Top 10 Gringo – Fontaines D.C. amando ser jovem. A vida distante do Murder Capital. A estranhezinha de Saya Gray. Estes são os destaques da semana

Semana de textões por aqui. É que as músicas realmente andaram inspiradoras. A turma resolveu escrever sobre juventude, política e arte de maneira profunda. Embarcamos na brincadeira. Não é esse o objetivo? 

Desde que a gente fez o primeiro post do Fontaines aqui na Popload esperamos eles no Brasil. E finalmente está chegando a hora! Reclamões vão dizer que demorou, mas a sabedoria é entender que vamos receber eles no melhor momento possível. Chegam bem no meio da longa turnê de “Romance”, que tem datas na Europa até o final do verão deles – uma sequência maluca de shows, quase sem espaço para folgas. Vamos pegar os caras descansados ainda. E, no começo dessa jornada pelo mundo, a banda irlandesa resolveu presentear os fãs com um novo single, “It’s Amazing to Be Young”, uma pequena ode à juventude. O toque quase de canção de ninar do começo da música entrega o sentido da faixa. A banda não está olhando para o passado, o recado é para os jovens que estão chegando agora ao mundo, como quem deseja que eles encontrem felicidade, amizade e amor. No Fontaines D.C., tem integrante que já tem filho. Eles estão cantando para essa turminha. Os sentidos da música se ampliam ainda mais com o curta dirigido por Luna Carmoon, que cuidou de todos os belos vídeos recentes deles.  Que momento de ver o Fontaines!

De novo estamos em Dublin. “Banda de pós-punk irlandesa lança terceiro disco ambicioso.” Você já leu essa linha antes, não? De U2 a Fontaines D.C., este momento parece chegar para todos. Mas a ambição do Murder Capital não foi soar maior em seu terceiro álbum. Em “Blindness”, a ideia foi voltar ao simples e direto. Tem pancada, tem música mais leve, mas tudo soa urgente. Composições e gravações são basicamente de prima, sem o excesso de edição do disco anterior, “Gigi’s Recovery” _ a banda conta que nem sequer cogitou fazer demos para as músicas. Era escrever e gravar. A decisão influi na sonoridade mais seca e nos temas das letras, que vão abordar o agora. Entram na pauta, por exemplo, o genocídio na Palestina e a xenofobia alimentada pela extrema-direita pelo mundo. Irlandês que vive hoje em Londres, o vocalista James McGovern conta ter percebido o ódio local com seu país de origem. Do susto veio o verso “Você me culparia por confundir seu amor pelo país com seu ódio pelos homens?”, que fecha “Love of Country”, single que teve seu lucro revertido para o Medical Aid for Palestine. Em contraste, há tempo para cantar sobre amor em uma simples canção de poucos acordes e versos curtos, quase despretensiosos, caso de “A Distant Life”, a típica música feita num quarto de hotel entre shows de turnê. É bom ouvir um disco de rock tão diverso. Em “Blindness” cabe “Moonshot”, faixa de abertura capaz de assustar os ouvintes de tanta barulheira, e a quietinha “Trailing a Wing”. The Murder Capital tomou risco aqui. Seria esse um disco ambicioso, no fim das contas?

Saya Gray faz em “Saya”, seu primeiro álbum, o disco de término de relacionamento perfeito. A começar pela história prévia do seu mais recente trabalho, que começa com pegar a estrada e passear pela Califórnia e pelo Japão acumulando experiências, se desamarrando das dores. Até o álbum ficar pronto, também lançou EPs que ensaiavam o que vinham por aí e que na real são bem diferentes do álbum em si. As músicas em “Saya” transitam fácil entre o folk mais tradicional até uma vanguarda pop com espaço para viagens rítmicas. “Shell (of a Man)”, por exemplo, não faria feio em “Beatles for Sale”. Já “Line Back 22” começa com piano e um beat eletrônico até se entregar um solo de bateria todo quebrado, enquanto o resto da música derrete. Um jeito de entender a leve estranheza do álbum é sacar que ele é superproduzido, mas ao mesmo tempo Saya reproduz as canções ao vivo como uma banda bastante simples _ guitarra, bateria, teclados e ela no violão. Onde acontece o truque quando o mágico deixa tudo exposto assim? Na força das canções, provavelmente. O que Saya escreve para em pé. Estamos falando de um disco que tem versos como: “Quando a fama tomou lugar da grande arte?”. Pergunta que soa simples, mas precisa ser feita. 

Everthing Is Recorded é o projeto encabeçado por Richard Russell, dono do famoso selo XL Recordings, que reúne nomes da própria XL (e de outros cantos) para colaborar de forma muito livre. Uma ideia tão legal que chega ao seu terceiro álbum, recolhendo só monstros: Ezra Koenig, Sampha, Bill Callahan, Florence Welch, Kamasi Washington… A lista é longa. Russell resumiu a feitura do álbum como “Uma alegria, uma forma de santificar a vida”. Não é exagero, só sentir a vibe do single que juntou as belas vozes de Sampha e Florence. “Biblical”, diria o outro.

O Deaftheaven apresentou no single “Magnolia” uma retomada do seu lado mais pesado. Agora em “Heathen”, é a vez de tentar despistar ao entregar uma faixa que começa mais soft, lembrando as coisas do álbum “Infinite Granite”, até se render a um refrão gritadíssimo. É a junção perfeita de dois modos da banda que costumavam aparecer separados. Tadinha da garganta do vocalista George Clarke. “Lonely People with Power”, sexto álbum dos norte-americanos, sai no mês que vem. 

Injustamente falamos pouco por aqui do Model/Actriz, banda bem legal da cena pós-punk atual de Nova York. Diferente do revival irlandês do gênero, a veia nova-iorquina atual está menos garageira e mais conectada à pista de dança. Só ver como o quarteto constrói o single “Cinderella”, batida hipnótica e poucos acordes de guitarra _ repetitivos e nada convencionais. Eles juram que é tudo bateria, baixo e guitarra. A gente acredita, até porque nos palcos eles se apresentam assim e não tem o que esconder. “Pirouett” será o segundo álbum da banda, com lançamento previsto para maio.

Lembram quando em 2016 a Lucy Rose veio ao Brasil em um esquema em parceria com os fãs? Eles ofereciam a casa, ela pagava as passagens e juntos eles arrumavam alguns shows para ela. Em São Paulo, ela chegou a tocar na rua de graça para mais de 1200 pessoas. O tempo passou e Lucy encarou algumas batalhas, uma delas contra uma rara condição de osteoporose ligada a sua gravidez. Por outro lado, ficou amigaça do clássico Paul Weller, um amigo que ofereceu apoio e seu estúdio para ela trabalhar no seu álbum mais recente, “This Ain’t The Way You Got Out”, lançado ano passado. Agora ela lança o single “Pale Blue Eyes”, que não é um cover de Velvet Underground, e se prepara para voltar aos palcos no ano que vem, com ingressos sendo vendidos desde já. Será que ela ainda tem o contato dos amigos brasileiros?

Vamos combinar que tem horas que um rock bem farofento cai bem, vai. E ali no começo do século XX ninguém soube farofar melhor que os ingleses do Darkness, equilibrando um certo respeito ao gênero e uma certa dose de humor e auto-ironia. Nesse sentido, “Walking Through Fire” é uma faixa metalinguística, brincando com a insistência do grupo: “Só estamos fazendo isso porque é divertido/ Nem pense que minha mãe comprou o último (álbum)”, diz um dos versos. Ser apaixonado por rock dá nisso! “Dreams on Toast”, novo álbum deles, será lançado em março.

O Mamalarky é uma banda que se define como quatro amigos que se juntaram para fazer rock and roll experimental. Usar o termo rock and roll em pleno 2025 chamou nossa atenção. Mas pouca tradição é encontrada no maluco single “#1 Best of All Time”. A voz charmosa da vocalista e compositora Livvy Bennett se encaixa num arranjo todo drum’n’bass. “Hex Key”, terceiro álbum da banda, está previsto para ser lançado agora em abril. 

O título da música é sobre isso mesmo que você pensou. Rebecca Lucy Taylor, aka Self Esteem, conta que sempre quis listar suas posições sexuais favoritas e achou mais fácil falar sobre o assunto em uma música. Aliás, 69, a posição, é uma das que mais detesta (“Cause I can’t concentrate”). O bom humor da faixa também é um recado político. “Já existe desigualdade suficiente na dinâmica masculino/feminino. Nossos corpos passam por muito mais dor e sofrimento. Por favor, Deus, deixe-nos obter o prazer onde pudermos”, anotou a compositora. “A Complicated Woman”, seu novo álbum, sai em abril.

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* Na vinheta do Top 10, a banda irlandesa Fontaines D.C.
** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix.