Demoramos, mas é porque resolvemos esperar, sabe? Phoebe Bridges deixou a gente aguardando e aguardando. Aí veio a Charli XCX com novidades e até a PJ Harvey trouxe algo inédito. Fora a urgência do Vince Staples, se consolidando por onde quer que se olhe. Não é uma semana qualquer. É daquelas quentes onde “inéditas” dos Stones, Tame Impala, Joy Division praticamente viram nota de rodapé. Sinal que a semana incrível.

Acabou o segredo. Ou pelo menos, parte dele. Phoebe Bridgers lançou o primeiro single de “Lost Weekend”, seu terceiro álbum solo. Com as boygenius Lucy e Julien nos vocais, Alex G na bateria e seu co-produtor Jack Antonoff em diversos outros instrumentos, fora uma outra galera participando, Phoebe entrega uma música “animadinha”, de acordo com os próprios fãs. “Lost Boys” com uma letra sobre a dificuldade dos meninos em amadurecer. A recusa de crescer é simbolizada pela citação aos “Lost Boys”, os parças do Peter Pan. Os meninos se refugiam em seus mundos virtuais, em pirraças e depois pedem desculpas pela ausência. A letra é aberta a mil interpretações, lógico. O vídeo amplifica as leituras ao trazer cenas de cavaleiros medievais e Phoebe como uma elfa que usa tênis de corrida, então ela pode estar falando de muitas outras coisas.
Ano que vem fará 50 anos do lançamento da sonda espacial norte-americana Voyager I, o objeto feito pela humanidade para ir ao mais distante da Terra – atualmente, coisa de 25 bilhões de quilômetros daqui. Uma viagem e tanto, né? Essa trip foi a inspiração da nossa Polly Jean Harvey para uma canção. Instigada pelo físico Brian Cox, uma espécie de Neil deGrasse Tyson, a escrever algo para o seu novo show, ela fez uma letra a partir do ponto de vista da sonda. O que ela teria para dizer para nós? Ela fala sobre os dias e noites sombrios, o frio, as músicas da terra contidas nela em um disco dourado. Também fala sobre seu fim: “Sinal caindo”, diz um dos versos. É real, em breve a Voyager perderá sua energia e vagará fora do nosso alcance. “Bondade, bondade/ Cuide do nosso abrigo”, são suas últimas palavras. PJ aproveita e cita Carl Sagan ao se referir ao “pálido ponto azul”, uma menção do cientista ao aspecto mínimo da Terra na imensidão do espaço a partir de uma foto tirada da Voyager em 1990, quando estava “só” a 3 bilhões de quilômetros de nós. Coincidentemente, a canção de PJ provoca a mesma sensação da foto ao transmitir a dimensão do quão pequenos somos diante do universo. Precisamos cuidar bem do nosso cantinho.
Um bebê de topete loiro vestido com fraldas estampando a bandeira dos Estados Unidos chora na capa de “Cry Baby”, o sétimo álbum de Vince Staples. Trump ou nós mesmos, mimados e chorões? O rapper deixa a questão em aberto e parte para radicalizar em seu discurso e som visando colocar em cheque mil tretas do mundo e da América do Norte: da obsessão com armas e violência até a dormência cultural que deixa questões sociais incomodarem só na medida que influenciam negativamente ou positivamente nas vendas. Vince não quer acordo. Acharam o som dele roqueiro? Ele avisa: é James Brown.
Terceiro single de “Music, Fashion, Film”, esta “Wink Wink” é a piscadela nada discreta de Charli sobre ter que fazer o papel de boa moça para agradar mais gente. Sim, ela jura que vai mudar. Quem não muda? Uma mulher, especialmente, teria que se adequar, né? Em um dos versos ela diz que o amigo e ex-Vampire Weekend Rostam Batmanglij teria dito que ela se vestia igual a uma piranha. Isso é coisa que ela não faz mais, sério. A ironia toda é completa com um roquinho bem básico – nada das loucurinhas do singles anteriores. Se ficou alguma dúvida, veja o vídeo da música.
No filão do shoegaze dos anos 20, menos ruidoso do que nos anos 80, cabe muito o som do Deux Visages, trio formado por Daphney Hanono, Jack Chui e Tony Jouvin. “Always You” tem aquela crocância das guitarras eternamente mais altas do que a voz da vocalista e a letra cabisbaixa lamentando um amor que mal sabe sua existência, mas surpreende com seu solo de guitarra elaborado, capaz de agradar o mais hard rock dos roqueiros. Depois de alguns singles, eles finalmente soltarão seu álbum de estreia.
Ainda na esteira dos jovens relendo gêneros, o Swapmeet traz algum frescor para o indie desleixado, lentinho, mas que também sabe usar o pedal de distorção. Também próximos de lançar o primeiro disco, o quarteto australiano é liderado pela vocalista Venus O’Broin, que sabe fazer altas letras tristinhas. “Fiz 23 anos/ Deitado na minha cama/ A chuva soprava pelas janelas”. Haja melancolia.
Na nossa lista de bandas pós-punks faladeiras, o Yard Act é das prediletas. Donos de um humor mais sombrio, o quarteto britânico celebra os infinitos recomeços possíveis na vida de um jeito bem irônico em uma música felizinha demais. É o jeitinho deles de lamentar e ao mesmo levantar o espírito. Jeitinho exposto já no título do terceiro álbum, um conselho de quem sabe : “You’re Gonna Need a Little Music”, algo como “Você vai precisar de um pouquinho de música”. A gente sempre precisa, que bom contar com vocês.
Tame Impala talvez não lembre imediatamente Smashing Pumpkins, mas é só ouvir a versão quee Kevin Parker aka Tame Impala fez de “Hummer” para entender exatamente o que ele pegou da atmosfera de Billy Corgan e cia: um certo jeito de colar voz e os timbres de guitarra em um bloco só, fora um ar épico/cinemático/viajadão intenso em algumas canções. O cover está em “Sending Hearts to All My Dearies – A Tribute to the Smashing Pumpkins”, compilação acompanhada de perto por Corgan.
Embora não apareça creditado como participação especial, Robert Smith é um dos guitarristas em “Divine Intervention”, mais um single do próximo disco dos Stones, “Foreign Tongues”. Não dá muito para notar a intervenção do líder do Cure na massaroca produzida pelo queridinho dos tiozinhos do rock, Andrew Watt. O outro single lançado em conjunto, a baladinha soul “Jealous Lover” se sai melhor ao ser um encontro de “Heaven” com “Waiting on a Friend”, dois clássicos de “Tatoo You”. Se em 1981 as pessoas já achavam que os Stones estavam se repetindo por demais, é bizarro pensar o quanto o momento da IA deixou tudo isso ainda mais questionável. Será que eles estão ali ou só assinaram os papéis? Música com ar de prompt.
A gente já falou aqui na Popload, “Eternal (Live)” reunirá 16 apresentações ao vivo na íntegra do Joy Division, incluindo o primeiro show em Londres no Hope & Anchor, pouco antes de Ian ter sua primeira crise epiléptica perceptível, e o derradeiro da banda em High Hall em 1980, a estreia ao vivo de “Ceremony”, listada no setlist como “New One”, na época. É o maior lançamento de material ao vivo da banda e o melhor tratamento possível para muito sons que circularam até aqui só em bootlegs.
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* Na vinheta do Top 10, a cantora e compositora americana Phoebe Bridgers.
** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix.