Tchau, “BRAT”. Charli XCX reaparece introspectiva em “Wuthering Heights”, seu novo álbum post-punk que tem John Cale e Sky Ferreira

Charli XCX resolveu trocar a luz neon da pista por um corredor frio e comprido de mansão vitoriana, daqueles em que o vento parece ter opinião. O resultado é “Wuthering Heights”, álbum que nasce colado ao novo filme de Emerald Fennell, mas que não se comporta como “trilha sonora” no sentido tradicional. É um disco inteiro, com começo, meio e fim, pensado para existir por conta própria e para traduzir em música aquela mistura de desejo, obsessão e clima gélido que a história carrega. 

Charli descreveu o projeto como uma imersão em persona, num mundo cru, selvagem, sexual, gótico, britânico e atormentado, e isso se sente na forma como ela abandona a euforia imediata e passa a trabalhar mais com atmosfera, tensão e silêncios.

O choque fica ainda mais evidente quando você coloca “Wuthering Heights” ao lado de “BRAT”, o disco anterior que virou febre global e transformou Charli em sinônimo de pista cheia, refrão gritado e catarse coletiva. Em “BRAT”, tudo era velocidade, impacto, suor e excesso. Aqui, ela pisa no freio e puxa o som para um território mais post punk, mais nervoso e mais cortante, com linhas frias, batidas contidas e um senso de desconforto proposital. Há um ar oitentista atravessando tudo, mas não no sentido pop polido, e sim na herança mais soturna, de romance gótico em VHS, tipo.

Uma das escolhas mais curiosas do disco é abrir espaço para outras vozes como parte do cenário. “House”, por exemplo, chega conduzida pelo grande John Cale, que recita como se estivesse contando uma história ao pé do ouvido, logo como faixa de abertura meio que dando o tom do que vem depois. Sky Ferreira, ela, divide os vocais em “Eyes of the World”.

No fim das contas, “Wuthering Heights” funciona como uma virada de chave bem calculada. É preciso ouvir de coração aberto e sem ser viúva do “BRAT”. Tipo o Arctic Monkeys dos últimos anos…

O álbum tem 12 faixas e está disponível abaixo, junto com o clipe de “Always Everywhere”, lançado junto.