Com o novo e 25º álbum da carreira, os Rolling Stones buscaram um nível bem alto para seu talvez último trabalho. E não é que conseguiram?
POSTADO DIA 13/07/2026
Jazz e poesia falada, ok. Mas a gente não foi pega de surpresa. Em 1993, vimos com os próprios olhos (quem era nascido à época, claro), e ao vivo pela Globo ainda por cima, o figuraça Flea invadir o show do Nirvana e tocar trompete em uma versão bizarra de legal de “Smells Like Teen Spirit”.
Então, esse choque térmico que estamos terminando hoje em dia não é (quase) nada.
Você passa as últimas quatro décadas acostumado a ver o Flea, aquela entidade sem camisa e de cabelos coloridos, dando voadoras no palco principal de um estádio lotado com sua banda, a Red Hot Chili Peppers.
Aí você dá o play no mais novo Tiny Desk, da NPR, lançado ontem, e se depara com o homem espremido entre estantes de livros, concentradíssimo, tocando de novo um trompete.

Se você andou dormindo nos últimos meses, o lendário baixista resolveu chutar o balde do óbvio. Em março, ele colocou no mundo “Honora”, seu audacioso primeiro álbum solo longe dos californications.
Esqueça o slap furioso de “Give It Away”. O negócio aqui é jazz contemporâneo, experimentalismo, texturas eletrônicas e resgate de origens. O trompete, vale lembrar, foi o primeiro amor musical dele, bem antes do rock aparecer em sua vida.
No setlist enxuto de três músicas do Tiny Desk, Flea comandou a sua espetacular Honora Band — um “dream team” que conta com figurões da cena jazzística atual como o guitarrista Jeff Parker e o saxofonista Josh Johnson.
Na abertura com “Traffic Lights”, ele empunhou o trompete cheio de feeling (no disco, a faixa tem ninguém menos que Thom Yorke nos vocais). Em “Morning Cry”, dividiu as linhas de baixo com Anna Butterss em um groove hipnótico. E terminou largando os instrumentos para cuspir poesia falada em “A Plea”, num daqueles momentos catárticos que só o Tiny Desk consegue capturar.
O concerto na NPR reflete perfeitamente o espírito dos shows solo intimistas que Flea tem feito. Ele trocou as arenas por portinhas cultuadas e palcos pequenos, descrevendo essa nova fase como uma “verdadeira aventura”. É o avesso do gigantismo do Chili Peppers.
Lá na nave-mãe, ele continua sendo a fundação inabalável do rock de massa, o cara que dita o ritmo para Anthony Kiedis e John Frusciante flutuarem. Aqui fora, ele é só mais um músico apaixonado tentando se conectar e fazer um som com os amigos. Inquieto e eterno punk no corpo de um jazzista. Esse “outro” Flea é bem legal.