Top 10 Gringo – Getdown Services mostra que dá pra dançar bem o post-punk. My New Band Believe faz som de big band a partir de um simples violão. E o Alabama Shakes vem sombrio no novo single. Este é o retrato da semana

Tem um berro forte na escolha desse top 10 da semana, seja promovido pelo velhusco Foo Fighters ou vindo da galera mais nova, tipo a Lip Critic. Mas tem também um pouco de dance, seja ela alegre como a do ótimo Getdown Services ou uma dance meio triste, tipo esta escolhida da conhecida Lykke Li. No balanço dos últimos dias, curtimos todas as vibes.

Post-punk para dançar, menos protesto e mais loucurinha, o duo inglês Getdown Services solta esta belezura de novo single, “Radiator”. A duplinha disco de Bristol explica, do jeito deles, que a música é sobre apenas escolher as brigas que você sabe que vai ganhar. Beleza. “Radiator” saiu com um vídeo bem bacana cuja história, tipicamente inglesa, é sobre duas minas fazendo umas coisas. Algo nos diz que é uma versão feminina dos Getdown, Josh Law e Ben Sadler. Somos bem fãs.

Sabe aquele filme horroroso sobre o Queen? Ele pelo menos traduz bem a frustração de Freddie Mercury com os limites tecnológicos da época como censor de sua criatividade na hora de gravar “Bohemian Rhapsody”. Esses limites não existem mais e o ex-black midi Cameron Picton faz valer isso com seu projeto solo My New Band Believe, nome inventado na China enquanto delirava após um jantar problemático. Sem a amarra de um quarteto de rock, o homem colocou para fora todas as suas ideias em um esquema de big band comandada pelo seu violão. Uma confusão muito bem colada; as músicas rolam no álbum de estreia de forma contínua. No lançamento do disco, ele até tocou uma faixa ao vivo em um esquema com mais 13 músicos, sendo três bateristas (!!!) e quatro guitarristas (!!!!). É uma dinâmica de estúdio e de colagem que Paul McCartney sonharia em ter nos anos 1970 – ele fez o que pode, “Ram” talvez soasse assim se fosse feito em tempos digitais. E Cameron pode estar muito longe de inventar a roda, a colagem sonora é coisa velha, mas ao extrapolar as convenções de uma banda tradicional sem abandonar a estética da mesma o trabalho soa novo. Enfim, o moleque escutou bastante Clube da Esquina e você encontrará Milton e Lô e cia por ali também. Wow!

Brittany Howard e cia. escreveram um blues denso e sombrio para falar do pesadelo que virou o “sonho americano”. “Pensei que queríamos as mesmas coisas/ Devo estar sonhando”, lamenta Britt já nos primeiros versos. Confusa entre a realidade e os sonhos, ela deseja voltar a dormir de tão angustiada. “Quantas pessoas foram baleadas nesta semana?”. Para a imprensa, a vocalista disse esperar que a música se torne um lembrete de tempos ruins, mas superados em um futuro próximo. Que seja assim. Esta “American Dream” é o primeiro single do Alabama Shakes desde “Another Life”, som lançado no ano passado. Até setembro, o grupo faz um longa tour entre EUA e Europa, mas sem sinal de disco novo. 

Se o mundo bagunçado atual merecia uma paulada sonora, essa vem na forma do disco novo do Lip Critic, “Theft World”, que vai ser lançado dia 1º de maio. Se não fosse tão cafona, diríamos que o Lip Critic é a resposta americana ao Kneecap da Irlanda, mas mais voltado ao hardcore que ao hip hop. Hell total! A banda nova-iorquina tem aqui seu terceiro single para o disco novo, depois das também contundentes “Legs in a Snare” e “Jackpot”, cada um na sua vibe. A coisa aqui é forte e veloz. E boa.

Temos uma nova geração lidando com o legado duvidoso do new metal de maneira bem esperta. O Dead Pony é parte dessa galera jogando no gênero um tanto de influências de  punk e de pop e um bocadinho de feminismo em um ambiente tão machista. A promessa para o EP “Eat My Dust!” é se afastar ainda mais da lembrança direta dos sons dos anos 2000. O primeiro single, “Freak Like Me”, não evidencia tanto isso, tem até um momento rap no meio, a coisa mais new metal possível. Mas funciona sendo um hino para todos os deslocados do mundo.  

Ficar tão obcecado por alguém que você se põe em dúvida entre querer ser a pessoa, andar com ela ou as duas coisas. É assim que o trio MUNA resume esta sua esperta “Wannabeher”, um registro do que eles definiram como “um evento canônico gay” ou uma espécie de “Rebel Girl”, do majestoso grupo punk Bikini Kill. “Dancing on the Wall”, quarto álbum delas, sai no dia 8 de maio. 

Em ação nos dois finais de semana do Coachella, nossa querida sueca estilosa Lykke Li se prepara agora para cair por estes lados, como atração do C6 Fest, em São Paulo, no mês que vem. A moça vem pertinho do lançamento de seu mais novo álbum, “The Afterparty”, de onde saiu este seu mais novo single, “Sick of Love”, uma balada do jeito dela, densa, dramática, quase dance. Lykke Li faz bem ao pop chic.

Quando a gente compara o duo Molly Hamilton e Robert Earl Thomas com a turma do R.E.M não é bobagem. É impressionante o quanto eles conseguem chegar perto da atmosfera do grupo liderado por Michael Stipe. Dos timbres ao jeitinho de dar um clima para cada canção. “No Driver” é sobre esperar alguém sair da pasmaceira da vida. Molly diz ter escrito para uma versão antiga dela mesmo, quando ainda bebia e tals. Sóbria e mãe, ela parece olhar com paciência para seu antigo eu. No fim, tudo se resolve.  

Mais reconhecido pelos covers espertos de “Linger” e “Murder on The Dancefloor”, os australianos do Royel Otis, que passou pelo Lollapalooza brasileiro deste ano no mês passado, logo encara o desafio de abrir alguns shows do Foo Fighters lá fora. Esta “Sweet Hallelujah” reforça o repertório deles, sendo uma baladona meio épica, que lembra de “Let It Be” até “All the Young Dudes”, mostrando cores mais sóbrias para o desleixado duo de Sydney.

Temos algo a acrescentar sobre o Foo Fighters? “Of All People” segue a toada dos últimos singles da banda – muito barulho. Nos versos, Grohl despeja seus sentimentos dúbios ao ver viva uma pessoa parte de tantas mortes. Na vida real, a história começou quando ele topou com um conhecido traficante de heroína sóbrio e pensou nos amigos que perdeu para a droga vendida por aquele mesmo cara. “Você sabe que deveria estar morto…”, berra Grohl. O próximo álbum do FF, “Your Favorite Toy”, será lançado no dia 24 de abril. Mais conhecido como semana que vem.

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* Na vinheta do Top 10, o duo inglês Getdown Services.
** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix