
O show de Cameron Winter no suntuoso Auditório do Ibirapuera foi a tradução perfeita do que um festival como o C6 Fest consegue entregar de melhor: um momento de corte absoluto com a barulheira dos palcos externos.
Um concerto quase erudito para indies sentadinhos e altamente silenciosos para a ocasião, os mesmos que esgotaram ingressos em poucas horas no ano passado, quando os bilhetes foram à venda. E que explodiam entusiasmados nas palmas e nos “u-hus” quando uma música acabava, aí sim quebrando a reverência. Ou reverenciando mais, na verdade.
No último domingo (24 de maio), o líder e vocalista da incensada banda nova-iorquina Geese, chegou ao palco gigante do Auditório Ibirapuera completamente sozinho. Sem sua guitarra estridente, sem o caos pós-punk de seu grupo original. Ali, era apenas Cameron Winter, um piano de cauda e uma voz assustadoramente gigante para um auditório em transe.
Foi engraçado imaginar que o Auditório onde estava o jovem Cameron, pouquíssimo tempo antes, foi o depósito de uma parafernália sonora que sustentou no bastidor o show de um mamute do rock, o velho Robert Plant, um dos caras mais marcantes da música, que tocou praticamente ali no palcão, mas outro lado, da parede para fora.

Na hora de Cameron, tudo limpinho, o ambiente era de arte. O clima lá dentro parecia o de um cabaré expressionista alemão dos anos 10, ou para viajar menos o de uma sessão secreta no Brill Building da Broadway, na Nova York musical da década de 1960.
Winter, que tem meros 24 anos, dominou a imensidão do auditório projetado por Niemeyer com uma solenidade impressionante. Ele mal olhou para a plateia. Mal falou com a galera. Suas interações se resumiram a um único e tímido “obrigado” em português ao final da noite.
O repertório foi focado em seu denso disco solo, o lindo “Heavy Metal” (2024), desnudando canções que ganharam contornos épicos e instáveis no formato acústico. Pérolas como “Love Takes Miles” e “Drinking Age” arrancaram lágrimas de quem estava na plateia. Lágrimas reais. Eu vi!!!
No trecho final, a tensão dramática subiu com “$0” e a emocionante “Take It with You”. Foi uma estreia solo arrebatadora no Brasil, daquelas apresentações que justificam sozinhas o ingresso de um festival de curadoria fina. Quem deu a sorte de estar ali viu um gênio em estado bruto. Lapidando nosso ser interior indie bonitinho.
Foi assim: