Com o novo e 25º álbum da carreira, os Rolling Stones buscaram um nível bem alto para seu talvez último trabalho. E não é que conseguiram?

Ainda que haja um certo aquecimento nas vendas de mídias físicas, é fato que a vendagem de discos se limitam cada vez mais a um restrito público de nicho e, portanto, acabam gerando cifras quase que simbólicas no bolso de algumas bandas, bem diferente como era no passado.

Olhando para os números dos streamings ou mesmo em setlits no geral, também fica muito claro que grande parte dos consumidores meio que congelaram seus gostos em respectivas fases e seguem ouvindo as mesmas músicas, daquela mesma época, daqueles mesmos artistas.
(De preferência, óbvio, aqueles hits).

Acaba sendo curioso então tentar decifrar o motivo de artistas gigantes e consagrados seguirem lançando, não só novas músicas mas novos discos INTEIROS.

Se o motivo for um “oba oba” para chamar atenção de uma nova tour, talvez lançamentos de coletâneas (hoje playlists reorganizadas com uma nova capa) ou a promessa de tocar “aquele disco” na íntegra já sejam mais que suficiente para um mundo que anseia desesperadamente (e quase que exclusivamente) pela nostalgia.

Talvez alguns artistas simplesmente se acostumaram ou só sabem viver e operar com esses ciclos de composições, gravações e um tempo de estúdio, escolhendo singles e preparando seus music videos de divulgação para, aí sim, sair em turnê.

Claro que não dá para generalizar, mas talvez seja fato mesmo que alguns artistas ainda tenham, na verdade, um genuíno amor pelo processo de criação alinhados a um cuidado na entrega aos fãs de novos materiais com qualidade, por mais que definitivamente não precisam provar nada para ninguém.

O que nos leva diretamente aos Rolling Stones e seu novo álbum “Foreign Tongues”, lançado na última sexta, como reportamos por aqui.

E, em se tratando de Stones, aqui eles seguem quebrando ou subvertendo propositalmente mais uma vez algumas regras básicas, nesse caso geralmente esperadas e encontradas para um possível disco “saideira”.

Nada de disco cheio de baladas que, nas melhores hipóteses, ainda que boas, poderiam mostrar uma banda (compreensivelmente) cansada ou que perdeu um pouco do pique.

Nada de eventuais sonoridades predominantemente carregadas com certos tons melancólicos de despedida.

Também não é daqueles álbuns que os singles divulgados antes do lançamento são exatamente as melhores ou mais empolgantes músicas, sobrando uma ou outra boa canção e vários fillers que não empolgam, nem comprometem.

Considerando regras e preocupações em seguir tendências mercadológicas contemporâneas gratuitamente, além de um ou outro flerte esperto e pontual na trajetória, os Stones nunca foram de rezar pelas cartilhas convencionais e não seria em 2026 que as coisas mudariam.

No tracklist de “Foreign Tongues”, de cara, os três singles já lançados são exatamente as três primeiras faixas de um álbum que, já adiantando e sendo bem justo, quase todas as outras faixas poderiam ser um ótimo single.

Se da quarta música em diante é que começam as surpresas, “Mr. Charm” e “Divine Intervention” já de fato surpreendem com uma pegada e energia bem inusitadas, mesmo comparadas aos últimos lançamentos do grupo.

“Ringin Hollow” até dá uma pausa para um respiro com sua levada meio country, mas a dançante e extremamente contagiante “Never Wanna Lose You”, seguida da pesada, crua e direta “Hit Me in the Head” já retomam a energia rock’n’roll para cima predominante.

Até mesmo a versão de “You Know I’m No Good” (de Amy Winehouse), que poderia ser apenas uma boa e curiosa adição, acaba sendo mais que isso, respeitando bem a original, mas transformando em uma faixa definitiva dos Stones com seus riffs, corais e gaitas envenenadas.

“Some of Us” é a que mantém uma certa tradição de ser a música do disco com vocais de Keith Richards, mas Jagger acaba também adicionando alguns vocais, especialmente na reta final da canção, criando mais um dos momentos especiais do álbum.

Na sequência, “Covered in You” e “Side Effects” vem com mais uma ótima e energética dobradinha. Na primeira delas, vale mencionar que de todas as participações especiais (por motivos mais que óbvios), o grande momento acaba sendo mesmo o baixo do Paul McCartney, tanto pelo groove em si quanto pelo destaque mais do que merecido e esperto da mixagem e produção.

Produção aliás que ficou por conta, mais uma vez, de Andrew Watt, que honestamente nem sempre acerta, mas aqui conseguiu sim equilibrar e acertar a mão com um dos seus mais eficientes trabalhos.

“Back in Your Life”, com seus pouco mais de seis minutos, poderia ser a grande e épica balada que encerraria bonito o disco. Só que, provando que aqui nada é óbvio ou por acaso, “Beautiful Delilah”, cover de Chuck Berry, é que finaliza o trabalho, fechando de forma bem precisa um ciclo histórico e fazendo todo o sentido.

Com um álbum que mostra várias facetas e remete a sonoridades de distintos momentos da carreira, sempre há grandes riscos de uma banda soar como uma caricata sombra de si mesma. E, de quebra, justamente pela diversidade sonora, acabar não resultar em um disco coeso. Mas os Stones encararam esses desafios com uma aparente naturalidade e não passaram nem perto de cometer algum desses deslizes.

“Hackney Diamonds” já teria sido um disco bem digno de encerramento na discografia, mas a impressão que fica é que a banda queria um nível bem mais alto para, como dizem, encerrar (talvez) com chave de ouro. Absolutamente, nenhuma outra banda foi tão longe, e principalmente, com tanta vitalidade.

Da longevidade, gigantescas turnês que mudaram o mercado, grandes e ricas histórias e personagens, o universo dos Rolling Stones é dos mais fascinantes. Mas segue sendo a discografia o principal e bem especial motivo para eles serem considerados como uma das maiores e melhores bandas de rock’n’roll de todos os tempos!

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