O fenômeno Bad Bunny e a “descoberta da latinidade”: o Brasil não precisa falar espanhol nem ouvir reggaeton para ser latino

Hoje completa uma semana que o cantor, rapper e produtor porto-riquenho Bad Bunny iniciava em São Paulo sua passagem pelo Brasil para dois shows esgotados no Allianz Parque, visita essa que passaria a ser conhecida como “A Vez Que o Brasil Descobriu sua Latinidade”.

Quem então não tinha ouvido falar em Bad Bunny de alguma forma, certamente estava por fora, digamos. Por fora das rádios, sites, canais de TV, jornais e redes sociais, não só do Brasil, mas do mundo.

Depois da cerimônia do Grammy, no início de fevereiro, quando o artista ganhou o importantíssimo prêmio de Álbum do Ano, com ineditismo de ser o primeiro em espanhol e o terceiro latino, tendo sido João Gilberto o pioneiro em 1965, Benito, como é chamado carinhosamente pelos fãs, aconteceu de, no meio desse furacão todo, vir logo se apresentar no Brasil. 

Foi um atropelo ainda maior. Após o sucesso do show em terras paulistas, sexta e sábado passados, 99% dos veículos de informação celebraram Bad Bunny e seu marcante show com frases como: “Graças ao artista porto-riquenho, o brasileiro entendeu que é latino”.

E, inevitavelmente, em decorrência dessas fortes afirmações, surgem alguns estranhamentos. Será mesmo que o brasileiro está descobrindo só agora, que é latino? O que significa, afinal, “ser latino”? Qual é o modelo de latinidade que está sendo considerado?

Bad Bunny e sua banda em apresentação no Allianz Parque em fevereiro de 2026. Foto: Tomze Fonseca

Que a música dos nossos vizinhos hispano-hablantes tem ganhado espaço no Brasil nos últimos tempos é fato. Apesar das exceções que já explodiram em terras brasileiras nas décadas passadas como a boy band Menudo, o cantor Ricky Martin, o grupo Rebeldes, e a própria Shakira, que mais do que um ícone latino é um fenômeno mundial, o Brasil é, antes de tudo um país que se consome culturalmente. Segundo dados de 2025 do Spotify, que se consolidou como o streaming musical mais popular do país, com cerca de 56 milhões de usuários ativos, o “top 10” dos ouvintes brasileiros é todo em português, com pagode, sertanejo, funk e piseiro dominando a lista. Ainda que o apreço pelos “hermanos” latinos esteja em alta, a trilha sonora dos brasileiros continua sendo bem familiar, cantada em português. 

Sobre isso, a Popload entrevistou Horaz Martin, curador musical argentino especializado em música latino-americana e antigo integrante da MTV Brasil nos anos 1990. “Eu acho que a música latina sempre sofreu preconceito no Brasil, sendo vista como exótica, passageira ou caricata , apesar de dividir com o país raízes coloniais, sociais e culturais profundas. O que mudou agora não é a latinidade do brasileiro, que sempre existiu, mas a escuta. Bad Bunny não ensinou o Brasil a ser latino; ajudou o Brasil a ouvir seus vizinhos sem preconceito e a aceitar que o espanhol também pode acompanhar o cotidiano, tocar na rádio e até lotar estádios”, comenta Martin.

A identidade latina dos brasileiros é inquestionável e vem de questões históricas e geográficas complexas, defende o poploader Vinicius Dota, o entendido de som pop e latino da casa. “A identidade latina não começa no streaming. A gente já nasce latino por geografia, por história colonial, por mistura de povos, por cultura de resistência em ditaduras militares. A latinidade sempre esteve aqui. O que aconteceu é que o Brasil construiu para si uma identidade própria e uma narrativa de que éramos “diferentes” em relação ao resto da América Latina. O português sempre nos colocou numa bolha cultural confortável, e infelizmente por muito tempo, nos comunicamos mais com EUA e Europa do que com nossos países vizinhos. Parecia mais interessante exportar a bossa nova para Paris e o futebol para o mundo do que fortalecer pontes regionais.”

“Hoje, quando artistas latinos dominam o pop global, surge a pergunta: ‘virou hype ser latino?’. Talvez a questão mais honesta seja outra: “ficou impossível ignorar o poder latino?. Para mim sim, e se muitos de nós estão agora se permitindo reconhecer e assumir isso em voz alta, ainda que tardio, é sinal de consciência e não tendência”, conclui Dota.

Foto Divulgação

Latinos aos moldes brasileiros!

De tamanho continental, o Brasil não precisa ser olhado “de fora” para ser entendido “por dentro”, ainda que a forte mídia estadunidense insista em querer exportar um modelo de latino, carregado de estereótipos e preconceitos que não compreendem a realidade plural da cultura e do povo brasileiro. O brasileiro “descobrir”, a partir de figuras como Bad Bunny, que é “latino” não seria, por fim, uma forma de negar toda a latinidade que já existe no país há séculos? É preciso cantar em espanhol e dançar salsa e reggaeton para ser um latino legítimo? As culturas musicais como o samba, o funk, o sertanejo, a MPB, a bossa nova e o rock nacional, por exemplo, não dão conta de representar e compreender o brasileiro enquanto latino-americano? 

Muito antes de Daddy Yankee, J Balvin, Karol G, Bad Bunny, entre outros, o brasileiro já cantava em português com orgulho sobre ter “sangue latino” com os icônicos Secos e Molhados de Ney Matogrosso, já reclamava das dificuldades e perrengues de ser “apenas um rapaz latino americano” com o saudoso Belchior e também já mandava a “real” para os gringos com os mineiros Milton Nascimento e Lô Borges: “Eu sou da América do Sul. Eu sei, vocês não vão saber”.

Secos e Molhados em 1974. João Ricardo, Gerson Conrad e Ney Matogrosso com o sangue latino correndo nas veias. Foto: Fernando Seixas

Certamente o povo brasileiro sabe e disso nunca se esqueceu: latino sim, mas não aos moldes cubanos, porto-riquenhos, argentinos ou “imperialistas. Latino em português, ao estilo brasileiro!