Fora do Lolla BR, Guitarricadelafuente faz show único em São Paulo em clube

Todo ano, quase que tradicionalmente, basta sair a escalação do Lollapalooza na América do Sul para um padrão se repetir: ali no cartaz, nas linhas logo abaixo dos grandes headliners internacionais, estão grande parte dos artistas nacionais, alguns já conhecidos outros bem no comecinho da carreira. E se batermos um olho no cartaz da Argentina e Chile veremos a mesma proporção de artistas hispanohablantes, latinos e espanhóis, mas que, curiosamente, figuram exclusivamente nos line-ups de lá.

Por mais compreensível que possa parecer, olhando um pouco para trás, daria pra lamentar grandes nomes que talvez também tivessem feito sentido e apreciados pelo público brasileiro. Enquanto “nossos hermanos” vibravam como se estivessem antecipando tendências, São Paulo assistia de longe esperando entrar na conversa só depois de ela virar um consenso global.

Voltemos a 2014. Na primeira edição do Lolla Argentina, os colombianos do Bomba Estéreo apareciam ainda como promessa, pequenos no cartaz, mas prestes a explodir. Três anos depois, já estavam dividindo colaborações com Arcade Fire. Em 2018, outro nome ainda em ascensão cruzava o lineup argentino: um certo Bad Bunny de Porto Rico, então representante do trap latino, hoje simplesmente o artista mais ouvido do mundo.

No ano seguinte, foi a vez de Rosalía pisar em Santiago como novidade quente: uma interessante mistura de flamenco com pop, em pura explosão global com seu álbum “El Mal Querer”, um trabalho acadêmico que virou um dos álbuns mais influentes do pop recente.

Sem contar que, em 2022, o C. Tangana chegou a ser anunciado para argentinos e chilenos após incendiar o circuito de festivais europeus com o excelente álbum da época “El Madrileño”. Bem, depois ele veio a cancelar, podemos abafar esse caso. Mas de todo modo ele não estava no mesmo evento na edição brasileira.

Mas lembram ano passado que precisou ter cancelamentos no nosso line-up original para anunciarem depois o Ca7riel y Paco Amoroso?

E falando no ano passado, dói até hoje ter ficado de fora e não assistir o show da era  “Grasa” da Nathy Peluso. Um show superperformático, teatral, com banda grande, que foi “passado” pelo Lolla BR.

Tudo isso aconteceu, menos no Brasil. E nem é o caso de se levantar os motivos. Se tem demanda, se é curadoria, se é logìstica. Focamos carinhosamente como uma “maldição” e um aprendizado.

Neste ano de 2026 não foi diferente. E quem fica fora do line-up aqui tem nome e sobrenome: Guitarricadelafuente.

No meio de uma nova geração de artistas espanhóis que tratam tradição como matéria-prima para algo completamente contemporâneo, Guitarricadelafuente virou um dos nomes mais intrigantes dos últimos anos. Não é exatamente folk, não é exatamente pop, e tampouco cabe no rótulo confortável de “indie”. Nascido Álvaro Lafuente em Benicassín (Espanha), seu nome artístico é derivado do diminutivo de violão em aragonês (“guitarrica”) e seu sobrenome de batismo, uma pista sutil de como  identidade se entrelaça em tudo no que ele faz.

E é justamente dessa fricção entre origem e fazer música alinhada com o presente que nasce sua força. Descrito pela imprensa européia como um “cronista da juventude rural espanhola”, Guitarrica constrói uma estética própria que mistura referências da música tradicional ibérica, especialmente da região onde cresceu, com uma sensualidade sutil, romântica e assumidamente queer.

Aberto sobre sua sexualidade, ele transforma essa vivência em parte central de sua narrativa artística, algo que ganha ainda mais corpo em Spanish Leather (2025), um trabalho frequentemente descrito como um álbum de libertação.

Se a curiosidade bateu até aqui, é bem possível que você já tenha cruzado com Guitarrica por aí, mesmo sem perceber.

O primeira hipótese é o feat. com Troye Silvan, um encontro improvável entre o universo introspectivo do espanhol e o pop emocional do australiano em “In My Room” (2023). A conexão rendeu tanto que se repetiu pouco depois em “Midsummer Pipe Dream”, já dentro de Spanish Leather (2025).

Aqui o negócio fica grande: ano ano passado sua música “El Conticinio foi escolhida para trilha de comercial global da Apple, estrelado Pedro Pascal e dirigido por Spike Jonze. A campanha ajudou a levar sua voz suave e quase sussurrada para um público muito além da cena alternativa.

Mas talvez o momento mais simbólico dessa expansão internacional tenha sido sua passagem pelo icônico Tiny Desk Concerts, o famoso escritório da NPR.

Acompanhado de poucos músicos e muita sensibilidade, ele mostrou por que muitos críticos o consideram um dos intérpretes mais singulares do momento.

Depois de passar por Santiago e Buenos Aires no último fim de semana, abrindo a temporada sul-americana do Lollapalooza dos vizinhos, o espanhol deixa um gostinho de ausência para o público brasileiro.

Mas nem tudo está perdido: quem quiser reparar essa lacuna terá uma chance de vê-lo de perto em um show solo único em São Paulo, na quinta 19 de março, na Fabrique Club (Barra Funda), às 20h30. Ingressos disponíveis para compra bem aqui.