Top 50 da CENA – O zum zum zum do Edgar ganha o topo. Sepultura com a balada que precede a morte. E o Silva quer paz para aproveitar o rolidei

Faltam duas músicas para o Top 50 empurrar de vez as canções de 2025 para fora da lista. Já consegue colocar na cabeça quais são suas favoritas de 2026 até aqui? Chega o momento do ano em que já podemos começar a observar como andam as coisas, o que se destaca, o que faz e o que não faz sentido. O zum zum zum começa a ficar mais forte. 

Edgar sempre pareceu estar no futuro. Seu codinome avisava: Novíssimo Edgar. Acelerado, ele desacelera uma ideia antiga através do dub em “Zum Zum Zum”, uma releitura da sua antiga “Meus Velhos Dedos Amarelos”, som que circulou bastante via YouTube. Ao voltar ao passado, Edgar soa pouco nostálgico. Não é o que o passado era melhor. É que o passado poderia ter sido muito melhor e vale ser remexido, reavaliado, recomposto. Tratar uma velha ideia com carinho. Tanto que embora seu próximo álbum leve o nome de “Rewind”, ou seja, “Rebobinar” em português, não se trata de resgate. Edgar explica melhor: “É a possibilidade infinita de revisitar o trabalho e perceber que, em uma frase de letra antiga, mora um longa-metragem ou um livro a ser destrinchado. Pra mim, é o legado da obra. Como se eu enxergasse algo novo do antigo  que precisa ser apresentado pros novos vocês de ontem”. 

“The Cloud of Unknowing” será o último lançamento antes da morte do Sepultura – uma despedida que oficialmente não terá a presença dos irmãos Cavalera, os dois fundadores. Nuvem do desconhecido é um bom título. No último suspiro do grupo, estão testando coisas nunca feitas por eles. Após um primeiro single quase progressivo, o segundo lançamento do EP, “Beyond the Dream”, pode ser classificado como a primeira balada da banda. Pense nos primeiros momentos “suaves” do Metallica: “Welcome Home (Sanitarium)” ou “Fade to Black”. Lembra bastante. 

Lembra quando o Silva deu uma detonada em geral na lógica do mercado da música brasileira? Sobrou de Paula Lavigne até Serginho Groisman. Chamado de sincericídio pela imprensa, Silva reclamava da cultura de apadrinhamento e de nostalgia. Pediu desculpas depois e virou sample em uma música do Rael (confira mais para baixo). Uma das declarações da qual se arrependeu depois era sobre virar um cantor “cantorzinho de MPB que faz musiquinhas para vocês ouvirem na Bahia”. Seu novo álbum, “Rolidei”, mostra alguma paz de espírito com fazer canções simples. Afinal, é um disco praieiro, litorâneo. Cabe na Bahia ou em um quintal com sol em São Paulo mesmo. Tá certo. Trabalhar com ódio é veneno. O problema não está em canções simples e leves, como esta bela “ROLIDEI”. 

O trio formado por Lio, Lay e Jean tornou oficial o primeiríssimo lançamento da banda; um disquinho caseiro gravado antes da estreia oficial com “Pra Curar” em 2018. O EP autointitulado e vendido nos primeiros shows circulava só entre os fãs, links estranhos da internet e no YouTube. É a primeira vez dele nas plataformas e ajuda a entender como o talento, coragem e doçura do trio já estava lá desde o começo: mesmo com toda a poeirinha do lo-fi. 

“Tá de volta/ Pesames pra quem não gosta”. Já começa assim a segunda vinda do Brime, o projeto que juntou Febem, Fleezus & CESRV e causou lá no distante 2020. Foi a trilha sonora da pandemia e causou estardalhaço e comoção com as apresentações ao vivo quando a vida voltou ao “normal”. O sucesso do projeto é um dos pontos discutidos no novo trabalho. Tanto as conquistas materiais quanto as culturais: por que o brime não pode ser M.P.B? É porque eles sabem que a sigla está atrelada a classe. Ao contrário do que diz o sample no começo da faixa, MPB não designa toda e qualquer produção ligada à música popular feita no Brasil. Febem chuta a porta da festa indo direto ao ponto: “MPB: Música Periférica Brasileira”. Pêsames pra quem não gosta.   

