
O digníssimo grupo indie cearense Cidadão Instigado está de volta. O projeto que o guitarrista Fernando Catatau começou sozinho, reunindo ideias em São Paulo até encontrar um time de músicos para trabalhar junto em Fortaleza e teve de lá para cá muitas idas e vindas, muitas formações e questões, reaparece para celebrar seus 30 anos.
Celebrar não de forma nostálgica, diga-se, mas com um álbum de inéditas que leva justamente o nome do projeto: “Cidadão Instigado”.

De uma maneira muito parecida com o início do Cidadão, Catatau se viu na pandemia preso em São Paulo após uma temporada em Fortaleza. Foi o tempo de explorar livremente seu novo brinquedinho, um sampler Roland MV-8800. Brincando com as possibilidades eletrônicas com sua guitarra, o compositor foi reencontrando o espírito de sua banda; cujo último lançamento tinha sido “Fortaleza”, lááá em 2015.
E aí você pode se perguntar, com esse processo não seria mais um disco solo de Catatau igual ao lançado por ele em 2022? Não, senhor! Cidadão Instigado é outra energia. Da mesma forma que Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Bernardo Soares não escrevem poesia igual sendo todos Fernando Pessoa.
Na hora de cozinhar as ideias em estúdio, apareceram desde o velhos parceiros (Clayton Martin, Dustan Gallas, Rian Batista e Regis Damasceno) até novíssimos amigos (Jadsa, Ava Rocha, Juçara Marçal, Anna Vis, YMA, Mateus Fazeno Rock, Edson Van Gogh e Kiko Dinucci).
O resultado do rolê todo é muito Cidadão Instigado. Porque o Cidadão não é uma empresa tocada pelo CEO Fernando Catatau. Vai muito além. É uma essência, um troço meio intangível. Talvez nem Catatau saiba explicar suas razões. Todos os colaboradores do novo álbum poderiam muito bem nem aparecer como convidados. Quando estão no Cidadão, eles também são Cidadão Instigado. E você enquanto ouvinte pode ser Cidadão Instigado também. É por aí.

Para desbravar as 13 faixas inéditas, convidamos Fernando Catatau para falar sobre cinco coisas que inspiraram o novo trabalho. Eis a lista:
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1. Cultura underground de Fortal
“De 2016 até 2020 eu morei em Fortaleza e esse foi um período muito marcante na minha vida. Um tipo de reconexão com minhas raízes e um dos motivos de ter voltado a morar lá nessa época. Foi justamente porque eu queria estar mais perto da cena artística local e sem dúvidas isso me marcou muito para o que tenho feito agora.”
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2. Danças aleatórias
“Uma coisa que há muitos anos tenho tentado fazer é voltar a dançar, que era uma coisa que eu curtia muito quando era mais novo. Por algum motivo, no meio da vida eu parei totalmente. Desde que voltei nessas tentativas, comecei a me interessar por músicas que possuíam batidas não convencionais e comecei a compor assim. Talvez para dançarinos não convencionais no qual eu me incluo.”
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3. Paredões de som
“Dentro desses experimentos de música e dança aparecem os paredões de som. Acho que nem preciso me explicar muito. Quando a musica toca num paredão é uma experiência foda. Pesado.”
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4. Medo do que eu não via
“Na pandemia eu me deparei com uma coisa que até então era algo que eu achava que fazia parte de qualquer pessoa do planeta que era o medo do que não se vê. O próprio vírus me mostrou isso muito bem. Aquele inimigo que pode vir de qualquer lugar. Que fica escondido só esperando a hora de você se distrair para lhe atacar. Acho que hoje, entendendo que às vezes minha mente cria mais do que deveria, consigo me relacionar um pouco melhor com tudo isso.”
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5. Música popular contemporânea
“Dentro desse rótulo incluo o(a)s cancioneiro(a)s populares, sofrência, trap, grime, reggae, pop… e todo tipo de música popular do mundo. Antes eu vivia buscando inspiração no passado e hoje me sinto mais no presente.”
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* O álbum “Cidadão Instigado” já está disponível. É um lançamento do selo RISCO em parceria com a Nublu Records.
* A foto do cidadão Fernando Catatau usada neste post é de Juno B.