Além de apenas um “novo crush latino”, o fenômeno argentino Milo J marcou show solo em SP em setembro

Tem uma idade em que a gente acha que perdeu o trem da música boa. É um monte de referências acumuladas e já não basta uma melodia chiclete, um artista carismático. E não necessariamente passamos a gostar menos de música, aparentemente ficamos mais difíceis de agradar mesmo.

Nessa aparece esse argentino acima, de 19 anos, chamado Camilo Joaquín Villarruel, que ninguém chama assim, óbvio, porque o mundo o conhece como Milo J (lê-se Milo Rôta), de presença sincera e original, e a sensação é de um sopro de ar fresco na cara, na janela do trem da música pop que você achou que seguiu viagem sem você.

Um dia depois da goleada do nosso argentino favorito (e de todo o planeta): Lionel Messi (3 x 0 contra a Argélia na Copa do Mundo, os três DELE), Milo acaba de confirmar show solo em São Paulo, dia 13 de setembro, na Audio, como parte do MUCHO! Ciudad Sonora. Antes que alguém pergunte: sim, ele também toca no Rock in Rio um dia antes, num de seus menores palcos, set reduzido e com uma audiência que estará presente pelos headliners do dia, entre eles: Maroon 5. Coitado, mas está valendo. Ninguém disse que seria fácil.

Esse show dele perdido no RiR mais parece um aperitivo perto do prato principal, sentado, com talher, preparado para a apresentação única em São Paulo.

E a capital paulista que se prepare pois o menino está vivendo, sem nenhum exagero de assessoria de imprensa, o ano mais bonito da carreira: 13 Prêmios Gardel (principal prêmio de música na Argentina), incluindo o de Álbum do Ano por “La Vida Era Más Corta”, um Tiny Desk que passou de 11 milhões de views fazendo o NPR virar “carnaval de murga” (em resumo, trupe artística do carnaval argentino/uruguaio), parcerias que vão de Bizarrap a Silvio Rodríguez e seu lirismo e autenticidade poética comentado por todos os cantos pela imprensa internacional. 

Enquanto a indústria musical passa boa parte do tempo procurando “o próximo grande nome”, o argentino simplesmente apareceu. 

A história de Milo J tem também aquele efeito colateral desagradável de lembrar que algumas pessoas conseguem fazer muita coisa antes dos 20 anos. Nascido em Morón, na Grande Buenos Aires, ele lançou suas primeiras músicas ainda adolescente, e no meio do caminho encontrou uma fórmula própria: seu som combina rap, trap e R&B convivendo com elementos do folclore “rioplatense” e ainda representa uma América Latina periférica, misturando sotaques e raízes tradicionais (como o folclore) com a modernidade urbana. 

Essa relação com a identidade, própria ou múltipla você decide, aparece também na forma como o artista se apresenta. Milo J se define como “marrom”, um posicionamento significativo em uma Argentina frequentemente vendida ao mundo como uma extensão da Europa. 

Não é como um discurso pronto, mas como alguém que simplesmente se recusa a apagar as próprias origens para caber numa narrativa mais confortável (e vendável). 

Talvez seja justamente daí que venha a força de suas canções. Elas carregam tanto a inquietação de quem ainda está tentando encontrar o próprio lugar no mundo, mas também a segurança de alguém que domina a arte de transformar emoções complexas em músicas acessíveis. Há nelas uma nostalgia difícil de explicar, quase emprestada, e uma habilidade rara de fazer o ouvinte sentir saudade de experiências que nunca viveu.

Não por acaso, veículos passaram a compará-lo a artistas que revitalizaram tradições locais para uma nova geração, caso de João Gomes no Brasil, ao conectar herança cultural e linguagem popular contemporânea. Vem aí o feat, o clássico Brasil x Argentina?

Os ingressos para a apresentação em São Paulo já estão à venda aqui, e a previsão mais sensata é que desapareçam antes mesmo de você concluir aquele debate interno sobre ir ou não.

A turnê “La Vida Era Más Corta” já passou por mais de dez países, acumulou datas esgotadas na América Latina e dá pistas que o hype é real, não é só a internet brasileira inventando mais um “crush latino” para debater no Twitter por uma semana e esquecer.  

Tudo indica que Milo J encontrou algo mais difícil do que viralizar: permanecer. 



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* A foto de Milo J que ilustra este post é de Florencia Dozzo.