CENA – Entrevista com a banda Julieta Social, que acabou de lançar seu elogiado disco de estreia, “Julieta”. Que eles dizem não ser o disco de estreia…

Sabe aquele sonho de adolescente de fazer uma banda com seus amigos? É uma história que vive se repetindo há décadas e no caso da Julieta Social a vontade de juntar a galera pra fazer um som sobreviveu à maioridade.

E neste ano eles lançaram, finalmente, “Julieta”, um dos álbuns de estreia mais interessantes da CENA, desses discos que ficam no loop por semanas. E você poderá conferir esse trabalho ao vivo na próxima edição do Circuito – Nova Música, Novos Caminhos.

Mas estamos nos adiantando demais, vamos começar do início.

O vocalista Rafael Bastos explicou para a Popload em entrevista: “Sempre tive vontade de fazer música, e eu nunca gostei da ideia de fazer música sozinho. A gente estudou no mesmo colégio, eu e o João [Durão]”. 

De colegas de escola, quando passavam a tarde juntos ouvindo The Strokes e Radiohead, João e Rafael passaram a encarar a música com protagonismo, não só mais como ouvintes. Começaram a arriscar fazer algumas músicas, organizar as letras. O resultado disso está cristalino aí no disco. A maioria das composição de “Julieta”, som e palavras, tem a assinatura dos dois.

No paralelo, já foi nascendo a parte estética, que é algo que deu muita visibilidade para o Julieta Social também. “Desde a primeira vez que a gente pensou em fazer a banda, já tinha uma apresentação do Canva ali com algum logo porco. Então eu fiz uma lista de nomes, inclusive achei faz pouco tempo essa lista. E lá tem as únicas duas palavras em português, Julieta e social”, contou Bastos. 

O “Julieta” vem do bairro onde eles se conheceram, a Granja Julieta, na Zona Sul de São Paulo, enquanto o “Social” remete àquela vontade recorrente que Rafael tem de fazer música com seus amigos. 

Foram sete anos entre as tardes depois da escola e o início oficial da banda. “O João falou que um de nós dois tinha que largar o que estava fazendo e estudar música, senão a gente não iria chegar a lugar nenhum”, explicou Rafael, que foi quem seguiu esse caminho.

Foi na faculdade de música, então, que Bastos conheceu Rodrigo Mattos, o baterista, que dá todo um “molho” e groove das músicas da Julieta Social. E ao longo de 2022 e 2023 foram muitas experimentações e formações de integrantes para o projeto.

Mas foram principalmente as primeiras arriscadas ao vivo que levaram os amigos a conseguir unir toda essa vontade de fazer música em um disco. 

O quarto membro oficial da banda, Rubens Adati, começou tocando guitarra com os outros rapazes quando o primeiro guitarrista e produtor da banda saiu. Aos poucos, foi se integrando e logo ficou parecendo que sempre esteve com os Julieta.

“Na verdade, a gente não lançou o nosso disco de estreia. As músicas que estávamos fazendo nos primeiros shows eram completamente diferentes”, divagou Bastos. Talvez esteja aí o pulo do gato do disco da Julieta Social e o que lhe confere tanta maturidade de som: refinar e refinar e refinar suas canções, para apresentar algo bem mais consolidado ao público.

Assumindo o papel de produtor e membro oficial, Rubens ficou responsável por unir as referências de seus colegas, que vão de Lou Reed e Rolling Stones a Tim Bernardes, com a realidade de fazer um trabalho coletivo. 

Quando você dá play no streaming de “Julieta” ou assiste uma performance da Julieta Social ao vivo, o Julieta Social na verdade não é só quatro músicos: os membros principais abriram as portas do estúdio para quem pudesse agregar ao projeto. Como foi o caso de Mariana Estol, que entrou para fazer a direção vocal do álbum e acabou responsável por boa parte das vozes femininas do disco. 

Capa de “Julieta”, o disco de estreia da banda Julieta Social

Assim, os amigos foram criando sonoridades expansivas, com muito groove e construção de camadas sonoras, usando sound bites ficam ecoando no ouvido de um jeito ótimo, e acompanham letras que documentam o cotidiano desses jovens, mas que tem uma maturidade muito interessante, e que ganham destaque no jogo de vozes. 

No show de estreia lotadíssimo que conferimos no Porta as faixas do disco ganharam vida com uma intensidade amplificada por essa comunidade que eles construíram em torno de fazer um som entre amigos, numa formação de 7 músicos que não é excessiva ou redundante. É um show eletrizante e que cativa o público tanto quanto o disco. 

É uma banda que não é uma banda. É um disco de estreia, que não é um disco de estreia. Acima de qualquer constrição de gênero ou formato, A Julieta Social é um projeto que reforça essa CENA paulistana crescente e colaborativa com um álbum viciante.

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* A foto da banda que abre este post e ilustra a home da Popload é de Edilson Tuttner. A imagem ainda não tem o guitarrista Rubens Adati, que entrou por último. Já os créditos da colagem são de Sophia Poole, Rafael Bastos, Miguel Singer e Edilson Tuttner.
* O Julieta Social abre a sexta edição do Circuito #06 no próximo dia 5 de março, no Cineclube Cortina, em São Paulo, como a “banda local” do projeto, que tem Maquina., Exclusive os Cabides e Janine como as “atrações viajantes” da tour. Ingressos e mais informações aqui.