Discutindo também o cenário da música popular brasileira, mais exatamente da indústria da música brasileira, Rael abre “Nas Profundezas da Onda”, seu novo álbum, repercutindo o desabafo público de Silva sobre as dificuldades do cenário atual – muito retrô, pouco interessado em criatividade e mais ligado na influência e likes. “Já tão ligado que tá forçado/ Que esses cliques são comprado/ Que irado, quantos views você tem?”, rima Rael, que apresenta seu lado na discussão ao encarar um mercado que insiste em tentar colocar sua obra em alguma caixinha. “E o mercado me diz, me diz/ Que eu sou raiz do hip-hop/ Preto demais pra ser pop/ Que tá urban music”. O desejo de Rael parece ser seu desejo para geral: um pouco mais de liberdade. Menos tese, ppt, case. Mais canções, refrões e groove. O público cansado da mesmice quer algo fora da régua também. 

Não seria a primeira vez que um hit distorce a imagem real de um artista. O fenômeno/meme/viral “Acorda Pedrinho” escondeu o lado mais introspectivo dos curitibanos do Jovem Dionísio. A própria banda arriscou um vôo mais direcionado ao pop no segundo álbum, “Ontem Eu Tinha Certeza (Hoje Eu Tenho Mais)”, lançado em 2024, embora a atmosfera mais quietinha de “Pontos de Exclamação” sempre estivesse por ali. “Migalhas”, terceiro disco do grupo formado por Bernardo Pasquali, Rafael Dunajski Mendes “Fufa”, Gustavo Karam “Karam”, Bernardo Hey “Ber Hey” e Gabriel Dunajski Mendes “Mendão” volta a evidenciar o jeitão mais melancólico do grupo. O ar de banda de garagem reaparece graças ao método de gravação escolhido: todo mundo junto ao mesmo tempo no estúdio, disposto a captar tudo, inclusive erros e inseguranças. Se vai viralizar não sabemos, mas a banda parece disposta a colocar o trabalho na rua, literalmente! Vão fazer uma turnê tocando o disco dentro de um ônibus/palco por aí. 

Preparando álbum para maio, o rapper baiano Vandal canta o som da cidade de Salvador através do seu olhar. O nome da faixa é uma citação ao álbum do Parangolé, “A Verdade da Cidade”, lançado em 2007. Indo além dos clichês conhecidos da música baiana, equaliza a importância de todos que já movimentaram aquelas ruas, Gal, Riachão, BaianaSystem. O som é feito no dia-a-dia, não nasce do nada, tem hora, lugar. Não reconhecer isso é matar a verdade da música. Vandal está interessado na verdade. “Eu vou de verdade, eu sou o hip-hop”.

A vida artística de Marina Lima começou ao lado do irmão Antônio Cícero. Ela tinha 15 anos quando musicou um poema dele. Seu texto inventou a compositora, a música dela transformou o poeta em letrista. Com diferentes graus de intensidade, a parceria rendeu músicas para todos os discos de Marina; a exceção é “Clímax” de 2011. “Ópera Grunkie” é o primeiro disco de Marina sem Cícero por perto. O poeta optou pela morte assistida em 2024 após entender que a vida estava insuportável por conta do Alzheimer. “Não consigo mais escrever bons poemas nem bons ensaios de filosofia. Não consigo me concentrar nem mesmo para ler, que era a coisa de que eu mais gostava no mundo”, escreveu em sua carta de despedida. Por isso, o primeiro ato de “Grunkie” é dedicado a ele. Aqui Marina reúne em três faixas seu processo de luto: da negação até a aceitação. “Não, Cícero” sussurra em “Grief-Stricken”, enquanto em “Perda” lembra os versos dele: “Vida, valeu. Não te repetirei jamais”. “Meu Poeta” encerra a tríade sendo sua carta de amor ao irmão. “Eu compreendi você e vou te amar eternamente”. Com a emoção em suspense, Marina se joga no segundo ato trazendo Ana Frango Elétrico para juntas formarem uma só voz nesta “Um Dia na Vida”. É o sol depois de tanta chuva. Uau. Por si só, essa já é uma construção forte o bastante para que esse não seja mesmo seu pior disco, como apontou a crítica da “Folha de S.Paulo”, que viralizou. Esse é o tipo de movimento que demanda 70 anos de história. Um compositor não pode fazer isso antes ou depois. Se o disco não entrega canções em formato pop ou não reza pela técnica perfeita aqui ou ali, não parecia ser a intenção dela de entregar esse tipo de recorte. “Fullgás” já cumpriu isso em 1984. “Ópera Grunkie” parece ressoar outra Marina, uma Marina descrita por Cícero nas páginas da mesma “Folha de S.Paulo” em 2011: “A música de Marina é, por um lado, um gesto intensamente pessoal, e por isso precário e arriscado. Mas é, por outro lado, um voo perfeccionista e impaciente com todas as vicissitudes demasiadamente humanas”. Vicissitudes demasiadamente humanas. Tá aí algo de que todo mundo tenta fugir o tempo todo. Marina encarou a si mesma. 

“Nada será como antes/ Tudo vai ser diferente/ Como antes”, canta Catatau logo na segunda faixa de “Cidadão Instigado”, o primeiro álbum em dez anos de seu projeto Cidadão Instigado. Tudo vai ser diferente como antes. Igual quando Catatau sozinho começou a juntar em São Paulo os pedaços de ideias que formariam o projeto em Fortaleza há 30 anos, ele se viu sozinho em São Paulo na pandemia acompanhado apenas de um sampler Roland MV-8800. A partir do medo da doença lá fora, com a mente fervilhando em beats dançantes e dando uma panorâmica na situação da música brasileira hoje, as composições criaram força para reunir amigos antigos e novos. Ao passo que encontramos velhos conhecidos do Cidadão, como Clayton Martin, Dustan Gallas, Rian Batista e Regis Damasceno, passam por aqui também Jadsa, Ava Rocha, Juçara Marçal, Anna Vis, YMA, Mateus Fazeno Rock, Edson Van Gogh e Kiko Dinucci… Mas tudo é Cidadão Instigado. 30 anos depois nada será como antes
Tudo vai ser diferente. Como antes.

11 – BUHR – “Ânsia” (2)  
12 – Schlop – “Clássicos” (2)
13 – MINTTT – “Liberdade Trade Mark” (2)
14 – Ottopapi – “Meus Podres” (3)
15- Ítallo França – “Tire uma Hora pra Lembrar de Mim” (3)
16 – Tiny Bear – “Mathpop” (3)
17 – Alice Caymmi – “Modinha para Gabriela” (3)
18 – Gabriel Leone – “Minhas Lágrimas” (4)
19 – Getúlio Abelha – “Zé Pinguelo” (4)
20 – Chococorn and the Sugarcanes – “Mais Gentil” (4)
21 – Jonnata Doll e os Garotos Solventes & YMA – “Calçadas” (4)
22– Thalin – “Vagando” com Nina Maia (4)
23 – Giovani Cidreira – “Denga” (5)
24 – Dany Roland e Pedro Sá – “Tudo Nada” (5)
25 – Pedro Lanches – “Vergonha” (5)
26 – Antropoceno – “Ayaba Oxum” (6)
27 – VHOOR – “Me Faz um Favor” (6)
28 – Mombojó – “É o Poder da Dança” (6)
29 – Romulo Fróes – “A Vida Que Já Era” (7)
30 – Julieta Social – “Cê La Vie” (7)
31 – Marcelo Callado – “Casca” (7)
32 – Lucas Santtana – “Liga (com Cocanha)” (8)
33 – Liniker – “Charme” (9)
34 – Vitor Araújo e a Metropole Orkest – “Toque N.3” (10)
35 – Isma – “Made In Cohab” com Tasha & Tracie, Carlos do Complexo e CARLO (10)
36 – Larissa Luz – “Marchona” (10)
37 – Borges – “Vença (com Emicida e Ajax)” (10)
38 – Teto e WIU – “À Beira (com Don L e Lamar)” (10)
39 – Rancore – “Eu Quero Viver” (10)
40 – Criolo, Amaro Freitas e Dino d’Santiago – “E Se Livros Fossem Líquidos_ (Poeta Fora da Lei Pt II)” (11)  
41 – Lan – “Tão Bom Lembrar (com JOCA)” (12)
42 – Supervão – “Tudo Certo pra Dar Errado (com Carlinhos Carneiro)” (12)
43 – Guilherme Arantes – “Puro Sangue (Libelo do Perdão) (12)
44 – Zé Ibarra – “Segredo – DJ Marky Remix” (11)
45 – Marcelo Cabral – “O Herói Vai Cair” (12)
46 – Maria Bethânia – “Vera Cruz” (12)
47 – Letuce – “Baliza” (12)
48 – Janine – “Dorotá ( p.0, p.1, p.2, p.3, p.4)” (14)
49 – Marina Sena – “Saí para Ver o Mar” (com Rachel Reis) (14)
50 – Tuxe – “Nada a Pulso”  (14)

***
* Entre parênteses tem a indicação de quantas semanas a música está neste Top 50.
** Na vinheta do ranking, o rapper Novíssimo Edgar.
*** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro Vinícius Felix.