Muita coisa aconteceu na vida de Harry Styles antes que o popstar fizesse 30 anos. O artista britânico tinha apenas 16 quando foi selecionado para fazer parte do grupo One Direction e aos 29 já havia lançado seu oitavo álbum de estúdio, terceiro de sua carreira solo, “Harry’s House”, que o consolidou como um “artista pop que deu certo”, desses raros que conseguiu sair da sombra da boy band, e que lhe garantiu um dos prêmios mais cobiçados da indústria, dizem: o Grammy de Melhor Álbum do Ano.

Contudo, todo sucesso tem seu preço.
Após tantos discos, uma tentativa de carreira como ator e mais de 160 shows entre 2022 e 2023, Harry Styles escolheu desacelerar pela primeira vez, se afastando de sua vida pública como pôde e buscou entender como seria sua vida dali em diante.
Enquanto curtia baladas em Berlim, corria por Tokyo ou assistia o anúncio do novo papa em Roma, Styles passou por um período de revisão de sua vida, muito afetado também pelo falecimento repentino de seu colega de One Direction, Liam Payne.
Quando voltou ao estúdio para gravar seu quarto disco, este “Kiss All the Time. Disco, Occasionally”, lançado sexta-feira passada, as inspirações para Harry foram essa nova conexão com a cena clubber e referências como o eterno LCD Soundsystem e o modeeeerno Fred Again.. Mas parece que isso não foi suficiente para libertá-lo das amarras do pop e atingir o patamar seguinte.

O primeiro e único single lançado, a faixa “Aperture”, que inclusive abre o disco, deu todos os sinais de que talvez esta seria uma fase mais experimental e eletrônica para Styles. Entretanto, desde que o álbum completo saiu, semana passada, a cada audição fica mais clara a capacidade técnica insuficiente do disco e, principalmente, a falta de coragem para abrir mão do conforto do pop mainstream.
Algo que não ajudou na causa deste disco foi insistir no mesmo time de produção de seus dois trabalhos anteriores, Kid Harpoon e Tyler Johnson, e esperar resultados dramaticamente diferentes. Ambos são profissionais que não têm uma conexão tão profunda com a cena clubber ou a música eletrônica.
As músicas de “Kiss All The time. Disco, Occasionally” são bem produzidas, claro, mas faltou experiência e recursos das música eletrônica, que foram suplementados por arranjos com referências de pop e indie rock com os quais eles já estão acostumados, que deixam as faixas menos dançantes, sem dinamicidade e um tanto homogêneas. Essa é a prova de que não é simples fazer música eletrônica para aqueles que acham que é só colocar uma bateria programada e um sintetizador para conseguir fazer o que James Murphy consagrou, por exemplo.
Adiciona-se a isso o medo de se expor e a falta de conhecimento de quem se é, enquanto Styles ainda tenta muito agradar seu público, o que deixou as letras das músicas confusas e muito subjetivas. Em sua resenha brutal, a “Pitchfork” até fez uma contagem de quantas vezes a palavra “You” é usada no disco (foram 326 vezes), um recurso que omite a presença de Styles das músicas.
Esse conjunto de características faz com que de todos os seus trabalhos solo este seja o que mais lembra seus trabalhos com a One Direction. Parece tentativa de fazer música eletrônica palatável para consumidoras do pop que estão mais preocupadas em fantasiar que essas músicas foram feitas para elas. O que não está errado per se, mas é definitivamente um retrocesso para Styles.
No dia do lançamento do disco foi gravado um show único em Manchester, com um público seleto de fãs e influenciadores, e a ausência de celulares. A apresentação foi mostrada no último domingo via Netflix.
Tocando o disco na íntegra e acompanhado não somente de sua banda mas também de um coral completo, Harry Styles apresentou sua nova fase ao vivo, completa com uma estação onde o artista tem seus sintetizadores, entre eles um tradicional Moog, assim como um momento em que toca um piano Rhodes, na faixa “Coming Up Roses”, e até usa um microfone bullet para simular as sonoridades de rádio da faixa “Ready, Set, Go!”.
Com mais de 20 mil fãs presentes, muitos dos quais que já sabiam cantar as músicas do disco que tinha saído no mesmo dia, Harry Styles se apresentou com carisma e movimentos de dança duvidosos, mas sem demonstrar a confiança que tinha em sua última turnê. A energia do público, palpável mesmo através de uma gravação, elevou marginalmente as músicas, que podem ganhar novas camadas ao vivo.
Em resumo, “Kiss All the Time. Disco, Occasionally” é um álbum pop. Tem seus pontos muito interessantes, como “Aperture”, e pode evoluir para ser uma experiência mais dançante no palco, em sua turnê de residências mundiais (em São Paulo são quatro shows em julho, no Morumbis).
Mas temos que concordar com a opinião geral de que o disco está muito aquém das habilidades de um artista do porte de Harry Styles e suas referências.
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* A foto de Harry Styles usada neste post e na chamada da home da Popload é da Laura Jan Coulson.
** Autora deste texto, Carolina Andreosi comprou ingressos para os quatro shows que o britânico vai fazer em São Paulo em julho, nos dias 17, 18, 21 e 24.
*** Harry Styles vai ser ao mesmo tempo o apresentador e a atração musical no próximo final de semana do programa americano “Saturday Night Live”.