O fim do Faith No More e o recomeço do Tomahawk. Como assim, Mike Patton?

Por anos, a história do “brasileiro” Mike Patton foi contada como se existisse uma banda principal e todo o resto fosse periférico. Só que, parece, do jeito que ele vê, isso sempre pareceu uma leitura confortável para quem está do lado de fora, não necessariamente a verdade. 

Agora, com o Faith No More praticamente encerrado no silêncio e o Tomahawk se levantando para voltar à estrada, essa hierarquia começa a perder sentido. O que está acontecendo é uma mudança de eixo: o Faith No More ficou para trás como um capítulo final que ninguém nomeou na hora, enquanto o Tomahawk reaparece como recomeço, com energia de banda que ainda tem muito a dizer.

Patton falou sobre esse sentimento de fechamento tardio em uma entrevista ao podcast Kyle Meredith With…, quando foi perguntado se a turnê de 2016 do Faith No More teve um ar de despedida, já que hoje tudo indica que a banda se desfez. 

“Eu não pensei assim na época, mas, sim, talvez. E acho que a gente meio que sentia isso, só que não era dito em voz alta.” Em seguida, ele explicou a sensação de estar em uma banda por muito tempo e conviver com a ideia de que cada fase pode ser a última. “É engraçado: quando você está numa banda ou numa situação musical por um período longo, lá no fundo da cabeça você sempre pensa: ‘Bom, talvez seja isso’. E eu não me incomodo com esse sentimento. Eu não vejo como algo triste. Eu vejo como estar presente e conseguir realmente apreciar enquanto está acontecendo”. O último show do Faith No More segue sendo o de 20 de agosto de 2016, no Troubadour, em Los Angeles. A banda chegou a planejar apresentações em 2021, mas desistiu por causa das questões de saúde mental do vocalista no período pós-pandemia.

A história do Faith No More parece ter virado um fim em câmera lenta. Nos últimos tempos, o baterista Mike Bordin afirmou que Patton não estaria disposto a fazer mais shows com o grupo, enquanto o tecladista Roddy Bottum primeiro falou em um hiato semi-permanente e depois deixou claro que, na prática, a banda não estava mais ativa. 

No meio disso, Patton voltou a questionar por que o público sempre tratou o Faith No More como seu centro e o restante como projetos paralelos. “Eu nunca entendi e precisei lidar com isso bem cedo, que é o conceito de projeto paralelo, porque isso pressupõe que exista um principal. E, para mim, eu nunca tive um principal. Houve projetos como o Faith No More em que eu passei mais tempo, no sentido de turnê e divulgação, mas tudo o que eu fiz teve a mesma importância para mim. Só que não era visto assim. E o público, por algum motivo, precisa construir uma hierarquia para se sentir melhor com isso, eu acho. Não sei”.

Enquanto o Faith No More vai ficando como memória e encerramento não anunciado, Patton segue em movimento e agora reacende uma das bandas mais imprevisíveis da sua trajetória. O Tomahawk voltou a se reunir e anunciou a primeira turnê em 13 anos, com datas de verão nos Estados Unidos e com o glorioso Melvins como banda de apoio. 

O grupo é formado por Patton ao lado de Duane Denison, do Jesus Lizard, John Stanier, do Battles, e Trevor Dunn, do Mr. Bungle.

Para o Tomahawk, a volta tem um detalhe importante. A banda lançou três álbuns nos anos 2000, voltou em 2013 com “Oddfellows” e se reuniu novamente em 2021 para gravar “Tonic Immobility”, um álbum de clima pandêmico que nunca chegou a ser tocado ao vivo. Ou seja, existe material acumulado. Patton também segue com outras frentes, incluindo um trabalho recente com os Avett Brothers e uma turnê que começa no fim de março.