Top 10 Gringo – Robyn é primeirona. Flea vem todo trabalhado no jazz em segundo. E a Courtney Barnett volta ao pódio (ela sempre volta)

Jazz com pegada punk, pista de dança com Hebert Marcuse e discos de indie rock com cordas sofisticadas. A música sempre pode levar a gente além. E é o que tentou o pessoal nesta semana de incríveis lançamentos. É o começo de abril e parece que já temos música por demais em 2026. Ah, até o Paul McCartney deu as caras! 

Curioso que a autora de um hit maior que a vida chamado “Dancing on My Own” resolveu ter um bebê “on her own”. A escolha pela maternidade solo através da fertilização in vitro corre tanto pela parte lírica quanto sonora de “Sexistencial”, um álbum escrito nos intervalos possíveis dados pela nova fase da vida. “Quando consigo um tempo para mim, é libertador e divertido” disse a deusa sueca Robyn ao jornal ingles “The Guardian”. Curtir os breves momentos solos para explosões de criatividade lembram também a nova relação que Robyn passou a ter consigo mesma ao perceber que o tesão não precisa sempre ser atrelado a sexo. É Robyn fechada com a ideia do filósofo Hebert Marcuse do corpo como um todo a algo a ser desfrutado. Será que ela leu “Eros e Civilização”? Não resta dúvidas, o patriarcado vai ser derrubado na pistinha. 

O medo de Flea ao investir em um álbum de jazz era ser tirado de farsante pelos músicos do gênero. Em entrevista à revista inglesa “Mojo”, considerou que poderiam achar que se tratava de uma vaidade de um rockstar. Compreensível o medo do baixista. Mas quem escuta “Honora” nem desconfia desse temor ao topar com um álbum que parece mais citar o gênero do que forçar à barra ser parte dele. Em outras palavras, não encontramos um desconhecido Flea por aqui se arriscando horrores. Mesmo ao achar sua sonoridade jazzística, ele não deixa de soar o chili pepper que é. Da dinâmica das faixas até o papo meio hippie escapando aqui e ali, encontramos o já muito criativo Flea da bandona famosa. Dá até para imaginar alguns momentos do álbum bem encaixados em intervalos mais introspectivos do “By the Way”, por exemplo. “Honora”, o álbum, ganha muitos pontos por soar mais ousado e emocionado que as últimas iniciativas do Red Hot Chili Peppers. É um trabalho mais presente. Talvez mais do que um álbum de jazz, Flea queria se encontrar em uma atmosfera menos viciada e esquemática. Livre das pressões e responsas de uma banda grande. “Livre como eu quero ser”, diz em inglês o nome da última faixa. A gente termina o disco se perguntando por que essa essência não volta a ser encontrada em seu projeto principal, com os parças.   

Talvez dê para dividir as canções de Courtney Barnett até “Creature of Habit”, seu recém-lançado quarto álbum de estúdio, entre emergenciais e experimentais. O que acontece aqui é o encontro de um equilíbrio entre as duas atmosferas. Escrito no deserto de Joshua Tree, a compositora australiana dosa as duas energias. É um álbum feito na calma, na espera, na observação da rotina e no espetacular dos detalhes ínfimos. Ao mesmo tempo, mantém a energia de quem deixa para escrever as letras pouco antes de gravar os vocais e não tem medo de deixar registrado um leve escorregão na hora de trocar os acordes da guitarra. Ah, sabe quem toca baixo em “One Thing at a Time”? Flea! 

Difícil não escutar “Ricochet”, terceiro álbum de Lindsey Jordan aka Snail Mail, e não pensar na era “Mellon Collie and the Infinite Sadness”, do Smashing Pumpkins, no jeitão de encontrar um acordo entre um indie rock básico e arranjos de cordas superchiques. Ok. Talvez até as motivações dela seja parecidas com a de Billy Corgan lá atrás. “Grande parte do disco é sobre eu estar apavorada com a morte, a vida e o universo”, disse ela em papo no Tidal. Nesse apavoro, tão nosso também, um punhadinho bom de canções ótimas. 

No que prometem ser o álbum mais soturno deles até aqui, o trio Kneecap não deixa de soar dançante em um pequeno hino onde buscam ressignificar o termo “Fenian”, que nomeará o disco. Associada aos nacionalistas irlandeses do século 19, “Fenian” virou um xingamento sectário dirigido a católicos e nacionalistas. É um trabalho parecido com o que fizeram na faixa “”Smugglers & Scholars”, sobre revolucionários irlandeses do século XX. O próprio trio chamou o trabalho de “cura de nossa ressaca colonial”. Ao falar da Irlanda acabam falando com muito mais gente. Até com nós aqui do Brasil, tão mal resolvidos com nossas questões coloniais. 

John Lennon sempre foi mais autobiográfico que Paul. Mas isso não explica sozinho o choque em ver Paul tão confessional nesta “Days We Left Behind”, single do seu próximo trabalho solo, “The Boys of Dungeon Lane”. O que pega aqui talvez seja ver sua nostalgia batendo aos 83 anos, após tantos eventos lembrando sua vida – só olhar a porrada de documentários sobre os Beatles e sobre ele nos últimos anos. Lembrar o mundo em branco-e-preto agora é bem diferente de lembrar “Penny Lane” aos 25 anos ou chorar a morte de Lennon aos 40 em “Here Today”. Mas, sem sustos, ele já cantou sobre o fim muitas vezes (“The End” com os Beatles, “The End of the End” em carreira solo). Faz parte do seu show. “The Boys of Dungeon Lane” está previsto para o final de maio.  

Emily Haines e seu decentíssimo time formado por James Shaw, Joshua Winstead e Joules Scott-Key chegam ao décimo álbum da carreira com “Romanticize the Dive”. Não é uma jornada qualquer em uma indústria cruel com o envelhecimento igual é a da música, especialmente com as mulheres. Essa experiência da estrada vira conselho para todas as garotas do mundo em “Crush Forever”, destacada aqui: “Não tenha medo da dor, você vai se recuperar, muito mais forte, muito mais doce do que antes, esse é o nosso lema, vá em frente, conquiste o que é seu”, canta Emily. 

Prestes a embarcar na turnê de “Secret Love”, a banda inglesa formada por Florence Shaw, Tom Dowse, Nick Buxton e Lewis Maynard lança uma canção inédita sobre um personagem que se incomoda bastante ao receber atenção. Meio contraditório, né? Ou um recadinho nada secreto sobre como andará o humor deles durante a tour do Dry Cleaning. 

Perdemos algo ou o Of Montreal nunca soou tão roqueiro? Kevin Barnes, o comandante da banda, acaba de anunciar o vigésimo álbum deles, “Aethermead”, como um disco de término e renascimento – uma soma de fim de relacionamento com mudança de cidade; deixou seu cantinho isolado em algum lugar de Vermont para encarar Nova York. Vamos observar o que vem aí.  Sempre, no caso do Of Montreal.

O velho grupo Weezer é uma banda sempre difícil de avaliar. Depende muito do que o ouvinte/fã vai querer/esperar dela. Esta “Shine Again”, primeira mostra de um futuro álbum ainda não anunciado, com produção de Kenneth Blume (Geese, Toro Y Moi, IDLES), lembra os momentos áureos de rock básico e refrões saborosos. Rola até um momento feedback noise delicioso. 

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* Na vinheta do Top 10, a cantora sueca Robyn.
** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix