A especialíssima Grouper traz sua rara experiência ao vivo ao Brasil pela primeira vez

Não é exagero dizer que ver Grouper ao vivo é daqueles eventos que muita gente passa anos esperando sem saber se um dia ele vai acontecer. Liz Harris, a mente por trás do projeto, faz pouquíssimos shows, evita turnês extensas e costuma surgir nos palcos quase como suas próprias músicas: de forma discreta, rara e difícil de prever.

Em tempos em que São Paulo cada vez mais “grandona” disputando espaço no roteiro de praticamente todas as grandes turnês de artistas internacionais, a passagem de Grouper marcada para esse segundo semestre, numa apresentação inédita e única, soa como uma feliz exceção.

Se você chegou até aqui se perguntando quem é Grouper, deixe-nos apresentá-la: a artista é frequentemente citada como um dos nomes mais importantes dos anos 2000 quando falamos dos gêneros ambient, drone, slowcore, dream pop e, em suma, das mais diversas vertentes da música experimental. 

A simples menção de música experimental faz entrarmos em um território que costuma desafiar definições e expectativas. Não à toa, o gênero ainda carrega a fama de ser difícil, e até incompreendido, porque desafia justamente aquilo que aprendemos a esperar da música. 

Desde crianças, somos condicionados a reconhecer certos padrões: refrão, melodia, ritmo.… presente na maioria das músicas pop, o rock, sertanejo ou até mesmo a música clássica tradicional. Já a música experimental muitas vezes faz o contrário: elimina o refrão, introduz ruídos, cria silêncios desconfortáveis, evita uma narrativa clara ou até questiona o que pode ser considerado “música”, já que não traz um entretenimento imediato e aquele objetivo de convidar “cantar junto”.

Curiosamente, muita música que hoje parece normal já foi considerada experimental. Os primeiros discos dos The Beatles com fitas ao contrário, os sintetizadores de Kraftwerk ou os vocais processados de Bon Iver foram vistos como estranhos em seu tempo. A história da música é cheia de experimentos que, anos depois, viraram linguagem comum.

No caso específico da Grouper, a incompreensão vem porque Liz Harris trabalha numa zona muito próxima do sonho e da memória. Suas músicas parecem gravações encontradas numa fita antiga, com vozes distantes, ruídos do ambiente e melodias que às vezes aparecem e desaparecem. Para alguns ouvintes isso soa emocionante e profundamente humano; para outros, parece apenas algo “mal gravado”. A diferença está muito menos na obra e muito mais na expectativa de quem escuta.

Talvez a melhor forma de ouvir música experimental seja não perguntar “eu gosto disso?” nos primeiros minutos, mas “o que essa música está tentando me fazer sentir?”.

Alguns álbuns da Grouper que indicamos para começar:
* Dragging a Dead Deer Up a Hill (2008): o mais acessível;
* A I A: Alien Observer (2011): o favorito de muitos fãs;
* Ruins (2014): mais íntimo e centrado em piano. 

Grouper se apresenta em São Paulo em 23 de setembro, no Teatro Gamaro, na Mooca, em uma realização da W+ Entertainment. Os ingressos estarão à venda nesta sexta-feira, 12/06, às 10h via Sympla.