Difícil amarrar os sons desta semana em um tópico. Parece quando cada amigo seu quer conversar de um assunto e todo mundo dispara a falar junto na mesa do bar. Tem gente gritando sobre horrores, gente querendo ir para a balada o quanto antes, galera querendo voltar para casa e aquele amigo seu que sempre parece desconectado de tudo assobiando uma melodia antiga. Agora escute a nossa playlist da semana e tente identificar cada tipo de amigo em cada uma das músicas escolhidas.

“URGH“. Que título para um disco capaz de provocar exatamente essa reação no ouvinte. URGH. Esta “Sevastopol” abre tudo com som de obra no vizinho distorcido e amplificado dentro de um pesadelo. Sem conseguir acordar somos atingidos por gritos, batidas quebradas e glitchy. Dos pedaços, a cama para a vocalista Valentine Caulfield vociferar uma letra tirada todinha do sexto capítulo do Livro do Apocalipse. URGH. Mais para frente, “I’ll Ask Her” é sobre a complacência dos homens com amigos com histórico de violência doméstica ou estupro. A força da letra é apoiada no duplo sentido do refrão: “They’re all fucking crazy, man”. “Elas são todas loucas, cara”, o argumento clássico para descredibilizar a vítima ou “Eles são todos loucos, cara”, o argumento clássico para absolver o criminoso. URGH. 2026 tem um disco com o seu rosto até aqui. URGH.
Não é uma mudança no som exatamente. O Muna segue na vertente synth-pop consagrada no álbum autointitulado lançado em 2022. Mas para este quarto disco do trio LGBT californiano é como se a noite tivesse avançado e o DJ resolvesse tocar algumas músicas mais intensas. É a hora onde só quem é de verdade sobrou na pista. Katie Gavin, Josette Maskin e Naomi McPherson estão mais soltinhas, confiantes. Não por acaso, elas juram que “Dancing on the Wall” é a melhor música já gravada pela banda. Talvez seja mesmo. O novo álbum do trio chega em maio.
A primeira aparição do Fcukers por aqui era sobre eles ressuscitarem o bloghouse. O single mais recente, “Beatback”, indica que vão ressuscitar também o Justin Timberlake e o Timbaland das safras entre 2002 e 2006. A referência é tão evidente que até contrataram um Justin de quinta categoria para um bacana vídeo tosquíssimo. O duo formado por Shanny Wise e Jackson Walker Lewis abre para o Harry Styles no Brasil.
Após um single levemente mais roqueiro para o álbum “Play Me”, a nova “Dirty Tech” vai para outro rumo. Kim Gordon trabalha aqui com uma base eletrônica de variação mínima, um hip-hop lo-fi. A letra também é mínima. Uma “dirty talk” vira uma “talk dirty tech”. Refletindo sobre o poder dado às IAs e os bilionários das big techs, Kim talvez zoe com nossa promiscuidade no uso de tecnologias nocivas a nós mesmos ou imagine o futuro onde restará para os humanos interações com robôs. Aliás, futuro nada. Essa já é nossa realidade. Já beijamos a foto pixelada, para ficar na expressão da Luiza Lian.
Em seu disco solo de contornos jazzísticos, Flea abriu espaço para uma reinterpretação instrumental de “Thinkin Bout You”, do Frank Ocean. Alternando entre o baixo e o trompete, o Chili Peppers faz o papel da voz enquanto é ancorada por um time de cordas no papel de orquestra. Só faltou o Frank Ocean mesmo para ficar impecável.
“No Rain, No Flowers” não é o melhor disco do mundo, mas colocou o Black Keys nos eixos depois de uma longa baixa. Qual é a de lançar já outro álbum tão cedo? “Peaches!” será um disco de covers, projeto bolado por Dan e Patrick para amenizar o luto após a morte de Chuck Auerbach, pai de Dan. Caçando os blues favoritos de sua coleção, eles se jogaram em jams gravadas ao vivo, com zero cuidados técnicos, recuperando o feeling dos primeiros lançamentos da banda. É uma sujeira das boas. O primeiro single é uma faixa de Earl Hooker, guitarrista de blues de Chicago ali nos anos 60, escrita por um tal de Ike Turner, conhece?
Nossa nepobaby favorita já pode dizer que tem músicas mais legais que as recentes do papai, o Dave. Já gostamos do single duplo “THUM” e “Applefish” quando estavam apenas no Bandcamp e seguimos curtindo agora que ele está por todo lugar, de um modo digamos mais oficial. Inclusive esta vem com um vídeo bem noventista com flores, velas e televisão de tubo. Seguimos achando que ela curte mais o “Live Through This” que o “Nevermind”.
O Wet Leg convocar o The Dare para dar um banho de pista em seu som mais provocante foi uma ideia muito boa no papel. Na prática, ele acabou esfriando a canção. Se ao vivo Rhian Teasdale se joga no chão para cantar essa, no remix tudo ficou muito bonitinho em seu lugar. Nice try.
Impressão nossa ou a condução meio torta da passagem da Rosalía pelo Brasil esfriou a recepção de “Lux’ por aqui? Sim ou não, não vale deixar o álbum pelo caminho. Ainda mais quando, à moda antiga, Rosalía solta um vídeo para “Sauvignon Blanc” meses depois do lançamento do disco, como se recuperasse o termo “música de trabalho”. Lembram disso? Hoje em dia é mais comum lançar os vídeos antes do disco, tudo junto com o disco ou até anos depois, como a Charli XCX fez, né? Aqui, abandonada no deserto, Rosalía abdica do material, se livra do amor que passou e faz virar realidade os versos “Mi luz/ La prenderé/ Con el Rolls-Royce/ Que quemaré”. Resta saber se algum Roll-Royce realmente foi ferido nas gravações.
Com birra do Geese? Vale ouvir de novo a banda a partir de uma escolha específica do repertório para a especial apresentação no Tiny Desk, onde Cameron Winter e cia. deram atenção a uma das menos ouvidas da banda, “Half Real”. Talvez a letra mais tranquila de entender do álbum “Getting Killed”, basicamente sobre a dificuldade de amar, também traz destaque para duas grandes valências da banda: o diálogo da guitarra de Emily Green com o virtuoso baterista Max Bassin. É na mão dessa dupla que o sofrimento arrastado de Winter ganha cores.
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* Na vinheta do Top 10, a banda noise inglesa Mandy, Indiana.
** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix.