
Se você tem algum mínimo interesse em música alternativa, é bem provável que seus algoritmos de redes sociais já tenham te indicado vídeos da dupla canadense Angine de Poitrine. Sim, aquela dupla fantasiada que toca música instrumental totalmente fora do padrão pop, que falamos por aqui já, vez ou outra.
Os caras (ETs?) com uma apresentação de 27 minutos na KEXP que parece ganhar meio milhão de visualizações por semana (atualmente está em 8 milhões). Aproveitando que o duo acabou de lançar seu segundo disco na última sexta-feira, o “Vol. II “, vamos aproveitar para tentar entender esse fenômeno mais um pouco.
Primeiro que o Angine de Poitrine em si parece consequência de um processo de seleção natural darwiniano na indústria musical. É possível identificar elementos do DNA de vários artistas que vieram antes, sem necessariamente copiar qualquer um deles. Dá para ouvir (e ver) ali: Primus, The White Stripes, King Gizzard & the Lizard Wizard, Lightning Bolt, Randy Rhoads, Devo, Hella, System of a Down, Death From Above 1979, Kraftwerk e outros tantos.
Sabe aquela história de que os melhores artistas roubam? Pois o duo canadense roubou o suficiente para criar um som e visual espetaculares, mas não roubou demais a ponto de ser pego nas câmeras de segurança. Isso presumindo que eles tinham acesso a essas bandas em seu planeta de origem.
Mas o que mais nos surpreende no Angine de Poitrine não é necessariamente o som nem o visual. Esses dois elementos são ótimos, certamente, mas o legal mesmo é como eles cativaram o público em relativamente pouco tempo, de forma totalmente orgânica, sem grande amparo dos típicos instrumentos que fazem bandas estourarem.

O Angine de Poitrine não foi inserido na capa de alguma revista, não abriu show de uma banda maior, não teve feature em hit de outro artista nem foi apadrinhado por alguém grande na indústria (até onde sabemos, pelo menos).
Os vídeos que fizeram meme da apresentação deles na KEXP seguem um formato simples: “Vou só colocar algo para escutar enquanto limpo a casa”, ou “Tentando trabalhar enquanto vejo um negócio” – mas o sujeito do vídeo está totalmente hipnotizado pela banda.
O conceito é simples demais: “Essa banda é tão boa que não consigo parar de ver”. Mas é isso mesmo. Quase todo mundo que clica em “Angine de Poitrine – Full Performance (Live on KEXP)” fica cativado e quer compartilhar com mais pessoas.
A combinação disso tudo é uma viralização inescapável. Um som autêntico com divulgação autêntica. Não tem como acusar eles de nepotismo musical, nem como dizer que são farsas. Se você curte, curte sem ressalvas, e quer que mais pessoas curtam isso com você.
É o tipo de banda de rock que surge uma ou duas vezes por década – e olha lá -, o ápice de anos trazendo artistas novos que quase chegavam lá, mas nunca atingiam seu potencial máximo de público.A banda perfeita para tempos sombrios em que lentamente rendemos nosso pensamento crítico e artístico às máquinas.
Agora pegue seu serviço de streaming favorito e escute “Utzp”, quarta faixa de “Vol. II”, que vai da polka ao metal em sete minutos, e maravilhe-se com um dos melhores e mais criativos sons que você ouvirá este ano.
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* Em atual turnê canadense, o Angine de Poitrine se apresenta amanhã em sua cidade, Quebec, no Le Pantoum. Esperemos os vídeos desse.
** Porque o do show deles na última sexta-feira em Montreal, no Club Soda, bem no dia em que eles lançaram o “Vol. II”, temos na íntegra aqui embaixo.