Top 10 Gringo – O ranking desta semana mora na filosofia. Estrelando Strokes, Kelela, Jack White e Arlo Parks

Resolvemos filosofar nesta semana. Encontramos um Strokes esquerdista, um Jack White furioso com Deus e o mundo e uma Arlo Parks encontrando a redenção na pista de dança. Por sua vez, Kelela avisa que já sabia de todas essas dores antecipadamente, mas não menospreza os recém-chegados. Uma playlist para estudar e rebolar, lógico. 

Há quanto tempo os Strokes não soavam tão bem resolvidos? E políticos! E de esquerda! Será efeito do governo Zohran Mamdani em Nova York? “Going Shopping”, que estará em “Reality Awaits”, o sexto álbum dos nova-iorquinos, é uma zoa com o fetichismo da mercadoria. Sério! Basta ir na Wikipédia para entender: “Para Marx, o fetichismo da mercadoria surge como um fenômeno social e psicológico onde as mercadorias aparentam ter vontade independente de seus produtores”. Quer mais profundidade? O psicanalista Douglas Rodrigues Barros explica: “O fetichismo da mercadoria foi a compreensão que Marx teve de que o capital se tornou o novo deus. Ele fundamenta as bases e movimenta a sociedade onde reina a mercadoria”. Diante dessa enorme pressão invísivel, o personagem da letra de “Going Shopping” só deseja virar um zumbi, ter um emprego idiota que pague razoavelmente e casar com a menina estampada na propaganda que viu no shopping. No refrão, pobrezinho, idealiza uma vida melhor no campo, uma vida nova que não seja também muito distante da cidade. “Jogo todos os meus planos pela janela/ Não quero desperdiçar minha vida”, deseja. Não é por acaso que uma das divulgações de “Reality Awaits” emula uma propaganda antiga de carro com uma frase imbecil tentando soar provocante: “Ao vivo, é a ainda mais sexy”. Por sua vez, a capa do disco emula as antigas propagandas de cigarro da Marlboro com um cowboy exalando liberdade. Para ter uma ideia, foi esse cowboy que colocou a Marlboro entre os cigarros mais vendidos e fez o público da marca migrar de feminino para masculino. Mais adiante, o monstro se volta para os Strokes. Eles estão zombando da capitulação do personagem para o capitalismo, mas também estão enrascados no game. Julian resolve cantar sobre a própria idade e o envelhecimento da banda: “Sou um velho agora/ Pelo menos é o que dizem”. Aqui ele se diz consciente de estar em uma construção de ruínas futuras. São quase 30 anos de estrada e poucos grupos da mesma geração seguem de pé. Eles até que tiveram sorte, pelo visto. Aos trancos e barrancos, ainda existem e são capazes de soar mais frescos do que quando surgiram decalcando o rock dos anos 70. Mas será que alguém se importa? E, se ninguém liga mais, isso importa ? Os fãs, tradicionalistas e nostálgicos, reclamam do uso do autotune na voz de Julian. Na real, é um uso bem discreto e irônico do recurso. Ou você acredita mesmo que eles estão tentando reembalar sua sonoridade a esta altura? É uma piada. Fãs que já tiveram que ouvir a reclamação “Everybody’s been singing the same song for ten years” em “Undercover of Darkness” estão dormindo no ponto. Só reparar no solo de guitarra deslocado da música no final. É a deixa para todo mundo rir. E nós vamos sorrir. Menos raiva ou pretensão. Tudo vira pó, no fim. Menos propaganda, a realidade aguarda.  

Quem está acostumado com o R&B modernoso da Kelela que não estranhe o clima roqueiro aqui em “Idea 1”. Ela convocou o guitarrista de shoegaze Scarlet House para dar um brilho (ou uma tristezinha especial) nesta reflexão sobre este mundo em decomposição. Se os Strokes levaram 30 anos para ficarem mal da cabeça, Kelela não chegou hoje. “Este é um fardo que as mulheres negras conhecem intimamente”, explica. “Essa música não oferece respostas, ela simplesmente se recusa a desviar o olhar.” Não temos notícia de um álbum novo, mas provavelmente vem aí. Estamos aguardando. 

Semana passada comentamos como a sueca Robyn fez um álbum todinho sobre o corpo como algo a ser desfrutado. O corpo menos como uma barreira e mais como um veículo. A adorável britânica Arlo Parks fecha com a mesma ideia em “Ambiguous Desire”, seu terceiro álbum, que acaba de sair. Se até aqui o som de Parks tinha passeado entre um pop e indie solar, este é seu primeiro trabalho noturno. Por ter feito sucesso cedo, ela só foi se jogar nas pistas dos clubes do mundo mais tarde e isso mudou tudo – “Saí da minha cabeça e entrei mais em contato com o meu corpo”, descreveu Arlo em entrevista para a BBC. Este disco novo registra o calor das noites, do poder de deixar o corpo comandar os sentidos, de encontrar uma coletividade na pista. Não é propriamente um álbum dançante ou supereletrônico, mas é sobre a dança e essa música eletrônica como motor de transformação pessoal. 

Companheiro de geração dos Strokes e um dos poucos de sua turma vocais contra Trump, Jack White também resolveu espantar os demônios em um single duplo: este “G.O.D and the Broken Ribs” e “Derecho Demonico”. Mantendo a inspiração em dia, provada no seu disco mais recente, “No Name”, de 2024, White canta sobre Adão e Eva de um ponto de vista bem mundano, digamos. 

Saudade do show das Otoboke Beaver no Brasil? E de um disco novo delas? O quarteto japonês não soltava nada desde 2022 e pelo visto a espera por um álbum cheio ainda vai ser longa. É o que indica o miniEP “Is The New Album Out Yet?”, previsto para junho. Serão três musiquinhas, sendo uma delas a faixa-título, que em português fica, veja bem, “O novo álbum já saiu?”. Das três, já temos o caos reinando em “I Don’t Need to Be In Your Strike Zone”, que dura pouco mais de um minuto. 

“No Kings” é a primeira música da história do Gang of Four sem Andy Gill, morto em 2020. Ao mesmo tempo, marca a volta do vocalista Jon King e Hugo Burnham, membros originais deste marco do pós-punk. Eles já tinham voltado a se apresentar em 2021 como Gang of Four, mas nada de inéditas. Com Gail Greenwood no baixo e Ted Leo na guitarra fizeram uma “tour de despedida” ano passado e agora fazem o primeiro registro da formação em uma canção em apoio ao movimento “No King”, um conjunto de manifestações contra Trump que aconteceram simultaneamente em mais de 3 mil cidades dos Estados Unidos. Conta como Gang of Four? Politicamente, sim. Na prática, também, com Ted Leo se esforçando para soar como Gill. Mas é uma discussão em aberto.  

Um resumo grosseiro do U2 pode dividir as canções da banda entre os rocks políticos e as canções mais doces e pessoais. É grosseiro porque deixa de fora as dançantes e os rocks despropositados e de muitas outras facetas, enfim. Mas talvez até o U2 goste de se organizar assim ao optar por essa divisão entre o campo político e pessoal nos dois EPs lançados neste ano. O mais recente, “Easter Lilly”, é dedicado às canções mais ensimesmadas. Porém, nem tudo é preto no branco. “Scars”, talvez um dos melhores sons do U2 em anos, junta um pouquinho as duas energias ao falar sobre as dores serem parte da vida e mencionar também o quanto elas são causadas por violências políticas em uma referência direta à crucificação de Jesus Cristo; lembrando que o EP saiu na Páscoa.  São 12 músicas em quatro meses! E Bono promete gás para um álbum completo até o fim do ano. 

Josh Klinghoffer foi injustiçado como guitarrista do Red Hot Chilli Peppers. Chutando da banda para o retorno de John Frusciante, já vimos ele de perto aqui no Brasil como parte do Janes’s Addiction e agora ele pode ser notado pelo mundo reforçando o Pearl Jam. Na parte autoral, promete dois álbuns para 2026, trabalhos adiados justamente pelo tanto de trampo na estrada e em estúdio auxiliando outros músicos. Um dos novos trabalhos será acústico e levará o nome de “A Drop in the Ocean”. Dá para notar seu talento de compositor para além de uma figurinha tapando buracos em bandas imensas.  

Menos viajandão e mais direto ao ponto parece um bom resumo do próximo álbum dos australianos do Pond. Rock básico e letras nervosas. Ou o que Nick definiu como “No Pink Floyd shit”… Entendeu? Depois de “Terrestrials”, que colocava nos humanos o rótulo de animal mais perigoso da terra, eles criticam em “Two Hands” a mineradora Rio Tinto, responsável por explodir um sítio aborígene de 46 mil anos em 2020, um evento terrível de pouca repercussão mundial. 

Quem já se acostumou a ver o vocalista do Turnstile causando ao vivo vai se surpreender ao ver Bredan Yates todo calminho harmonizando sua voz em uma música tristinha do American Football, os pais do midwest emo, gênero que ajuda explicar um tiquinho da virada no som recente do Turnstile. Yates ia ser um feat. escondido no álbum, uma voz entre tantas. Mas tomou conta da gravação a ponto da banda desistir de chamar mais alguém.

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* Na vinheta do Top 10, a banda americana The Strokes.
** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix