
As regras não estão escritas, embora uns insistam em segui-las. Por isso, é possível fazer discos em formatos tradicionais (piano e voz, voz e violão) e soar novo e contestador. É o que provam nesta semana com Juçara Marçal & Thais Nicodemo e Giovani Cidreira testando os limites do convencional. A lista de melhores do ano nacional começa a ficar apertada no começo de maio. Pois é.

Piano e voz. Soa conversador, né? Não quando estamos falando de Juçara Marçal e Thais Nicodemo. Ao juntar a amplidão da voz de Juçara (além de dispositivos eletrônicos comandados ela) com a técnica do piano preparado usada por Thais, onde peças (sejam moedas, colheres ou qualquer outra coisa) ligadas às cordas e ao martelo do instrumento geram alterações sonoras, temos um resultado nada conversador. O poder dessa experimentação pode ser mais bem observado nas regravações: “Cavaquinho”, de Rodrigo Campos, por exemplo, disseca as canções de seus fonogramas originais mostrando como ela para em pé com menos. Afinal, menos é mais.
Voz e violão. Outro conceito caído, né? Não quando estamos falando de Giovani Cidreira. Ao lado do boogarin Benke Ferraz, o baiano colocou o formato à prova em esquema ao vivo com um repertório de inéditas e releituras. Registro feito na Casa de Francisca, “Coração Disparado” é um álbum ao vivo com cara de disco de estúdio pelo poder de fogo apresentado – a direção artística é do grande Gorky, o que explica muita coisa. Os dois violões conversam o tempo todo, estabelecendo uma sonoridade para além de versões reduzidas que geralmente são propostas para uma pegada acústica. Para ter uma dimensão mais ampla da proposta, vale ouvir “Demos ao Vivo e Outras Coisas”, disco exclusivo no Bandcamp com as ideias ausentes do material final, incluindo versões para Legião Urbana e Los Hermanos. Hein?
Bruno Berle segue suas investigações sobre a beleza. “Manhã” traduz bons sentimentos em um mix de lo-fi com sofisticação na produção que aos poucos traz novas camadas para um violão e voz inicialmente básico. Aos poucos, como raios de sol, chegam a percussão e o piano. O single fará parte de “Sem Fronteiras”, nome adequado para um trabalho gravado entre viagens por Alagoas, São Paulo, Minas Gerais e suas passagens pela Inglaterra e Alemanha.
Por falar em exclusividade, o Boogarins liberou apenas para os assinantes da sua newsletter (e no Bandcamp) uma coletânea chamada “DIFERENCIADO Vol.1”, composta por seis sons. Coisas gravadas em 2017, 2020, 2023 e duas de 2025, ou seja, duas após o lançamento do mais recente deles, “Bacuri”. A ideia do registro, mais do que liberar novos sons, parece ser estabelecer uma conexão mais direta com os fãs, daí a ideia de optar por deixar de lado as principais plataformas de streaming. O texto na newsletter ressalta que o artista não pode depender das redes sociais tanto para divulgação quanto para a maturação de suas ideias. Um movimento justo de tornar a internet legal de novo.
Seu Jorge é bom em fazer amigos pelo mundo. Convenceu Beck a cantar com ele a belíssima “River Man”, do Nick Drake. Com seu grave em contraste com o canto mais agudo do californiano, a regravação é o ponto alto de “The Other Side”, disco em que Jorge trabalha desde 2009. O álbum está pronto desde 2019, mas só saiu agora. Feito em Los Angeles com Mário Caldato Jr., é um trabalho de intérprete e em um clima bem diferente do balanço apresentado em “Baile à la Baiana”. Além de Nick Drake, o repertório passa por “Crença”, de Milton Nascimento e Márcio Borges, “Caboclo”, de Verocai e Vitor Martins, entre outras. Sua mesmo só tem “Quando Chego”, parceria com Marisa Monte e Arnaldo Antunes, um samba leve que promete tocar muito no rádio.
O segundo álbum da Tangolo Mangos levará o nome de “Pedagios Y Caronas”. Talvez tenha a ver com o momento de vida dos integrantes em constante trânsito. O primeiro single, escrito e cantado por Bruno “Neca” Fechine, é sobre sua mudança de Salvador para São Paulo e “a zona cinza, onde você não se sente mais de um lugar, mas também não é do outro”. Calminha, a canção corre durante uma partida de dominó entre amigos, provavelmente também em seus trânsitos. Entre uma jogada e outra, a vida corre, combinados correm, “pode trazer seu gato, mas cuidado com o cão bravo”. Ao vivo ela já é uma das favoritas dos fãs. Dá para entender a razão. Fica na mente. Vamos mais uma quedinha?
Os mineirinhos Ogoin e Linguini, presença constante aqui no Top, gostam de desbravar o passado a seu modo. Já fizeram disco dedicado aos antigos seriados de TV americanos exibidos em emissoras abertas por aqui (“TV Show”) e brincaram com o conceito do disco de greatest hits na “Coletânea Good Times”. Em “Sensualiza”, eles vão atrás do funk melody dos anos 1990 e contam com a colaboração de uma testemunha importante da história: Buchecha. Retrô daquele jeito que só é possível em 2026. Uma busca pelos tempos mais simples, sabe?
