
Tava faltando rap aqui no Top 50. Não falta mais. Três lançamentos pesados chegaram nesta semana. A volta do Brime, a onda do Rael e a verdade de Vandal. Sim, o título entrega. Também tem o retorno do Jovem Dionísio em uma onda mais indie. Acorda, Pedrinho! Vem de Top 50.

“Tá de volta/ Pesames pra quem não gosta”. Já começa assim a segunda vinda do Brime, o projeto que juntou Febem, Fleezus & CESRV e causou lá no distante 2020. Foi a trilha sonora da pandemia e causou estardalhaço e comoção com as apresentações ao vivo quando a vida voltou ao “normal”. O sucesso do projeto é um dos pontos discutidos no novo trabalho. Tanto as conquistas materiais quanto as culturais: por que o brime não pode ser M.P.B? É porque eles sabem que a sigla está atrelada a classe. Ao contrário do que diz o sample no começo da faixa, MPB não designa toda e qualquer produção ligada à música popular feita no Brasil. Febem chuta a porta da festa indo direto ao ponto: “MPB: Música Periférica Brasileira”. Pêsames pra quem não gosta.
Discutindo também o cenário da música popular brasileira, mais exatamente da indústria da música brasileira, Rael abre “Nas Profundezas Da Onda”, seu novo álbum, repercutindo o desabafo público de Silva sobre as dificuldades do cenário atual – muito retrô, pouco interessado em criatividade e mais ligado na influência e likes. “Já tão ligado que tá forçado/Que esses cliques são comprado/Que irado, quantos views você tem?”, rima Rael, que apresenta seu lado na discussão ao encarar um mercado que insiste em tentar colocar sua obra em alguma caixinha. “E o mercado me diz, me diz/Que eu sou raiz do hip-hop/Preto demais pra ser pop/Que tá urban music”. O desejo de Rael parece ser seu desejo para geral: um pouco mais de liberdade. Menos tese, ppt, case. Mais canções, refrões e groove. O público cansado da mesmice quer algo fora da régua também.
Não seria a primeira vez que um hit distorce a imagem real de um artista. O fenômeno/meme/viral “Acorda Pedrinho” escondeu o lado mais introspectivo dos curitibanos do Jovem Dionísio. A própria banda arriscou um vôo mais direcionado ao pop no segundo álbum, “Ontem Eu Tinha Certeza (Hoje Eu Tenho Mais)”, lançado em 2024, embora a atmosfera mais quietinha de “Pontos de Exclamação” sempre estivesse por ali. “Migalhas”, terceiro álbum do grupo formado por Bernardo Pasquali, Rafael Dunajski Mendes “Fufa, Gustavo Karam “Karam”, Bernardo Hey “Ber Hey” e Gabriel Dunajski Mendes “Mendão” volta a evidenciar o jeitão mais melancólico do grupo. O ar de banda de garagem reaparece graças ao método de gravação escolhido: todo mundo junto ao mesmo tempo no estúdio, disposto a captar tudo, inclusive erros e inseguranças. Se vai viralizar não sabemos, mas a banda parece disposta a colocar o trabalho na rua, literalmente! Vão fazer uma turnê tocando o disco dentro de um ônibus/palco por aí.
Preparando álbum para Maio, o rapper baiano Vandal canta o som da cidade de Salvador através do seu olhar. O nome da faixa é uma citação ao álbum do Parangolé, “A Verdade Da Cidade”, lançado em 2007. Indo além dos clichês conhecidos da música baiana, coloca equaliza a importância de todos que já movimentaram aquelas ruas, Gal, Riachão, Baiana System. O som é feito no dia-a-dia, não nasce do nada, tem hora, lugar. Não reconhecer isso é matar a verdade da música. Vandal está interessado na verdade. “Eu vou de verdade, eu sou o hip-hop”.
A vida artística de Marina Lima começou ao lado do irmão Antônio Cícero. Ela tinha 15 anos quando musicou um poema dele. Seu texto inventou a compositora, a música dela transformou o poeta em letrista. Com diferentes graus de intensidade, a parceria rendeu músicas para todos os discos de Marina; a exceção é “Clímax” de 2011. “Ópera Grunkie” é o primeiro disco de Marina sem Cícero por perto. O poeta optou pela morte assistida em 2024 após entender que a vida estava insuportável por conta do Alzheimer. “Não consigo mais escrever bons poemas nem bons ensaios de filosofia. Não consigo me concentrar nem mesmo para ler, que era a coisa de que eu mais gostava no mundo”, escreveu em sua carta de despedida. Por isso, o primeiro ato de “Grunkie” é dedicado a ele. Aqui Marina reúne em três faixas seu processo de luto: da negação até a aceitação. “Não, Cícero” sussurra em “Grief-Stricken”, enquanto em “Perda” lembra os versos dele: “Vida, valeu. Não te repetirei jamais”. “Meu Poeta” encerra a tríade sendo sua carta de amor ao irmão. “Eu compreendi você e vou te amar eternamente”. Com a emoção em suspense, Marina se joga no segundo ato trazendo Ana Frango Elétrico para juntas formarem uma só voz nesta “Um Dia na Vida”. É o sol depois de tanta chuva. Uau. Por si só, essa já é uma construção forte o bastante para que esse não seja mesmo seu pior disco, como apontou a crítica da “Folha de S.Paulo”, que viralizou. Esse é o tipo de movimento que demanda 70 anos de história. Um compositor não pode fazer isso antes ou depois. Se o disco não entrega canções em formato pop ou ou não reze pela técnica perfeita aqui ou ali, não parecia ser a intenção dela entregar esse tipo de recorte. “Fullgás” já cumpriu isso em 1984. “Ópera Grunkie” parece ressoar outra Marina, uma Marina descrita por Cícero nas páginas da mesma “Folha de S.Paulo” em 2011: “A música de Marina é, por um lado, um gesto intensamente pessoal, e por isso precário e arriscado. Mas é, por outro lado, um voo perfeccionista e impaciente com todas as vicissitudes demasiadamente humanas”. Vicissitudes demasiadamente humanas. Tá aí algo de que todo mundo tenta fugir o tempo todo. Marina encarou a si mesma.
“Nada será como antes/ Tudo vai ser diferente/ Como antes”, canta Catatau logo na segunda faixa de “Cidadão Instigado”, o primeiro álbum em dez anos de seu projeto Cidadão Instigado. Tudo vai ser diferente como antes. Igual quando Catatau sozinho começou a juntar em São Paulo os pedaços de ideias que formariam o projeto em Fortaleza há 30 anos, ele se viu sozinho em São Paulo na pandemia acompanhado apenas de um sampler Roland MV-8800. A partir do medo da doença lá fora, com a mente fervilhando em beats dançantes e dando uma panorâmica na situação da música brasileira hoje, as composições criaram força para reunir amigos antigos e novos. Ao passo que encontramos velhos conhecidos do Cidadão, como Clayton Martin, Dustan Gallas, Rian Batista e Regis Damasceno, passam por aqui também Jadsa, Ava Rocha, Juçara Marçal, Anna Vis, YMA, Mateus Fazeno Rock, Edson Van Gogh e Kiko Dinucci… Mas tudo é Cidadão Instigado. 30 anos depois nada será como antes
Tudo vai ser diferente. Como antes.
Ânsia é daquelas palavras que os dicionários precisam de umas cinco definições para darem conta de todos os sentidos. Os versos de “Ânsia”, de Buhr, vão pelo mesmo caminho. Soltos podem descrever uma pessoa rolando pelo asfalto em desespero, uma pessoa rolando pelo feed em desespero. Mil coisas ao mesmo tempo e perigando ser nada agora. “O pensamento esturricado/ mofando tanto/ de tanto vazio por dentro”. Também pode ser sobre alguém interessado em dizer o que quer e como quer. Fazer sua arte livre. Essa é a ânsia de Buhr também. “Meu dom é real/ na verdade eu insisto/ antes do final/ não te esperei/ nem tudo te espera/ é sobre mim/ agora é sobre mim”. “Ânsia” é o primeiro single de “Feixe de Fogo”, previsto para o dia 10 de abril.
Amamos quando a banda se apresenta de maneira sincera. A descrição do Schlop já na bio do Instagram é “lo-fi foda-se”. Precisa dizer mais? Você dá o play no álbum de estreia deles, “Cachorros e Madames no Fim do Mundo” e encontra um lo-fi foda-se mesmo. Aliás, mentira! Dá até para dizer que eles capricham no desleixo, igual quem despenteia o cabelo de propósito um pouquinho. Não é menos autêntico, veja bem. É estilo. E foda-se. Fora o bom humor explícito em faixas que levam nomes do tipo “Marquinho Van Halen” ou “O Rei do Velotrol”. What? Outro momento que transmite o jeitinho particular de ser do grupo é uma versão para um clássico do LCD Soundsystem. “New York I Love You But You’re Bringing Me Down” virou “São Paulo, Te Amo, Mas Tá Foda Demais”. Gênios.
Acha que as suas músicas estão soando baixas nas plataformas digitais? Pergunta então para a MINTTT, cria da Zona Norte do Rio, como ela consegue fazer foninho de ouvido explodir sem perder em textura e profundidade. É de cair o queixo a pancada produzida por ela em sua “Mixtape da Prensa Hidraúlica”, sua estreia solo como produtora após deixar sua banda, a Astrophysics. Juntando industrial, noise e funk, não cabe ficar tentando classificar muito o que ela faz. Em sua própria descrição, MINTTT coloca um ponto de vista brasileiro no tal “deconstructed club”, um equivalente do pós-rock para a música eletrônica. E pô, lá no meio do baile, ela lança um citação do game Disco Elysium, sabe? O jogo mais marxista já feito. “Então você sabe… Que os burgueses não são humanos”. Vai lá dar um play lá e ver o que os jovens andam pensando sobre o mundo.
Ottopapi um dia postou no Instagram uma foto sua segurando um troféu do VMB, a mítica premiação da velha e extinta MTV. Realmente, ele seria um sucesso por lá. Mas chegou no “lugar certo na hora errada”, para ficar em uma frase do Jack White. É difícil não pensar nisso ao play em “Bala de Banana”, seu álbum de estreia, e dar de cara com seu açucaradíssimo rock superdeslocado do nosso tempo ao soar superindie rock anos 2000, sem medo de ser escrachado ou engraçadinho. Ele se joga com a coragem e o conhecimento de quem já andou muito pela cena em várias frentes: DJ, produtor, curador, agitador, empreendedor indie, designer. Sua fórmula passa por Strokes sabendo da origem do caldo, Nova York 1970 e os efeitos do estrago em terras brasileiras – oi, Cansei De Ser Sexy e companhia ilimitada. Lembra a forma que Cazuza e Frejat releram os Rolling Stones situando os riffs blueseiros nos timbres e no papo carioca da época. É assim. As novas gerações vão redescobrindo tudo mais uma vez. Fica velho quem chiar primeiro. Vale falar em Cazuza porque eles se parecem até no modo de escrever. Conversa solta e franca. “Porque na minha vida já deu pra fazer tanta merda…” é logo o primeiro refrão do disco. E Ottopapi nem faz questão de esconder. “Toddy ao Tédio” é uma citação ao verso “Prefiro Toddy ao tédio”, da poeta Ledusha Spinardi, adotado por Cazuza em camisetas. Sai o baixo Leblon, entra a Barra Funda. Se prepare para quando ele furar a bolha e pintarem comparações exageradas no X; Marina Sena lidou com as comparações exageradas com Gal. Só não vale virar hater. Também não estranhe ao notar que todo mundo que você ouve já é amigo dele de outros carnavais. O homem tava aí o tempo, só você não viu.
11- Ítallo França – “Tire uma Hora pra Lembrar de Mim” (2)
12 – Tiny Bear – “Mathpop” (2)
13 – Alice Caymmi – “Modinha para Gabriela” (2)
14 – Gabriel Leone – “Minhas Lágrimas” (3)
15 – Getúlio Abelha – “Zé Pinguelo” (3)
16 – Chococorn and the Sugarcanes – “Mais Gentil” (3)
17 – Jonnata Doll e os Garotos Solventes & YMA – “Calçadas” (3)
18 – Thalin – “Vagando” com Nina Maia (3)
19 – Giovani Cidreira – “Denga” (4)
20 – Dany Roland e Pedro Sá – “Tudo Nada” (4)
21 – Pedro Lanches – “Vergonha” (4)
22 – Febem, Fleezus, CESRV – “Terceiro Mundo – Baile do Brime” (4)
23 – Dead Fish – “Bem-Vindo ao Clube (Ao Vivo)” (4)
24 – Antropoceno – “Ayaba Oxum” (5)
25 – VHOOR – “Me Faz um Favor” (5)
26 – Mombojó – “É o Poder da Dança” (5)
27 – Romulo Fróes – “A Vida Que Já Era” (6)
28 – Julieta Social – “Cê La Vie” (6)
29 – Marcelo Callado – “Casca” (6)
30 – Lucas Santtana – “Liga (com Cocanha)” (7)
31 – Liniker – “Charme” (8)
32 – Pedro Lanches – “Adesivos (com YMA)” (8)
33 – Marina Lima – “Olívia” (8)
34 – Vitor Araújo e a Metropole Orkest – “Toque N.3” (9)
35 – Isma – “Made In Cohab” com Tasha & Tracie, Carlos do Complexo e CARLO (9)
36 – Larissa Luz – “Marchona” (9)
37 – Borges – “Vença (com Emicida e Ajax)” (9)
38 – Teto e WIU – “À Beira (com Don L e Lamar)” (9)
39 – Rancore – “Eu Quero Viver” (9)
40 – Criolo, Amaro Freitas e Dino d’Santiago – “E Se Livros Fossem Líquidos_ (Poeta Fora da Lei Pt II)” (10)
41 – Lan – “Tão Bom Lembrar (com JOCA)” (11)
42 – Supervão – “Tudo Certo pra Dar Errado (com Carlinhos Carneiro)” (11)
43 – Guilherme Arantes – “Puro Sangue (Libelo do Perdão) (11)
44 – Zé Ibarra – “Segredo – DJ Marky Remix” (10)
45 – Marcelo Cabral – “O Herói Vai Cair” (11)
46 – Maria Bethânia – “Vera Cruz” (11)
47 – Letuce – “Baliza” (11)
48 – Janine- “Dorotá ( p.0, p.1, p.2, p.3, p.4)” (13)
49 – Marina Sena – “Saí para Ver o Mar” (com Rachel Reis) (13)
50 – Tuxe – “Nada a Pulso” (13)
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* Entre parênteses tem a indicação de quantas semanas a música está neste Top 50.
** Na vinheta do ranking, Febem, Fleezus e CESRV, a galera do Brime.
*** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix.