Top 10 Gringo – A maluquice incrível do Angine de Poitrine conquista seu primeiro Top 10. Feliz, James Blake emplaca o segundo lugar. Kim Gordon vem lacrar nosso pódio, nesta semana linda

Uma semana com James Blake e Kim Gordon lançando discaços está bom? Ok. O Death Cab for Cutie oficialmente voltando não é motivo de emocionar? Quer Mais? Tem Pond novo, Muna novo e até um radiohead solo. Chega? Não, porque já temos a banda mais famosa do nosso mundinho depois da Geese. E se você achava o Cameron Winter estranho, espere para botar seus ouvidos e principalmente os olhos na Angine de Poitrine, uma banda quase que literalmente “de outro mundo”. Quer mais novas obsessões? A cantora Ora Cogan, que promove a união perfeita do country com o gótico. Funciona super na sua próxima viagem ao interior de qualquer lugar. 

Para começar a esquisitice toda, os caras são de Quebec, Canadá. Quem é de Quebec, meu Deus? Agora junta Primus, White Stripes, Death from Above 1979 (também canadense, mas não de Quebec) e Black Midi, por exemplo. E então você tem mais ou menos uma aproximação do som da coqueluche indie do momento. Nossa bolha é maravilhosa. Os caras, dois malucos cujos nomes são Khn de Poitrine, o guitarrista, baixista-guitarrista e, atenção, o guitarrista-microtonal) e Klek de Poltrine (baterista), falam em entrevistas como se fossem dois ETs se comunicando na língua deles e numa linha visual são tipo o Daft Punk, mas em vez de capacetes estilosos são tipo máscaras de espantalhos de filme de terror talhadas em papel machê. E não só as máscaras. As vestimentas totais. A partir desta session aqui para a espetacular “rádio de sessions” americana KEXP, gravada em dezembro mas divulgada não tem um mês, o bicho pegou meeeesmo para o Angine de Poitrine. Experimentalismo doido, math rock torto (incoerente?) e o visual mais insano dos últimos tempos na música independente? Tem gente que acha a banda americana Geese esquisita… O lance é que o duo de uma Quebec do mundo paralelo anunciou o lançamento para o comecinho de abril, dia 3, de seu segundo álbum, chamado “Vol. II”, que sucede obviamente o “Vol. I”, de 2024. Tudo vai ser seguido por uma turnê enorme pela América e Europa que começa devagar no fim deste mês em Portugal e vai embora. Antes de avisar da data de lançamento do disco, a dupla canadense já havia lançado o single “Fabienk”, no mês passado. A parada aqui é a chamada música “assimétrica e dissonante”. Essa parada de “guitarra microtonal” vamos explicar depois. O importante agora é vc entrar nessa onda Angine de Poitrine e sacar a banda por este single novo, o “Fabienk”.

Para um cara como James Blake, que já colaborou com os maiores nomes da indústria, é difícil falar em fase independente. Onde ele entra, o rolê fica gigante, mas tecnicamente “Trying Times” é seu primeiro álbum por um selo pequeno. Tanto que a maioria das entrevistas sobre o disco andam mais sobre como ele anda vivendo mais tranquilo em Londres do que em Los Angeles, onde quase quebrou financeiramente. Ironicamente, “Trying Times” talvez seja seu disco mais pop de todos. Samples e interações eletrônicas entram, mas temos aqui um bom conjunto de canções ao piano em produções básicas, diretas. A dobra da faixa-título com “Make Something Up” é de deixar muito hitmaker com inveja. Dividindo a produção com a parceria Jameela Jamil, Blake parece ter encontrado alguma paz. “Acho que esse mito existe há muito tempo: que a ansiedade e a depressão são as fontes da criatividade, mas não são. Na verdade, a ansiedade e a depressão impedem que isso aconteça”, disse em entrevista ao jornal “The London Standard”. Bom te ver feliz, James. 

Em “PLAY ME”, a grande Kim Gordon cospe versos curtos em faixas curtas. Tudo é direto, mensagem clara, mesmo quando uma música junta recortes muito diferentes entre si. O que não soa imediatamente punk é o instrumental. Apesar de guitarra, distorção e ruído estarem presentes aqui, Kim pensa em samples e beats como quem olha para um violão e tira dele apenas três acordes. É a mesma lógica de composição: se achou algo cativante, repita por mais dois minutos e basta. Repare em “BLACK OUT”, talvez basiquinha demais para uma Beyoncé, mas poderia facilmente ser um lado B de “More Only”, EP que trouxe ao mundo “7/11”.

Quem também voltou a ser independente foi o pessoal do Death Cab For Cutie, nossos amigos de Popload Festival dos bons. Assinaram com o selo ANTI- e levantaram uma turnê com artistas novos que estão entre seus favoritos do momento: Japanese Breakfast, Jay Som, Nation of Language e Lala Lala. Na hora de gravar um novo trabalho também resolveram voltar ao básico, sem rodeios. “Os músicos gostaram da faixa? Pronto”, anotou o baixista Nick Harmer. “I Built You a Tower” será o 11° álbum de estúdio de Ben Gibbard e companhia. Marcado para sair em junho. E, como segue sendo o tema mais comum no mundo hoje, o primeiro single “Riptides” é sobre lidar com dores pessoais enquanto o mundo também vai ladeira abaixo. Ben Gibbard parece exausto. “Estou cansado demais para falar, estou cansado demais para acabar com a guerra. E parece que não consigo mais me manter firme”, canta ele no refrão. E olha que para derrubar o Ben é preciso de muito, né? Lembram quando ele encarou um show para nós mesmo tendo que tocar sentado de tanta dor na coluna? O cara tomou umas injeções e foi para o palco com toda energia possível.    

Também na linha de despejar uma certa raiva contra a situação da humanidade, os australiano do Pond escreveram “Terrestrials”. “Essa música é sobre os seres terrestres mais estranhos de todos: as pessoas”, diz Nicholas Allbrook. A opção em chamar os humanos de terrestres é justamente fazer essa contraposição com os extraterrestres, essa ameaça oculta. A gente já não faz estrago o suficiente? Não precisa apelar para ninguém de fora. Mais fácil aparecer alguém para colocar ordem no rolê do que outra coisa. 

O Black Midi acabou em 2024 e seus integrantes vão se rearranjando pelo mundo. Depois de Geordie Greep, é a vez de Cameron Picton chegar com sua nova banda, acredite. Foi mal, mas a piada é deles: My New Band Believe. Apesar de se apresentar como banda, é um projeto de um homem só. Tanto que Cameron explicou o primeiro álbum como tentativa de fazer um disco de cantor/compositor grandioso e real. No primeiro single, este “Love Story”, dá para notar seu esforço de produção em unir um tipo de gravação que soa ao vivo com colagens e outros truques. Soa grandioso mesmo. Tem gente que vai falar que o Cameron Winter tentou fazer isso e não conseguiu, hehehe. A gente falar isso? Jamais. 

A fama não bateu bem para a turma do Muna. “So What” é o questionamento do trio Katie Gavin, Josette Maskin e Naomi McPherson sobre o vazio que rola depois que se “chega lá”. A letra ainda brinca com uma certa esperança de que a fama substituiria um amor perdido. “As críticas chegaram/ As fãs e os críticos mais severos/ Concordam em tudo/ É o nosso melhor trabalho sem você nele”. Ainda assim, elas descobriram por conta própria que todo o amor recebido em festas chiquérrimas não cobrem a dorzinha interior. O novo álbum do trio californiano chega em maio.

Todo destaque de carreira solo em termos de Radiohead costuma ficar entre Thom Yorke e Jonny Greenwood. Tremenda injustiça. O baterista Philip Selway e Ed O’Brien têm discos solos de respeito. Fora nossa simpatia pelo Ed ser praticamente brasileiro; sua faixa solo mais famosa se chama “Brasil”. Agora ele prepara a segunda empreitada sozinha e novamente faz bonito se formos tirar pelo single “Blue Morpho”. O álbum promete ser denso, surgido da recuperação de uma depressão braba pós-2020. 

A canadense Ora Cogan é talvez a mistura de gótico e música country que você sempre quis ouvir, mas tinha vergonha de perguntar. “Hard Hearted Woman”, o sexto álbum de sua carreira, parece alcançar lugares onde Lana Del Rey não ousa pisar e com tons de voz que Billie Eilish jamais se atreveria. Esta pequena pérola “Honey” é um dos destaques do disco lançado na semana passada.

Pelo o que os singles indicam, “Ambiguous Desire”, terceiro álbum da inglesa Arlo Parks, vai girar em torno da pista de dança. Seja como espaço para se divertir, espaço para lidar com a dor ou até mesmo espaço para diálogos possíveis só ali. “Get Go” é sobre encontrar casualmente uma amiga sumida há um tempo e ouvir ela se abrir sobre seu ex. Uma história recente, um apoio que só pode ser dado naquela hora, um papo que não rolaria da mesma forma em um bar ou em casa, onde já discutimos coisas meio resolvidas com os amigos. O novo álbum da Arlo chega no começo de abril. 

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* Na vinheta do Top 10, o duo canadense Angine de Poitrine.
** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix