma, Thalin achou mesmo uma raridade para fazer sua magia.

Após fazer sua festa na companhia de Ederaldo Gentil nas regravações de “Carnaval Eu Chego Lá”, Giovani Cidreira retorna ao trabalho autoral com a singela “Denga”, um single ao vivo e ao violão para abrir os trabalhos de seu próximo disco. A origem da composição, explica Giovani, veio “da vontade de encontrar um cantinho no mundo onde a gente possa simplesmente ficar… sem pressa”. É ouvir e querer encontrar junto com ele esse tal cantinho.

11 – Dany Roland e Pedro Sá – “Tudo Nada” (2)
12 – Pedro Lanches – “Vergonha” (2)
13 – Febem, Fleezus, CESRV – “Terceiro Mundo – Baile do Brime” (2)
14 – Dead Fish – “Bem-Vindo ao Clube (Ao Vivo)” (2)
15 – Antropoceno – “Ayaba Oxum” (3)
16 – VHOOR – “Me Faz um Favor” (3)
17 – Mombojó – “É o Poder da Dança” (3)
18 – Romulo Fróes – “A Vida Que Já Era” (4)
19 – Julieta Social – “Cê La Vie” (4)
20 – Marcelo Callado – “Casca” (4)
21 – Lucas Santtana – “Liga (com Cocanha)” (5)
22 – Liniker – “Charme” (6)
23 – Pedro Lanches – “Adesivos (com YMA)” (6)
24 – Marina Lima – “Olívia” (6)
25 – Vitor Araújo e a Metropole Orkest – “Toque N.3” (7)
26 – Isma – “Made In Cohab” com Tasha & Tracie, Carlos do Complexo e CARLO (7)
27 – Larissa Luz – “Marchona” (7)
28 – Borges – “Vença (com Emicida e Ajax)” (7)
29 – Teto e WIU – “À Beira (com Don L e Lamar)” (7)
30 – Rancore – “Eu Quero Viver” (7)
31 – Criolo, Amaro Freitas e Dino d’Santiago – “E Se Livros Fossem Líquidos_ (Poeta Fora da Lei Pt II)” (8)  
32 – Lan – “Tão Bom Lembrar (com JOCA)” (8)
33 – Supervão – “Tudo Certo pra Dar Errado (com Carlinhos Carneiro)” (8)
34 – Guilherme Arantes – “Puro Sangue (Libelo do Perdão) (8)
35 – Zé Ibarra – “Segredo – DJ Marky Remix” (8)
36 – Marcelo Cabral – “O Herói Vai Cair” (9)
37 – Maria Bethânia – “Vera Cruz” (9)
38 – Letuce – “Baliza” (9)
39 – Janine- “Dorotá ( p.0, p.1, p.2, p.3, p.4)” (11)
40 – Marina Sena – “Saí para Ver o Mar” (com Rachel Reis) (11)
41 – Tuxe – “Nada a Pulso”  (11)
42 – Parteum – “10, Talvez 9”  (11)
43 – Don L – “Iminência Parda”  (11)
44 – Emicida – “Quanto Vale o Show Memo?”  (11)
45 – Lia de Itamaracá e Daúde – “Bordado”  (11)
46 – Tori – “Ilha Úmida”  (11)
47  – Mateus Aleluia – “No Amor Não Mando”  (11)
48 – Jadsa – “Big Bang” (11)
49 – Cajupitanga e Arthus Fochi – “Flamengo”  (11)
50 – Joca – “BADU & 3000” (com Ebony)   (11)


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* Entre parênteses tem a indicação de quantas semanas a música está neste Top 50.
** Na vinheta do ranking, o multimusical Otto Dardenne, o Ottopapi.
*** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro Vinícius Felix.