A gente tava com saudade da incrível Vivian Kuczynski. Cuidando dos sons de uma galera tão díspare nos bastidores (Jão, Pablo Vittar, Nx Zero, Alice Caymmi), ela reaparece com uma nova identidade: KUCZYNSKI. E é mesmo outra persona artística: menos focada na sua poderosa voz e mais atenta ao seu lado produtora. Inspirado em uma viagem pela Carolina do Sul ao som de Kraftwerk, o EP que também leva apenas seu sobrenome dá margem de como andam os estudos na música eletrônica. Saiba que obviamente ela já está nos módulos avançados. Pode emitir o diploma. Aliás, para quem lembra dos primeiros sons da novinha curitibana Vivian por aqui, deve saber que ela começou com 14 anos na música. Daqui a pouco são dez anos de carreira tendo 20 e poucos anos de idade. Prodígio demais para quem já fez o que fez. E ainda vai fazer demais, parece.
Zélia Duncan começou sua parceria com Maria Beraldo quando formaram dupla para apresentar ao vivo uma interpretação do álbum “Tom Jobim ao Vivo”. Em seu primeiro disco de inéditas desde 2021, Zélia traz Maria, sua “mais recente amiga de infância”, para a produção. Resultado: Zélia Duncan de um jeito nunca antes visto. A força de sua canção e voz se ganham um esquadro ousado proposto por Beraldo. Escapando um pouco da sonoridade de MPB mais tradicional de seus hits, o foco aqui é dar conta amplidão da voz de Duncan – o grave marcante fica destacada no fundo, dando espaço para percebemos as frequências mais altas. A estética combina com a composição de Zélia e Lucina ao descreverem uma vontade de conter tudo: o dia e a noite, o agudo e o grave, salgado e doce. Ninguém é sempre igual. Ainda bem.
Sabe quando a personagem de Fernanda Torres avisa “Nós vamos sorrir!” em “Ainda Estou Aqui”. É meio o que o veterano grupo pernambucano Mombojó resolveu fazer em “Solar”. O mundo anda capenga e até a expectativa que gira em torno da banda é de canções mais melancólicas, mas eles vão sorrir. Gravado ao longo de três anos e nas comemorações de 25 anos da banda, a temperatura do trabalho é de festa. Não por acaso, os amigos que participam são muitos: tem Letrux, Laetitia Sadier (do Stereolab), Hervé Salters (do General Elektriks), Sofia Freire, Domenico Lancellotti, Queops Negão. Se a realidade está ruim, abaixo à realidade!
11 – Exclusive Os Cabides – “Bicicleta” (2)
12 – Fresno – “Eu Não Vou Deixar Você Morrer” (2)
13 – João Carvalho – “Uma Festa no Centro do Vazio (com Clara Bicho) (2)
14 – Renan Benini – “Valsas de um Bolero” (2)
15 – FBC – “Bandido Bom” (2)
16 – Marcelo Cabral – “Grito” (3)
17 – Anitta – “Bemba (com Luedji Luna)” (3)
18 – Marabu – “Manda Beijo” (3)
19 – Juliana Linhares – “Depois do Breu” (3)
20 – Buhr – “Voaria” (3)
21 – Novíssimo Edgar – “Zum Zum Zum” (4)
22 – Silva – “ROLIDEI” (4)
23 – Tuyo – “Solamento” (4)
24 – Febem, Fleezus & CESRV – “M.P.B” (5)
25 – Rael – “Forma Abstrata” (5)
26 – Jovem Dionísio – “Nada Mais” (5)
27 – Vandal – “AH VERDADEH DAH CIDADEH” (5)
28 – Marina Lima – “Um Dia na Vida (com Ana Frango Elétrico)” (6)
28 – Cidadão Instigado – “Medo do Invisível (com Kiko Dinucci e Jadsa” (6)
30 – Schlop – “Clássicos” (6)
31 – MINTTT – “Liberdade Trade Mark” (6)
32 – Ottopapi – “Meus Podres” (7)
33 – Ítallo França – “Tire uma Hora pra Lembrar de Mim” (7)
34 – Tiny Bear – “Mathpop” (7)
35 – Gabriel Leone – “Minhas Lágrimas” (8)
36 – Getúlio Abelha – “Zé Pinguelo” (8)
37 – Chococorn and the Sugarcanes – “Mais Gentil” (8)
38 – Jonnata Doll e os Garotos Solventes & YMA – “Calçadas” (8)
39 – Thalin – “Vagando” com Nina Maia (9)
40 – Dany Roland e Pedro Sá – “Tudo Nada” (9)
41 – Pedro Lanches – “Vergonha” (9)
42 – Antropoceno – “Ayaba Oxum” (10)
43 – VHOOR – “Me Faz um Favor” (10)
44 – Romulo Fróes – “A Vida Que Já Era” (11)
45 – Julieta Social – “Cê La Vie” (11)
46 – Marcelo Callado – “Casca” (11)
47 – Lucas Santtana – “Liga (com Cocanha)” (12)
48 – Liniker – “Charme” (13)
49 – Vitor Araújo e a Metropole Orkest – “Toque N.3” (14)
50 – Isma – “Made In Cohab” com Tasha & Tracie, Carlos do Complexo e CARLO (14)
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* Entre parênteses tem a indicação de quantas semanas a música está neste Top 50.
** Na vinheta do ranking, Juçara Marçal e Thais Nicodemo.
*** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix.