Top 10 Gringo – Um ranking da semana que junta Laufey, Mac DeMarco e Geese no topo não quer com guerra com ninguém. Talvez só um pouquinho

A gente avisou que a Laufey seria a bola da vez. Trouxemos ela para o Brasil antes e tudo. Quem perdeu agora vai pagar mais caro, fazer o quê. No bolo de lançamentos ainda tem atração quente do Lollapalooza do ano que vem, um indie guitar hero e a mais nova maior banda de rock do mundo. Tá bom? 

Parece um conjunto improvável, mas é real. Uma menina de 26 anos da Islândia está colocando um público teen para se ligar em jazz e bossa nova. Quem foi no Popload Festival viu quem é o maior público de Laufey. Seu olhar ao passado aparece bem nesta “Clockwork”, a faixa de abertura do seu terceiro álbum, “A Matter of Time”. Com arranjo e timbres remetendo aos anos 50, ela canta sobre a ansiedade de um primeiro encontro com o melhor amigo no melhor estilo dos filmes norte-americanos da época, com direito a sunday naqueles restaurantes com jukebox e um arcade velho. Engraçado ler em uma matéria sobre ela no jornal inglês “The Guardian” que tenta explicar ao leitor como Laufey pode chegar na proporção de sucesso de uma Billie Eilish mesmo fazendo esse som que soa tão fora do seu tempo. A gente já sabia! Quanto à resposta para tamanha conexão com um público jovem, talvez os fãs saibam melhor a razão. Mas nosso chute é a sinceridade de sua música e do seu texto. Falar ao coração do ouvinte segue funcionando. 

Outro popular improvável é o indie lo-fi do canadense Mac DeMarco. Depois de se apoiar em trabalhos mais produzidinhos, ele voltou ao básico sendo o homem solitário por trás de tudo em “Guitar”. A produção rústica abre espaço para letras de um coração partido tentando assimilar o golpe. Coração partido sem largar mão de se colocar também no banco dos réus, assumindo a culpa de que também machucou o coração de alguém. “Sweeter” ficaria ótima na voz do Alex Turner, parece algo que o inglês escreveria se seu estilo fosse menos rebuscado nas metáforas. 

“There is only dance music in times of war”, diz a sacolejante nova música do Geese. É uma crítica deles à cultura de pão-e-circo para alimentar a alma de soldados ou de nós mesmos, cada vez mais se entupindo de conteúdo, essa praga moderna, para aguentar o tranco de rotinas muitas vezes exaustivas e sem sentido. A consequência disso está na política, na cultura, na economia. A música parece tirar um sarro de tudo isso ao desconstruir uma levada de banda marcial.  

Sem querer comparar a dignidade de cada ação, já reparam que tanto a literatura quanto a IA tentam imaginar bandas setentistas? Todos atrás de um Fleetwood Mac para chamar de seu, digamos. Ellie Rowsell e seus amigos que formam o Wolf Alice parecem encontrar essa banda dos sonhos em seu quarto álbum, “The Clearing”. Aliás, eles próprios assumiram a proposta: “E se o Fleetwood Mac fizesse um álbum hoje em Londres?”. Greg Kurstin, produtor viciado em grandiosidades sônicas, parece ter levado o grupo até esse lugar desejado. Ainda assim, é difícil classificar a sonoridade encontrada como meramente retrô. Ao longo do álbum, você saca que a banda está em 2025. Em todo caso, “Just Two Girls” passa fácil em qualquer rádio empoeirada da vida como uma canção de algum artista perdido dos anos 1970. É pop perfeitinho, tipo Carpenters, algo que Kurstin já entregou no seu antigo grupo The Bird and the Bee. 

Se em seu primeiro álbum solo Oliver Sim investiu em uma narrativa complexa sobre um menino queer com HIV, com direito a desdobramento em filme, seu novo single se joga em um refrão que só quer cantarolar: “Do-do, do-do, do-do, do-do-do”. E tudo certo. Existe tempo para tudo, não é? Como o título entrega, Oliver escrever sobre nossas pequenas obsessões: “Fiquei na minha cabeça o dia todo/ Pensando no que eu disse ou não disse”. É a primeira música dele que não passou pelas mãos do parça Jamie XX. Mas tudo está bem. A conversa oficial é que o XX está trabalhando no próximo álbum. Parece.

Mesmo quando o nu metal era a bola da vez da ira de geral, até os críticos mais ferrenhos do gênero preservavam o Deftones das porradas mais pesadas. Talvez só eles e o System of a Down eram poupados. Não por acaso, Chino Moreno e cia são das poucas bandas daquele período que sobreviveram. “Private Music”, décimo álbum deles, é mais uma das provas de uma obra que para em pé. Pesado de maneira absurda, talvez agora com a leveza de quem não se preocupa mais em tocar ou competir com bandas mainstream. É bom envelhecer. E, melhor, veremos tudo isso no Lollapalooza Brasil em breve. 

Voz histórica da música norte-americana, Mavis Staples foi redescoberta pelas novas gerações quando passou a ter seus álbuns produzidos por Jeff Tweedy, do Wilco. Atenta às novas vozes da música local, também trabalhou com Ben Harper e M.Ward. Em seu próximo trabalho, “Sad and Beautiful World”, Mavis se conecta com artistas mais jovens ainda, como Katie Crutchfield, MJ Lenderman e até com o bamba Justin Vernon. No repertório, nomes moderninhos de tudo, como Frank Ocean (“Godspeed”) e Kevin Morby (“Beautiful Strangers”). Bacana.

As estratégias de marketing ficam cada vez mais incompreensíveis, né? Depois de vazar “oficialmente” músicas novas e subir elas como single nos streamings, Hayley Williams finalmente enquadrou tudo como seu terceiro álbum solo, “Ego Death at a Bachelorette Party”. Para fazer valer tamanho auê, a versão final da produção tem uma faixa inédita, “Parachute”. Pelo menos agora está fácil de escutar tudo juntinho, sem ter que fazer playlist ou download que nem os antigos faziam.  Ah, sobre a música? Sim, boa!

É bonita a empolgação de Britt Daniel com o fato de dividir uma turnê do Spoon com o Pixies, como se sua banda também não estivesse já na história do rock – OK, em outra proporção, mas vamos lá. Aproveitando a tour, enquanto um novo álbum não fica 100%, eles lançaram dois singles para dar uma amostra de como andam: esta roqueira “Chateau Blues” e a contemplativa “Guess I’m Fallin in Love”

A nova do Richard Ashcroft segue a cartilha do hino “Bitter Sweet Symphony”: um sample de uma música dos anos 60, no caso aqui “Classical Gas”, dá o tom da canção. Porém, desta vez os créditos já estão resolvidos. Agora quem imagina ele de volta ao rock inspirado pela tour com os irmãos Oasis, esqueça, viu? A faixa é bemmmm pop, quase dance. Cabe uns remixes aí. 

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* Na vinheta do Top 10, a cantora islandesa Laufey, em foto de Junia Lin.
** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix