Top 10 Gringo – A volta do Neurosis, trabalhada na dissonância (!). A grande música do Model/Actriz feita sobre uma… corrida de táxi zoada. E a Courtney Barnett, uma música por vez. Este é o nosso ranking da semana

Música é espaço de transcendência tanto para quem escuta quanto para quem escreve. Nossos compositores da semana buscaram isso intensamente. O Neurosis saiu de um longo silêncio para encontrar sua paz na dissonância, o pessoal do Model/Actriz puxou em canção as dores de uma noite ruim e nossa querida Courtney Barnett extravasou seu pedido por um pouco de paz mental. Eles se libertam e liberam a gente no processo. 

O “Reverendo” Fábio Massari está feliz: o Neurosis voltou. “Isso não é uma reunião – nós nunca nos separamos”, avisa a banda. Desde “Fires within Fires”, lançado em 2016, o grupo californiano passou por uma crise enorme. O vocalista Scott Kelly abandonou a música em 2020 após admitir “abuso emocional, financeiro, verbal e físico” com sua mulher e filhos. Foi quando descobrimos sua expulsão da banda, feita sem alardes em 2019. O silêncio posterior foi carregando os boatos de que era o fim de tudo, mas o estresse total foi o combustível do retorno. “Some a isso a confusão existencial e a tristeza da crise climática e da sexta extinção em massa. É o suficiente para levar alguém à loucura se não encontrar alívio ou catarse. Essa música estranha e carregada de emoção sempre foi nosso método de tentar sobreviver a isso, e é sobre isso que sempre cantamos”, explica a banda no texto de apresentação de “An Undying Love for a Burning World”. Para a posição de vocalista e guitarrista, eles encontraram Aaron Turner. Ex-Isis e atualmente parte do Sumac, Aaron chega como membro oficial, cantando, tocando e escrevendo. As motivações e intenções da banda ficam ainda mais claras já na faixa de abertura do novo trabalho, “We Are Torn Wide Open”: 

A separação que queima nossos corações
É a raiz de todas as nossas doenças
Esquecemos como viver, por isso sofremos
Esquecemos como lutar, por isso sofremos
Esquecemos como morrer, por isso sofremos
Esquecemos que somos selvagens, por isso sofremos
Existimos em isolamento, por isso sofremos

A dissonância aqui é a palavra ensurdecedora. Se a dissonância entre nós acaba com a vida na Terra, o Neurosis encontra na dissonância musical uma forma de reconexão. Uma cura para eles próprios, mas para os fãs também. Assim o sofrimento é atenuado.  

“Thank You by Dido” não é um cover de “Thank You”, da Dido. O que acontece aqui é que música da Dido é a trilha de uma corrida de táxi melancólica. Um táxi chamado pelo carinha com quem o narrador da música acabou de transar. Sem espaço para nada além do sexo, ele se vê lançado em táxi em um país estrangeiro; sim, ele foi até outro país para ficar com o cara e tudo que teve foi uma transa num quartinho perto do aeroporto. A cena fica ainda mais dolorida com “Thank You” e sua promessa de um amor ideal salvando o dia tocando ao fundo. A vida é mais complicada, pelo visto. Aliás, capaz que o Model/Actriz enfrente muitos táxis ao longo de 2026, uma das bandas mais legais da cena de pós-punk atual de Nova York, não vai passar o ano em casa. Começam agora no fim de março uma turnê pelos EUA que emenda em uma turnê européia até setembro. Além de “Thank You by Dido”, eles deixaram mais duas inéditas antes de pegar o avião: “Glassman” e “Majesty”. 

Tudo divulgado até aqui sobre “Creature of Habit”, o próximo álbum da Courtney Barnett, indica que a compositora estava tentando encontrar uma nova forma de viver, uma nova rotina onde sua criatividade e trabalho se encaixassem. Menos pressão e menos prazo. Mais atenção e mais presença. Nesse sentido, “One Thing at a Time” é a descrição todinha desse desejo por alguma paz mental: “Não entendo por que é tão difícil encontrar/ Um pouco de paz e tranquilidade nadando na minha mente/ E, meu Deus, estou pronta para uma mudança”. Tudo indica que esse encontro rolou. É esperar para ouvir o resultado completo na próxima sexta-feira. 

A vida do Future Islands mudou há pouco mais de 12 anos quando apareceram no David Letterman e a performance bizarra do vocalista Samuel T. Herring sacudiu o mundo. Por mais que soassem como novidade ali, era uma banda com dez anos de estrada já. Agora são 20! E resolveram celebrar com uma coletânea: “From a Hole in the Floor to a Fountain of Youth”. Mas não é a coletânea típica de sucessos. Vamos ter algumas favoritas dos fãs, lados B e raridades. Tanto que não sobrou espaço para o hit transformador. A marcante “Seasons” está de fora, veja só.

Em uma entrevista para o site “The Italian Rêve”, a cantora e violoncelista americana Kelsey Lu explicou sua relação com música assim: “Acho que a ela está em tudo: escovar os dentes é musical, e tudo se move dentro de um ritmo. Mesmo que você não consiga ouvir, há música em tudo”. Essa abordagem aberta reaparece quando vemos a lista de convidados do seu próximo disco: Sampha, Kamasi Washington e Kim Gordon! E reaparece também na explicação dada aos motivos do novo trabalho: “Sonoramente e emocionalmente, ele contém tantos mundos diferentes ao mesmo tempo – devoção e desejo, colapso e renascimento”. E olha que a produção é dividida entre Lu e o (tantas vezes questionado) Jack Antonoff. “So Help Me God” está previsto para junho e chega sete anos depois de sua estreia com o introspectivo “Blood”. “  

Tá sentado esperando a volta do R.E.M? A gente também. Mas enquanto o Michael Stipe não parar de fazer charminho, vale olhar para bandas superinfluenciadas pela turma de Athens, Georgia. Um dos representantes mais firmes é o duo Widowspeak. Molly Hamilton e Robert Earl Thomas sabem tirar aquele som de guitarra limpinho e rasgante, totalmente Peter Buck. “If You Change” tem um riff delicioso e solo idem. Lembra bastante “Man on the Moon” – aliás, o final da música é idêntico. A faixa estará em “Roses”, sétimo álbum deles, previsto para 5 de junho.

A gente tende naturalmente a gostar de uma banda que deixa tão explícito seu amor ao Pixies assim. O primeiro play em “Figurine” já mostra o poder da influência; quieto e barulhento daquele jeitão. Christina Michelle grita bastante, a ponto de deixar a letra irreconhecível. Nem lendo a letra ao mesmo tempo vai te ajudar. Mas ela diz que é sobre ter sido uma criança quietinha e os efeitos disso em sua vida. Entendemos.

“Marrying for Love” e “Cold Call on the Hot Line” são duas sobras de “More”, o álbum mais recente e bem elogiado do grupo brit Pulp. Partes do single com o cover de “The Man Comes Around”, do Johnny Cash, elas finalmente apareceram nas plataformas de streaming. Funciona como uma ironia colocar do lado da visão de Cash sobre o apocalipse uma música debochada emulando aquele jeitão messiânico sobre um casal que está se casando por amor. É ver se Jagger e Richards não vão se incomodar com esse tecladinho lembrando “Let’s Spend the Night Together”… 

“Peaches!” é o disco de covers do Black Keys planejado como forma de lidar com luto após a morte de Chuck Auerbach, pai de Dan. O método de criação aqui foi simples: separar alguns blues raros da coleção de compactos de Dan e se jogar em gravações básicas; todo mundo ao vivo na mesma sala, som vazando e boa. Foi um jeito esperto de recuperar uma energia encontrada nos primeiros álbuns de Dan Auerbach e Patrick Carney. 

Virou manchete em muitos lugares a declaração de Dave Grohl em entrevista ao jornal inglês “The Guardian” sobre as trocentas sessões de terapia que enfrentou após o escândalo de ter um filho fora do casamento. Fez menos barulho que as falas da banda dentro da própria entrevista sobre lidarem com um líder que dá pouco espaço criativo para os outros integrantes. Talvez isso explique ver o grupo andando em círculos mais uma vez ao tentar, finalmente, fazer um disco 100% barulhento.


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* Na vinheta do Top 10, a banda californiana de metal Neurosis.
** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix