Top 50 da CENA – Bora para 2026 no BR, com Janine (várias), Marina Sena, Tuxe e até Mutantes

É repetitivo, mas acontece todo ano, fazer o quê? O mundo da música brasileira adormece no pré-Carnaval e pouca coisa nova surge neste interregno. Até fica nossa dica para quem está começando, manda e-mail, DM para a gente em janeiro! Está todo mundo dormindo no volante. Você vai pegar nossa caixa de entrada limpinha, aumenta a chance de ser ouvido e, sei lá, acontecer de alguma forma! Por essas e outras, muitas das novidades aqui são ainda de 2025. Inclusive, o primeiro lugar, lançado bem nas nossas “férias”… Ah, outra novidade para o ano: em vez de informar entre parênteses a posição da música na semana anterior, passaremos a informar nesses parênteses o número de semanas que a canção permanece no nosso Top 50. É um jeito dado para visualizarmos melhor o que fica e o que passa com o tempo. Assim, lá no fim do ano vamos ter uma noção do 2026 já insano (menos na música brasileira…). Vamos, turma! Ao trabalho. 

Melhor do que uma música boa para começar o nosso 2026, que tal cinco músicas em uma só? É a experimentação proposta por Janine em “Dorotá”, faixa de EP do mesmo nome dividida em cinco partes, sendo uma delas a parte de número zero. Com duração variando entre pouco mais de 30 segundos e até quase dois minutos, o som soma 5 minutos e cria a “atmosfera de uma cantiga que embala para um sonho febril”, para usar palavras escolhidas pela própria artista. Janine é “multiartista carioca que junta com pesos iguais os talentos de cantora, guitarrista, atriz e artista visual”, definiu Clara Campos no perfilzinho que fez dela aqui na Popload em 2025. E Janine honra tal descrição ao propôr em “Dorotá” um universo expandido – um poema escrito por Bia Coslovsky oferece outro olhar para a canção, por exemplo. É música além da música, e você é convidado por ela a participar da experiência, como quem não dá respostas, mas oferece novas perguntas. Arte, né? 

Te falar, talvez “Saí para ver o mar” seja a melhor música escrita por Marina Sena até aqui. A letra é sexy e apaixonada. Tem um tempero de quem ouviu muito axé, bossa nova e muito rap. Na cadência, na escolha de palavras. Talvez pela despretensão de ser para um EP de Carnaval, o “Marinada Vol 01”, a canção soa mais bem resolvida que outros momentos introspectivos de Marina, como em “Anjo” ou “Ouro de Tolo”. É canção daquelas resistentes a uma versão voz e violão ou que poderia ser a escolha moderninha da vez de Bethânia e do Caetano em uma futura turnê em dupla. Em um dos versos, Marina canta que o amor dela é um verão “quando eu tô no litoral sul da Bahia”, “um copo de cerveja no bairro” ou o “sono de sábado”, mas nem precisava, o clima da música já te coloca nesses ambientes sagrados. Hit total!

Também pensando no Carnaval e na Bahia, o DJ e produtor Tuxe relembra em “Nada a Pulso” os graves do pagodão baiano escutados nas festas da família em Salvador. É como se o artista baiano (já residente em São Paulo) encontrasse fotos antigas no baú e sem medo recortasse momentos para uma colagem deixando tudo mais abstrato e ainda mais pessoal. Esse olhar para o passado, incluindo uma fase roqueira, permeiam sua estreia com o EP “Cem por Cento”, lançado no finazinho de novembro.

É tradição. O primeiro lançamento brasileiro do ano sempre é uma inédita do Parteum. Há dez anos, ele mantém o hábito de passar os últimos dias do ano em criação. Em 2026, o resultado já é “10, Talvez 9”, que de acordo com o rapper teve seu nome trocado de última hora por intervenção dos dez, talvez nove, amigos. Qual será o título censurado? O que sabemos é que este som é o terceiro single de “Raciocínio Inteiro”, álbum lançado de forma serializada por Parteum desde o ano passado. Quem é fã saberá ter paciência. 

1969. O Brasil afundando na ditadura. AI-5. É até chocante saber que neste período na TV Cultura havia um programa chamado “Jovem Urgente” onde colavam nomes como Mutantes, Tom Zé e Novos Baianos. Um longo trecho desse programa circula no YouTube há anos. Foi pego a partir de uma reprise editada do programa original. Há festa, há certa liberdade, mas todos parecem incomodados, como quem sabe que faz parte de um filme de fim trágico. Alguém conseguiu ir mais a fundo nos arquivos e achou um pedaço inédito e para lá de especial: os Mutantes tocando “A Day in the Life” dos Beatles. E com direito a tudo: Rita Lee mimetiza as cordas originais em sua flauta doce e a banda cria um improviso assombroso para dar conta da subida orquestral que reparte a música. Ver e ouvir Rita Lee, Arnaldo Baptista, Sergio Dias, Liminha e Dinho Leme se divertindo com a música de seus maiores ídolos, em seu tempo, é delicioso e doloroso ao mesmo tempo. Por sabermos o quanto a obra original desses brasileiros se equipara a dos ingleses, perceber que tudo aquilo acontece enquanto a possibilidade de um Brasil plural é estrangulada, bota a gente pensando em muita coisa. Lô Borges, Milton Nascimento e Fernando Brant resumiram melhor: “Eu sou da América do Sul/ Eu sei, vocês não vão saber”. Tropical melancolia, diria Torquato Neto. Vai no YouTube para ouvir. ()

“Eminência parda” é um influente, um poderoso sem cargo oficial. Originalmente, pode ser entendido como o manipulador de alguém com um cargo real, o braço direto de um presidente, um empresário poderoso, o crime organizado, por aí vai nos exemplos. Emicida na faixa “Eminência Parda” extrapolou o significado da expressão ao cantar sobre sua própria influência, o poder do rapper em alterar os rumos da cultura (“Não sou convencido, sou convincente/ Aí, vê na rua o que as rima fizeram”). Aqui, Don L explode os significados ao trocar um ‘e’ pelo “i” e inventar um novo dito – uma letra muda o fim do filme. Iminência é o que está para acontecer. A iminência parda pode ser entendida como algo extra oficial que está por vir – uma revolução? O “pardo’ também tem seu sentido multiplicado. Emprestado da expressão original, agora pode se referir também à violenta miscigenação brasileira. Cabe aos filhos da violência colonial qualquer mudança possível contra “os donos do estado que ainda são os filhos dos senhores de escravos”. Talvez tenha mais aí, certamente tem. A letra é também uma longa revisão biográfica do próprio Don, uma reavaliação de tudo que rimou até aqui (“Me fecharam portas/ Eu dobrei a aposta). Uma vez confrontado com uma questão de vestibular, pedindo explicação sobre um verso seu, Don L afirmou que marcaria as quatro opções dadas – polissemia é mato na sua escrita. E ainda nem falamos da música em si. A base usa um sample quase na íntegra como refrão, mas não permite que essa vire a cama da música – o método mais comum ao se usar um corte longo. Aqui, o sample é faca afiada cortando o fluxo dos versos. O corte abrupto não pede atenção para dar recado, pede a atenção que te exige swing para escapar de um ataque, da morte iminente.

A nota mais repetida com “Emicida Racional VL 2 – Mesmas Cores & Mesmos Valores” é de que ele voltou a rimar como no começo, pesadão. Vale como metáfora, mas uma ideia importante fica pelo caminho. Seu lado mais agressivo das batalhas nunca foi abandonado. O bem-sucedido projeto “Amarelo” pode soar fofo e pop, mas sua sugestão é radical:  imaginar a vida do preto no Brasil para além do “Negro Drama”. É 2025, mas o Brasil ainda amanhece com manchetes do tipo “Santa Catarina aprova fim de cotas raciais em universidades estaduais”. Outro exemplo: anos de trabalho na arte e o maior tempo que Emicida ganhou no “Fantástico” foi quando brigou com o irmão. Quanto vale o show? Uma pergunta que fica mais dolorida ainda quando o maior norte de Leandro vai embora: a mãe, Jacira. Tanto que é a ela que ele recorre para voltar ao trabalho. São os áudios deixados por ela que abrem o álbum, o mesmo onde recorre aos seus pais artísticos, os Racionais MC’s, para se reorientar. Embora retome “Cores e Valores” no nome e reconstrua diretamente sons do disco, Emicida vai muito além na homenagem e referências aos quatro pretos mais perigosos do Brasil, a ponto de fazer um som todo apenas com versos escritos pelo grupo. São tantas refs que temos um mar para ser investigado em cortes curtos por mil influenciadores nas próximas semanas. Mas saber de onde veio o que vale menos que entender que vieram do coração do compositor. Piegas? É o que é. Apesar de todas as canções autobiográficas até aqui, de todos os seus álbuns este é a biopic, nesse ele é o protagonista do filme. Um recorte radical espelhado no formato, nada pop: um som é uma coleção de áudios, duas são instrumentais, uma recitada e a outra é de “silêncio. Um refrão só dá as caras. Duas passam dos oito minutos (!!!). “Hoje deu certo o sonho”, diz Jacira em um dos áudios. É memo. Deu certo o sonho. E ainda tem o volume 1 por vir.

Temos um dos versos mais bonitos de 2025: “Eu vou varrer as lantejoulas que eu chorei e você não viu”. São de BUHR (o nome que Karina Buhr quer ser chamada agora – “feito o barulho do fantasma: bu”). Na voz de Lia de Itamaracá aos 81 anos, então, os sentidos se amplificam. A canção faz parte da inédita parceria em disco de Lia com a cantora baiana Daúde. “Pelos Olhos do Mar” ainda traz inéditas de Chico César, Emicida, Céu, Otto e Russo Passapusso em mais um daqueles esforços comandados por Marcus Preto de colocar diferentes gerações para conversar. Afinal, quem não tem passado não há de ter futuro. Exemplo, como destaca Daúde, temos aqui: Lia mostrando sua força para além do coco e da ciranda. “Canta bolero, canção, divide com outra artista dentro do estúdio. É uma outra veia que está sendo explorada que ela tem dentro dela.”

O convite de Tori não esconde os riscos: “Não sei se dou pé/ Mas venha”. Se o assunto é quente, o risco é queimar. Ou se afogar, para ficar na metáfora da música. Tori explora a ilha como uma descoberta, um refúgio para o náufrago, um novo relacionamento, mas aproveita a figura para falar também da solidão. “Pele com pele até que se revele”. Um dos detalhes mais legais da música é a bateria de Domenico Lancellotti, reconhecível no primeiro toque de vassourinha que ecoa até a voz de Tori tomar para si a canção. A produção da faixa é compartilhada entre os dois, que dividem espaço ainda com Francisca Barreto no violoncelo e Julia Guedes no piano. “Areia e Voz”, segundo álbum da artista sergipana, ainda fará barulho em 2026. Avisamos aqui. 

O álbum anterior de Mateus Aleluia, “Afrocanto das Nações”, era um museu, composições oriundas de sua pesquisa sobre a ancestralidade ritualística musical pan-africana. Era o compositor de olho no outro. “Mateus Aleluia”, disco solo que leva seu nome, indica voltar o olhar para si mesmo. Ou melhor, um automergulho, para ficar na metáfora indicada pelo mestre sugerida já na capa do trabalho. E mergulhos profundos exigem fôlego. O álbum é composto de seis faixas longas. A mais curta fica em sete minutos e a mais extensa tem 14, ao reunir três canções em uma só – um jeito interessante de segurar apressados atrás de um atalho na viagem. Nessa jornada prazerosa e contemplativa, Mateus canta muito sobre o amor e sua força implacável. “No Amor Não Mando” diz tudo no título. “O amor é minha lei” é o verso que marca a dolorida “Para Tentar Te Esquecer”. Já “Pantera Negra”, outra de amor, em suas mãos não é Marvel, é da mata. Passar esse tempinho com Mateus é encontrá-lo, óbvio, mas também é reencontrar a si mesmo. É diminuir o passo na corrida. Mais: é questionar a corrida. No violão doce e na voz grave, Mateus dá sua aula de respeito à música e suas exigências. Respeitemos menos o mercado e seus vícios. Só quem trata a música assim pode escrever algo da preciosidade de “Oh, música mostra-me a magia de eu só ser música”. A música que te agradece, Aleluia.

11 – Jadsa – “Big Bang”  (1)
12 – Cajupitanga e Arthus Fochi – “Flamengo”  (1)
13 – Joca – “BADU & 3000” (com Ebony)  (1)
14 – Chico César – “Breu”  (1)
15 – Clara Bicho – “Meu Quarto”  (1)
16 – Nigéria Futebol Clube – “Preto Mídia”  (1)
17 – BK – “Só Quero Ver” (1) 
18 – Vera Fischer Era Clubber – “Lololove U”  (1)
19 – Zé Ibarra – “Segredo”  (1)
20 – Lupe de Lupe – “Vermelho (Seus Olhos Brilhanto Violentamente Sob os Meus)”  (1)
21 – Marabu – “Rubato”  (1)
22 – Joca – “BADU & 3000” (com Ebony)  (1)
23 – Mateus Fazeno Rock – “O Braseiro e as Estrelas”  (1)
24 – Valentim Frateschi – “Mau Contato”  (1)
25 – Eliminadorzinho – “Você Me Deixa Coisado”  (1)
26 – Douglas Germano – “Tudo É Samba”  (1)
27 – Oruã – “Casual”  (1)
28 – PUSHER174 – “Eu Sou do Contra”  (1)
29 – Sophia Chablau & Felipe Vaqueiro – “Cinema Total”  (1)
30 – Teago Oliveira – “Desencontros, Despedidas”  (1)
31 – Dadá Joãozinho – “As Coisas”  (1)
32 – ÀIYÉ e Juan De Vitrola – “De Nuevo Saudade”  (1)
33 – Gabriel Ventura – “Fogos”  (1)
34 – Nyron Higor – “São Só Palavras”  (1)
35 – Ottopapi – “Ruim da Cuca”  (1)
36 – Pelados – “Modric”  (1)
37 – YMA – “Rita”  (1)
38 – Janine Mathias – “Deixa pra Lá”  (1)
39 – João Parahyba – “Forró World”  (1)
40 – Rachel Reis – “Coisa Rara”  (1)
41 – Antropoceno – “O Ar nos Meus Pulmões”  (1)
42 – Desastros – “Desastres”  (1)
43 – Djavan – “Pra Sempre”  (1)
44 – Stefanie – “Fugir Não Adianta” (com Mahmundi)  (1)
45 – Flau Flau – “Bye Bye”  (1)
46 – Carlos Dafé – “Jazz Está Morto”  (1)
47 – Gab Ferreira – “Começos”  (1)
48 – Jup do Bairro e Negro Leo – “A ÚLTIMA VEZ QUE VOCÊ F*** COMIGO”  (1)
49 – Vanguart – “O Mais Sincero”  (1)
50 – Varanda – “Não Me” (1)

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* Entre parênteses, agora, tem a indicação de quantas semanas a música está neste Top 50.
** Na vinheta do ranking, a multiartista carioca Janine.
*** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro Vinícius Felix.